CRÔNICAS SEM FILTRO: Destiny. Sem destino, por Marina Filizola

13183208_10209110893147551_262983084_n
Meu nome é Destiny.
Minha mãe caprichou.
Com certeza achou que eu ia ser alguém importante. Que eu ia fazer a diferença. Porra nenhuma. Sou só mais um. E um dos bem fodidos.
Eu acho esse nome um sacanagem. Falando sério, acho que essa bosta de nome me deu azar. Tenho 28 anos. Uma voz pastosa e atrasada. Dreadlocks tristes retorcidos numa cera empoeirada. Rosto comprido de uma forma não muito discreta. Nunca tenho nada de bom pra dizer. E quase sempre misturo Vodca com comprimidos para dormir.
Na medida certa de me manter respirando.
E meu nome ainda é Destiny.
Puta que o pariu. Jogaram uma maldição em mim.
****************
É outro mundo, cara.
A porra da droga me atinge em ondas.
E tudo a minha volta se transforma numa absurda hiper-realidade.
Meu sangue da tiros de 100 metros nas minhas veias. Minhas palmas ficam suadas, meus dentes trincam.
Tento acender um cigarro mas não consigo.
Meus dedos se mexem espasmódicamente. Meus pés quicam compulsivamente dentro do sapato. Minha cabeça formiga.
É como se eu corresse muito rápido e ficasse gelado, mas não sentisse nenhum frio.
Parece um milagre. Não existem obstáculos. E o mundo se torna acolhedor.
Existe algo de devastador nisso…quando ficamos presentes e ausentes ao mesmo tempo.
Mas não quero pensar no assunto. Nem consigo. Cheguei num determinado ponto em que a volta é um caminho longo demais. Eu sempre me senti um escroto de um Alien, o oitavo passageiro. Como se todo cretino tivesse recebido um manual de instruções que explicava a vida, menos eu. Achava filhadaputagem.
A orgia química sempre me libertou dessa sensação bizarra de isolamento. E me dava aquele manual de instruções que eu sempre quis. Eu não podia abrir mão disso. Estou faz uma semana sem atender o celular. 32 recados. Dessa vez acham que eu morri. Ouço o primeiro segundo de cada mensagem e apago.
Tanto faz.
Meu estômago retorce.
A escuridão esta chegando.
O céu fica amarelo, opaco, anêmico. Vou pra rua. Minha hora é essa.
******************
Apesar de todo lixo que ponho pra dentro, eu quero dormir.
Preciso dormir.
As vezes nada me importa. Nem isso. Mas escuto batidas na minha cabeça. E o sangue ralo vai se esvaindo das minhas veias.
Dessa vez estou ruim de verdade… Pisco os olhos algumas vezes. Figuras geométricas
rosas e verdes aparecem refletidas no vidro. A coisa vai mal. É como se uma torre de triângulos que piscam brotasse do chão.
Mas nem por isso acho o fim do mundo.
Estou acostumado com alucinações bem piores que essas. Tem uma luz que fibrila e solta um zumbido fanho. Acho que tem alguém falando comigo.
Mas não.
Estou sozinho.
Essa é a verdade.
As vezes parece mesmo que tem alguém.
Mas nunca tem.
Sempre acho melhor deixar quieto, ou acabo ficando maluco. E se tiver mesmo alguém, eu vou fazer o que? Que-se-foda. Fico achando que é tudo coisa da minha cabeça. E é mesmo. Deve ter uma ala psiquiátrica de algum lugar bem imundo me esperando.
Merda.
Alguma coisa esta destruindo a estrutura das minhas veias.
Vejo se meu coração está batendo. Está.
Se estou respirando. Estou.
Abro meu peito, minhas costelas estalam. Inflo o pulmão, meu peito sobe e desce. Ok!
Não acredito nessa coisa toda de deus.
Mas tem momentos que eu sei que estou vivo por milagre.
Penso que estou sendo sincero, mas vindo de mim nunca da pra saber se é verdade.
Nunca mesmo.
Nem as salas claustrofóbicas de terapia nenhuma conseguiram tirar isso de mim.
Estou no carro com o vidro fechado e um cigarro na boca.
Suando frio.
A atmosfera esta úmida.
Sinto como se o destino estivesse do meu lado.
Ironia do caralho. Nome de merda.
No fundo eu sei, estou me destruindo. Desesperadamente. Mas gosto de fingir que não
estou nem aí.
Choro muito. O vidro embaça.
Eu embaço junto.
*******************
Coloco um cd. Tento encontrar a música perfeita pra esse momento. Faixa 10. “This must Be the place”.
Nem sei como, mas vou direto nela.
Parece coincidência.
Finjo não me importar muito com a situação em que me encontro, embora as marcas de agulha no meu braço contem outra historia.
Não consigo não cantar.
Estou gritando num estado frenético e meu amigo me lança um olhar que me manda calar a boca. Eu não consigo. Talvez seja só um olhar de pena porque sou um derrotado obcecado. E se eu não cantar, eu acho que eu vou morrer. Sei lá. Eu preciso mudar essa porra de cd.
Seguro o volante gelatinoso e tento manter a cabeça no eixo com o resto do corpo. Olho do meu lado direito, tem um cara dormindo na calçada enrolado no cobertor parecendo um cadáver. Meu coração pula contra o peito e rebate na clavícula.
Puta que o pariu.
Meu corpo está revirando do avesso.
Encosto o carro. Olho no retrovisor e vejo minha pele escamada toda descamando.
Play. De novo. Preciso de som.
Mas o que sai é uma música irritantemente tranqüila, como as vozes daquelas fitas de meditação de merda que a gente é obrigado a ouvir nos centros de reabilitação.
Então me lembro: eu com certeza sou um viciado.
Mas está dando tudo certo.
Por enquanto.
Quero dizer…sei que vai acabar mal, mas preciso ver no que vai dar.
“-Não, você não precisa Destiny. Você quer”.
Porra! Meu subconsciente é escroto. “
“-Você esta cometendo um erro seu puto. Vai se fuder..!”
É…provavelmente estou. Provavelmente vou.
*******************
Eu até lembro de umas coisas do tempo em que eu era moleque.
Apesar da seqüela química que se arrasta comigo.
Quando eu estudava ajudava a dar comida para os pobres. É claro que todo mundo achava um pé no saco. Puta tortura. Inclusive eu. Distribuía pedaços de pão entre homens e mulheres que nunca se olhavam. E nem me encaravam. Acho que todas aquelas pessoas sentiam o peso da vergonha sobre os ombros. E eu era treinado a não dar nenhum pedaço a mais a ninguém.
Mas eu sempre dava.
Naquela época, não lembro o que eu pensei ao ver pessoas precisando pegar fila por comida. Acho que nem refleti sobre os motivos que os levava a estar naquela merda de situação.
Sei que sentia pena deles. Daqueles olhares vazios.
Mas de uma coisa eu tinha certeza: nunca na vida eu imaginei que ia me tornar um deles.
No entanto aqui estou eu, na fila.
Com uma senha na mão.
Ninguém se olha. Ninguém conversa.
Um silêncio que seria sereno se não estivesse transbordando em dor.
Toda minha atenção agora está voltada para um pedaço de chiclete amassado na
calçada, que ficou preto de tanto ser pisado.
Parece comigo.
De que sabor será que ele era?
Acho que não importa.
Na verdade, nada mais importa.
*******************
A maioria dos dias termina em noites de isolamento.
É triste.
Sempre acabo sozinho em alguma espelunca suja, trancado dentro do banheiro e tendo
alucinações. Lembro que no meio da tarde ainda haviam algumas pessoa comigo.
Não lembro onde nem quem.
E muito menos qual foi o momento exato em que o grupo se desintegrou.
Cada doido vai pra um lado.
Ninguém acompanha ninguém.
A cama está encharcada e fedendo.
A noite vira dia, vira noite, vira dia e eu não saio dali.
A arrumadeira bate na porta e eu não abro.
Deve estar falando de mim. Deve estar olhando pela fechadura. Por baixo da porta.
Ligando pra policia.
A paranóia é grande.
Fumo um cigarro sem filtro deitado no azulejo frio do banheiro e vomito varias vezes. Só
torço a cabeça pro lado. E as sombras que vejo debaixo da porta me deixam em estado de alerta.
Tem alguma pessoa me olhando pela fechadura.
Engatinhei 2 metros e encostei meu olho no trinco. Fiquei na mesma posição uns 45 minutos.
Sem respirar. Sem me mexer.
Comecei a suar frio, meu rosto formigava, as pernas adormeceram.
Nada.
Não era ninguém.
As vozes não eram vozes.
Eram barulhos dentro da minha cabeça.
Caí no chão com arritmia. Quase desmaiando.
Foquei toda minha atenção em sentir meus pulmões se expandindo e contraindo.
Adormeci no carpete mesmo.
***************
Uma mensagem da minha mãe. Quer tomar café da manhã.
Na verdade me parece bastante suspeito, mas estou sem comer a dias, então aceito.
Estou magro e pálido.
Minha mãe também não parece bem.
Parece doente.
Deve ser muito ruim ver o o filho morrer aos poucos.
Deve se sentir impotente diante da minha doença.
Como uma torrada e percebo que ela fica me observando. O barulho que faço enquanto
mastigo parece insuportável.
Com uma voz serena e tranqüilizadora, ela me oferece ajuda.
Diz que está procurando tratamento para mim.
Entre as condições impostas, diz que eu terei que fazer exames sem aviso prévio durante a semana, para detectar se estou usando droga. Eu fico apenas assentindo com a cabeça. Se os exames derem positivo, serei internado de novo num centro de reabilitação bem horrível.
Tenho memórias péssimas de clinicas.
Todo o horror me vem até a garganta e sinto náuseas.
Duas torradas mais tarde, consigo andar até o ponto de ônibus sem me sentir tão mal.
Enquanto o ônibus vai descendo fico observando as pixações nos assentos e penso na possibilidade de ficar abstêmio.
Agora, me parecia impossível.
Não que eu não quisesse, mas me parecia fácil demais entrar num ônibus e ir comprar mais uma dose e justificar meus atos para mim mesmo.
Deve ser assim em qualquer cidade.
O problema é que essa cidade, eu conheço muito bem.
E já tinha pensado outras vezes em parar.
Mas quem nunca tentou parar, meu amor? Já fui a um programa de doze passos, esse tipo de coisa. Mas não entendi nada. Disseram que a expectativa de vida pra quem usa cristal e heroína é de três anos em média.
Mas eu já uso essa merda há pelo menos seis anos e continuo bem.
Acho que eu não preciso me preocupar.
marinafilizola

Leia os textos anteriores da Marina Filizola

Um comentário sobre “CRÔNICAS SEM FILTRO: Destiny. Sem destino, por Marina Filizola

Deixe uma resposta para Jean Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s