Vencedor do Festival É Tudo Verdade, ‘O Futebol’ é o eterno 1×1 da relação pai e filho

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Em abril de 2013, durante uma viagem a São Paulo, eu procurei a meu pai. Fazia mais de vinte anos que a gente não se via e não sabia nada um do outro. Faltava um ano para começar a Copa do Mundo no Brasil, então eu propus da gente se encontrar de novo um ano depois e passar a copa inteira juntos. Ele aceitou a minha proposta.

Vencedor da Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens do Festival É Tudo Verdade, O Futebol, de Sergio Oksman é um ensinamento das relações complicadas entre pai e filho que permeiam os enredos de filmes. Mas foi justamente com um documentário brasileiro que mais tratou a realidade do afeto afastado e dos diálogos silenciosos que só são interrompidos para se perguntar sobre a Copa e futebol dos anos clássicos, assim como dos jogadores do passado. Quantos relacionamentos paternos, no Brasil, são a partir do futebol?

O documentário conta com a relação de Sergio e seu pai, Simão. Os dois não se viram ao longo de 20 anos. Em uma abertura magistral, Sergio, em narração off – que abre o texto -, relata que fez uma proposta ao pai em 2013 para que ambos, daqui um ano, se encontrassem novamente para assistirem todos os jogos da Copa do Mundo, que foi realizada no Brasil. A cena se abre com os dois olhando para a câmera em um vazio Pacaembu, estádio em aviso prévio do tempo. Assim podemos enxergar estes pai e filho apresentados. O fatídico silêncio do Pacaembu, onde Sergio apontou como sendo o seu lugar de infância junto ao pai para assistir os jogos do Palmeiras. Hoje, em outra geração. Sem torcida e gritos, somente o som da chuva interrompe a solidão afetiva. Em certa parte do documentário, Sergio relata a Simão que recordava dos domingos, quando pequeno, que saía com o pai e o irmão para andar de carro e, anos depois, a memória misturava a fala do pai com a do radialista do som do veículo. É uma minuciosa conversa entre os dois que buscam o passado na tentativa de um diálogo no presente.

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A realização da Copa de 2014 no Brasil fornece ao filho, que mora na Espanha, um pretexto para conviver algum tempo com o pai. As sequências dentro do carro são claustrofóbicas, pois não tem para onde fugir da companhia não correspondente. A falta de assunto em uma São Paulo nublada e fria só possibilita a conversa curta, mas que esmiúça um pouco da característica de Simão. Amargurado, preocupado com dinheiro e solitário. Uma relação onde os dois torcem para o mesmo time, mas o pai fica no geraldino e o filho no arquibaldo.

No filme, a Copa é a trilha sonora. Ela coloca som ao ambiente e, como na proposta de Sergio, dá o mote do enredo. O espectador não quer saber dos jogos, esses são momentos passados. E mesmo que a convivência seja no período da Copa, a relação entre os dois é algo novo para o público. As conversas puxam os fragmentos da lembrança. A cena do vídeo de casamento faz acender em Simão as questões deixadas em aberto pela distância.

O Futebol tem também como enquadramento a distância. Vemos nas cenas a câmera em suspenção afastada dos dois personagens. Identifica-se nas sequências de Simão no balcão do bar, dentro do carro e no hospital. Aliás, as sequências no hospital são incríveis. Uma mistura de agonia límpida. O branco fúnebre de uma ala hospitalar e seus pálidos funcionários em um período de celebração que foi o evento da Copa. A escolha perfeita para dialogar com o histórico 7 x 1 da Alemanha na seleção brasileira.

O clímax inesperado é um baque para o espectador. Em um corte, a direção apresenta o fim repentino de uma relação, mas aponta para uma realidade tão profunda que deixamos de lado que aquilo que assistimos é a vida dos outros, passamos a se importar com a dor daquele momento. E faz pensar onde estávamos naquele período durante a Copa. No final, acompanhamos o silêncio de Sergio pelas ruas de São Paulo durante a final entre Argentina e Alemanha, somente interrompido para saber quem afinal fez o gol derradeiro. O Futebol é um excelente documentário que aborda a relação de pai filho em um eterno 1 x 1 das afetividades nos acréscimos do segundo tempo.

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O FUTEBOL

SERGIO OKSMAN

SÃO PAULO, MADRI / BRASIL, ESPANHA

70′, DIGITAL, COLORIDO, 2015

Diálogos: Português

Legenda: Inglês

Classificação: Livre

TRAILER

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