CRÔNICAS SEM FILTRO: Monólogo de três, por Marina Filizola

13084188_10209138102667772_399575729_n

Sexta-feira.
Seria um dia qualquer.
Se eu fosse uma pessoa qualquer.
Com amigos comuns.
Primeira ação: recrutar as lokas.

Frita #1
– Ow, cê tá sem filho hoje?
– Tô graças a deus. Fim de semana do pai.
– eu também.
– Viva a separação, putaqueopariu!
– Vamo pra sala? 16:00 lá. Pode?
– Preciso, minha mente tá blindando.
– … mulherada surtada, a saga continua.
– Tamo na média da adictolândia.
– Padoca antes. Te vejo lá bitche.

Frita #2
– Ow doente-mental, tá aí?
– Tô. Totalmente esquizofrênica: falando-sozinha mordendo parede boca-espumando e virando-os-zóio.
– Qual foi, surto número 2.649 da semana?
– Cortei o remédio. Chega. Essa coisa de tirar aos poucos não funciona. Foda.
– Aqui na nossa tribo não dá usar nada paliativo.
– Não memo. É cortar pela raíz e cair na abstinência de peito-aberto.
– Tá passando mal?
– Orra! Boca-formigando suadeira-gelada looping-mental ostracismo-emocional tá foda putaqueopariu tô virando do avesso.
– …guenta firme mulé. Marquei na padaria aquecimento-lingual e desabafo pré sala de exorcismo. Padoca e reunião então?
– Peloamordedeus preciso. 16:30 lá.

Quem já tava chegando obviamente atrasou, quem não tinha condições de dirigir já estava lá. No fundo cada uma atarantada de um jeito, a pasta-mental no final dá no mesmo patê. Telefone brilhando:
–  cadê vocês porra?
Quatro minutos depois começa o monólogo de três na mesa da padoca. As três ansiosas com problemas indecifráveis, os velhos-dilemas eternamente sem-desfecho baseados em rupturas cerebrais com danos-incalculáveis, duvidas estúpidas sobre coisas óbvias. Aflições sem-fundamento, a doença do ‘pêlo em ovo’. Adicto é bicho esquisito que fala em língua codificada sobre assuntos cretinos.
Monólogo de três:
– Tô passando mal. Estamos. Revertério? Surto. Não posso com química. Só perbecebeu agora? Vixe. Remédio é pedrada no nosso sistema. Relacionamento é pior. Pior? Pior. Efeitos colaterais bizonhos. Medo de ficar sozinha. Você consegue. Consigo nada. Consegue sim dodói. Eu não vivo sem remédio. Vive sim otária. Boca-formigando. Terror. Eu não vivo sem homem. Tá loko esses exus. Exu? Corta o namoro e investe num pinto-delivery. Será? Porra não fode. Fica sozinha, deixa de ser louca. Medo de ficar sozinha. Medo de cocaína, isso sim. Medo de mim sem remédio. Bando de cagonas. O cara não presta, mas…O “mas” que te fode. Dá um tempo! Recuperação de merda. Devia ser proibido esses bostas na face da terra. Não é bosta. Não? Ixi, senti uma tensão! Não gostei do tom. Preciso de remédio, tô descompensada. Não precisa. Preciso acreditar. Faz o que com a abstinência? Sente e não enche o saco. Tremedeira maldita parte III. Nego postando merda com meu nome. Toma. A fama? Não. Inveja zóio-gordo falta-do-quê-fazê. Foi jogar a adictolândia no mapa, se fudeu. O povo não tá preparado filhota. Responsa né jumenta. Agora aguenta. É muita realidade num murro só? É. Fodase. Esses povo hipócrita. Não durmo. Arrasto comigo problema dos outros, crê? Nosso dom de se punir. Fritando pra dormir comadre. Fritando pra acordar, realiza. Fritando acordada, não tem preço. A gente tá zoada. Tamo nada. Café? Três. Reunião peloamor. Cigarro não fumo. Eu fumo memo. Parei ontem hoje voltei. Tá foda hein. Promessas de dez minutos. Amor de dez segundos. Remédio a vida inteira, please! Alguém tem que continuar fumando. Pra contar? Pra se fuder no meu lugar. Ah vá, que fofa! Quantas bolinhas saíram do escript? Todas as bengalas. Agora não anda, a jumenta se arrasta. Deu. Reunião. Antes que a gente se mate.

Na reunião aquilo. Ordem no galinheiro. Tem que pedir pra falar, putaqueopariu graças a deus, senão é um falando em cima do outro. Um fala o resto fica quieto. Dentro da medida do possível. Por isso o sino. Pra atacar na cabeça de quem não cala a boca. Na padaria não tem sino, complica o sistema.
Reunião: sete minutos de puro egocentrismo: eu eu eu eu meu meu meu meu, luxo dos luxos. Nego fala sete minutos e escuta uma hora e cinquenta. Quando o cérebro não tá blindado, claro.
Duas horas depois o alívio e o medo: hora de ir pra casa. E em casa o bicho pega. Na reunião a coisa ameniza que está todo mundo louco junto. Mas quando a loucura fala com as paredes, o som rebate no rejunte e vota seco dando um murro no estômago. Eu dormiria naquela cadeira azul.
Desci as escadas.
Apareceu ele.
– Posso falar com você um minuto?
– Manda homem. Sumiu?
– recaí.
(o povo recai mesmo, não é fácil. Se fosse aquela merda de sala tava cheia)
– Cacete hein, dificuldade colossal de entender que perdeu né…
– Quero te falar…
– Fala.
– …que acompanho seus textos e foi você..
– eu?
– é, você, eu só vim aqui te agradecer..
– O quê doido?
– Amanhã estou indo me internar logo cedo..
(os olhos cheios d’água transbordando esperança)
-…e seus textos sua literatura me empurrou para isso. Quero me salvar. Quero sair disso. Quero ser feliz. Você me fez acreditar. Eu vim dizer  “Obrigada, você está salvando minha vida.”
– ..quando você sair a gente vai estar aqui te esperando.
(abraço silêncio e gratidão)
Estou no caminho certo.
É o tipo de sentimento que eu não saberia explicar.
Gratidão pelas minhas escolhas. E que outras pessoas continuem a caminhar comigo.
SPH

marinafilizola

Um comentário sobre “CRÔNICAS SEM FILTRO: Monólogo de três, por Marina Filizola

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s