Duas grandes revoluções (Por Marcelino Freire)

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Duas revoluções em cena: Bola de Nieve e Bonobando

Está precisando o nosso coração. De uma grande revolução desde já. E ouso testemunhar: duas estão em curso. Agora, no ar. Uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro.

Prepare, companheira, companheiro, as armas do peito.

Em cartaz, às terças-feiras de maio (hoje tem), às 20 horas, no Teatro Olido, centro de São Paulo, sobe ao palco o pianista, cantor e compositor cubano Bola de Nieve.

Morto em 1971, ele está vivo. Vivíssimo. Em sua negritude, gemido, grito, sorriso, urgente de sentidos.

Explico: a cantora Fabiana Cozza, ao lado do pianista Pepe Cisneros, revisita clássicos como “Vete de Mi”, “Ay, Amor” e “Tata Cuñengue”. Mais do que revisita. Pontua, inaugura, empresta o corpo. Com que grandeza e pertinência! Politica e liricamente tomada pela aura crioula do Nieve.

Um concerto gigante. Salve, salve! E olhe que já vi Fabiana à frente de grandes homenagens. A Clara, a Elizeth, ao samba, a Edith Piaf. Mas aqui, neste “Canto Teatral para Bola de Nieve”, sob direção precisa, apaixonada e mortal (porque nos arrebata) de Elias Andreato, algo aconteceu.

Sobretudo, na atmosfera atual.

Não é show. Não é musical. Vai além. Todo artista sabe bem a hora de dar o recado. De arregaçar o verbo, a voz aos saltos. É antológica a aparição da cantora – toda em preto. Por dentro e por fora. Por exemplo, na hora em que enterra os restos mortais de nossa pátria (em “Babalú”) ou em que pede extremoso cuidado ao nosso coração em frangalhos (na arrepiante “Be Careful, It´s My Heart”). Ao solo do piano do também cubano Pepe – ao que parece, nota a nota, dizendo a cada um de nós: se toque. Avante, moçada, à rua. Estamos juntos nesta luta. Só a arte, de verdade, é o que nos salva.

E no Rio, a mesma manobra. Na raça. Digo, agora, do espetáculo “Ocupação Cidade Correria”. Há muito tempo eu não via tamanha entrega. Em cena aberta. Jovens atores da periferia compuseram uma arena política. Muito mais do que política: lírica raivosa. De enfretamento coletivo. Chegam tomando nossos pulsos nervosos. Grave, desde já, o nome do grupo: Bonobando.

Vez ou outra me pus a dizer: o que há anos atrapalha o teatro carioca é o Projac. Nas peças que por lá pisei, tudo sempre feito, pálida e frigidamente, para entrar na Globo. O ator, estrelinha, querendo ser visto na ribalta e ir logo para a telinha.

Longe disso nesta “Ocupação”. Quanta liberdade! Para falar das feridas da cidade. Do descaso. Da cor da pele atravessando a paisagem. Em cenas memoráveis, como a do ator Igor da Silva, tirando uma roupa atrás da outra e mostrando que, por trás da farda de policial, do uniforme de gari, do avental de doméstica, até por dentro da sunga vermelha da praia, é tudo negro. E pobre. No imenso espelho que nos espelha, trágico e nu.

A peça, já clássica porque necessária, ocupará o Teatro Sérgio Porto, no bairro de Humaitá, até o final deste mês de maio. A direção, impecável, é da dupla Adriana Schneider e Lucas Oradovschi. A dramaturgia, pulsante e vibrante, é dos jovens ali reunidos. Explosivos, rasgados de paixão. Prontos, assim como Fabiana Cozza, para a verdadeira revolução.

Você, por acaso, vai ficar parado aí em casa, com tudo isto acontecendo à nossa volta? Hein? Hermano, mana, meu irmão?

marcelinofreire

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