LITERATICES E OUTRAS CONVERSAS: ‘O Vergilio Ferreira que eu conheci…’ (por Jorge Valentim)

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Todas as formas de arte existem no presente em que as contactamos, ainda que nos remetam para outro tempo. Mas a música vem logo da distância, não existe no momento em que a ouvimos, mas num tempo que não sabemos.  A música é sempre anterior a si, de tempo nenhum, de um absoluto não presentificado, de um tempo anterior ao tempo, de um tempo fora dele, da eternidade.

[VERGÍLIO FERREIRA. Pensar.]

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O escritor Vergilio Ferreira

Em 2016, toda a comunidade acadêmica está em festa. Comemora-se o Centenário de Nascimento do escritor português Vergílio Ferreira (1916-1996), além dos 20 anos de sua ausência. Em tempos de iminente silenciamento da literatura portuguesa nos mais diferentes níveis de ensino no Brasil, dar visibilidade, falar sobre e mostrar a relevância de certos escritores portugueses nunca é demasiado. Pelo contrário, ainda mais se tratando de um autor tantas vezes estudado por ensaístas brasileiros, inclusive com incursões comparatistas com Clarice Lispector, por exemplo. Nomes como os de Luci Ruas, Maria Lúcia Dal Farra, Ivo Lucchesi, José Rodrigues de Paiva, Nelly Novaes Coelho, Aniceta de Mendonça, João Décio, Suely Flory e Carlos Machado são alguns dos exemplos daqueles estudiosos nacionais que se debruçaram sobre a obra do escritor de Gouveia e deixaram registrado o seu inestimável legado à cultura de língua portuguesa.

Dentre os portugueses, não posso deixar de citar Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho, João Gaspar Simões, Jorge de Sena, Luis Mourão, Rosa Maria Goulart, Helder Godinho, Fernanda Irene Fonseca, Isabel Cristina Rodrigues, Alípio de Melo, João Tiago Lima, José Antunes de Sousa, Maria Alzira Seixo, Maria da Glória Padrão, além de tantos outros nomes importantes do meio acadêmico. Todo este elenco revela a grandiosidade do escritor e sua incontornável contribuição aos cenários literário e cultural de língua portuguesa.

Abordar, portanto, mesmo que brevemente, a trajetória de Vergílio Ferreira, torna-se fundamental para conhecer um pouco o homem e estimular a leitura do grande escritor que foi. Mas, ao contrário de tantos trabalhos acadêmicos, deixo, aqui, registradas algumas cenas de uma memória não tão distante (mas, também, não tão próxima), na esperança de que esta coluna promova uma justa homenagem ao autor de Aparição.

Meu primeiro contato com Vergílio Ferreira ocorreu em 1985, quando, cursando uma disciplina de Literatura Portuguesa, a professora ministrante mencionou por diversas vezes o escritor e o seu trabalho ensaístico singular. Curioso, descobri que a dissertação de mestrado da mestra centrava-se, exatamente, sobre o romance Nítido Nulo. E, por isso, antes de ler o seu trabalho, decidi levantar a obra na Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ e comecei a lê-la

Confesso que foi uma experiência impactante. Ao contrário de outros colegas, o meu primeiro encontro com Vergílio Ferreira não foi com Aparição, seguindo a mão do narrador pelas ruas e vielas de Évora. Foi com aquela trompete apocalíptica, anunciando uma necessidade de mudança de caminho e de uma emergência do homem em recuperar a sua autonomia. Em outras palavras, foi marcante e, ao mesmo tempo, devastador para o imaginário de um estudante de Graduação em Letras. No entanto, no lugar de me assustar, a primeira leitura acabou me deixando uma impressão tão forte que, somente anos mais tarde, eu conseguiria dimensionar a grandeza do escritor que tinha em mãos.

Concluída a minha Licenciatura, com uma monografia sobre a música e as artes plásticas em alguns cantos d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, ingressei no curso de Mestrado em Literatura Portuguesa, acreditando, naquela época, que o trabalho final seria sobre um outro escritor, muito em voga, por causa de polêmicas envolvendo uma publicação rejeitada para um concurso europeu. Completamente perdido, e sem norte sobre o meu destino final, encontrei, por acaso, a Profa. Doutora Simone Pinto de Oliveira, que me presenteou com um romance, depois de ter afirmado que a minha paixão no estudo da ficção portuguesa girava em torno das possibilidades de diálogo desta com a música.

Foi, assim, meio despretensiosamente, que ganhei um exemplar de Cântico Final, de Vergílio Ferreira. Foi o momento de mudança radical na minha vida. Na verdade, foi um reencontro salutar, porque, na angústia da personagem principal, Mário, vi e senti eu próprio que não se pode simplesmente sufocar uma paixão, seja ela de que ordem for, ainda mais se esta se dirigir ao exercício da Arte. Ao mesmo tempo, esta escolha foi decisiva para a minha trajetória acadêmica, porque o autor português não só contribuiu para que o meu caminho acadêmico fosse traçado, como me fez reencontrar também a pessoa responsável por hoje eu ser um professor de literatura portuguesa no Brasil.

Escolher Vergílio Ferreira como meu porto seguro significou eleger a Profa. Doutora Luci Ruas como minha orientadora e mentora. Graças a ela, concluí o Mestrado e o Doutorado em Literatura Portuguesa, sempre com a perspectiva de leitura comparada entre literatura e música, e ingressei no magistério superior na Universidade Federal de São Carlos, depois de um concurso disputadíssimo.

Mas, se a minha memória afetiva de Vergílio Ferreira passa, necessariamente, por um reconhecimento também afetivo da mestra responsável pela minha iniciação, também foi graças à sua persistência em não me deixar desistir, nos momentos de cansaço e abatimento, que pude encontrar Vergílio Ferreira pessoalmente.

Lembro-me, ainda, com alguma nitidez de cenas passadas no seu apartamento na Avenida dos Estados Unidos, em Portugal. Foi, exatamente, no dia 25 de abril de 1994. O Paço, todo tomado por uma multidão calorosa, comemorando os 20 anos da Revolução dos Cravos, enquanto, por algumas ruas tranquilas e quase sem trânsito, o taxi conduzia-me até à residência de Vergílio Ferreira. Confesso que eu mal conseguia acreditar que, depois de três cartas e de alguma insistência, ele havia concordado em me receber.

Ir ao encontro do escritor, enfim, era, para mim, uma grande novidade, afinal, nunca antes havia realizado algum trabalho científico com a possibilidade de dialogar com ele. Estava, entrando, portanto, num mar nunca dantes navegado, pelo menos por mim. E foi, sem dúvida, uma surpresa gratificante, porque me imaginava como Davi, diante de um Golias, só que o meu, ao contrário do da Bíblia, era praticamente invencível, dando-me a sensação de pequenez diante da sua grandiosidade.

Ao vê-lo sentado, lendo calmamente e, depois, erguendo os seus olhos penetrantes e interrogadores, fui me sentindo também sem ação e sem conseguir encontrar qualquer palavra que pudesse expressar a minha alegria e o meu alarme. Sensível como era, logo Vergílio Ferreira percebeu e convidou-me a olhar uma parte dos seus discos, já que sabia do meu foco de investigação sobre a sua obra. Havia escrito, meses antes, comunicando o meu interesse em escrever a minha Dissertação de Mestrado sobre a música como metáfora na construção de Cântico Final.

Tentando, portanto, quebrar um certo gelo da formalidade, ele me perguntou: “O que pensas de Bach?”. Imediatamente, recordei a sua resposta à Maria da Glória Padrão: “Música? Só um: Bach” (FERREIRA, 1981, p. 140). E falei categoricamente que, em música, Bach era uma figura central e única. Ora, o sorriso simpático que ele me lançou deu-me a sensação de que eu havia agradado o meu interlocutor com a resposta. Ledo engano. Com aquela mesma expressão, ele revidou de maneira pontual: “Não perguntei o que tu sabes sobre o que eu penso de Bach, mas perguntei-te o que TU pensas sobre o compositor. Eu quero saber o que tu achas, sobre o que eu penso, sei-o muito bem, tanto que já está publicado!”

Apesar do receio de responder, a sua provocação desencadeou uma série de sensações. Na época, eu cursava algumas disciplinas em “Órgão Instrumental”, com a Profa. Doutora Gertrud Mersiovsky, e tinha de estudar com ela um dos Trios Sonatas de Johann Sebastian Bach. Foi a partir desta experiência que fui expondo a Vergílio Ferreira as dificuldades encontradas na leitura e na compreensão do universo polifônico e contrapontístico do compositor alemão, a sinuosidade e a engenhosidade do mestre de Eisenach em construir verdadeiras redes tonais e sonoras, a elegância e a clareza na construção de frases melódicas que se encadeavam em perfeição. Enfim, foram as angústias de um jovem intérprete, tentando vencer as dificuldades de uma obra com dimensões hercúleas que o escritor me ouviu. Praticamente, mal o deixei falar ou interromper-me, e, passados tantos anos, ao relembrar esta cena, acredito que ele, realmente, não queria cortar a minha linha de pensamento sobre o seu compositor preferido. No final, ao perceber a minha ânsia e a minha entrega em responder a sua questão, ele levantou-se, colocou a mão sobre meu ombro, olhou-me novamente com aquela expressão e disse-me: “Agora, sim, podemos conversar. Aceitas um café ou um chã?”

Depois disto, foi uma conversa longa e prazerosa, marcada por preferências musicais, seus intérpretes e as nuances de determinadas composições. Enfim, toda aquela tarde constituiu, desde sempre, um tempo do inesquecível, uma memória afetiva insuperável. Talvez, por isso, as décadas que separam este encontro e a escrita do presente texto não tenham de todo apagado as suas marcas, posto que estas ficaram comigo como um verdadeiro espaço do visível de sua presença.

Ao longo de minha trajetória acadêmica, ainda em curso e em construção, recebi algumas críticas pouco elogiosas sobre a tentativa de ler comparativamente alguns textos literários e suas estruturas com certas composições musicais e suas morfologias. Apesar disto, ainda continuo acreditando neste caminho de interrogação e análise, e aquele encontro de 1994, tem, certamente, uma contribuição significativa nesta minha insistência que, sublinho e reafirmo, não é sem fundamento.

6816823Por isso, a recepção da notícia de sua morte, em 1996, no Brasil, pegou-nos absolutamente desprevenidos. Apesar dos seus 80 anos, ainda tínhamos no nosso imaginário a figura de um homem inabalável e indestrutível. Naquela época, o seu falecimento constituiu uma mistura de surpresa e de insatisfação, afinal, como não poder mais esperar por uma outra obra sua? Como superar a idéia de que outros alarmes romanescos não viriam mais abalar a nossa estabilidade? Como não poder ouvir mais a sua voz?

No meio destas interrogações, corri ao escritório de digitação (que, naquele tempo, começava a deixar de lado a produção em máquinas de datilografia e passava a imprimir trabalhos feitos em computadores) e pedi que fosse acrescida mais uma página ao texto de minha dissertação. Assim, logo no pórtico, lê-se uma homenagem in memoriam: “Para VERGÍLIO FERREIRA, homem e artista lúcido, escritor de primeira grandeza, cuja ausência (prematura?), sentida nos momentos finais da composição deste Cântico, deixa lacunas impreenchíveis. Vai-se o corpo, mas permanece viva a sua arte: ‘Em nome da terra, dos astros e da perfeição’” (VALENTIM, 1996, p. 4).

Apesar do tom excessivamente laudatório, a dedicatória expressou exatamente aquilo que sentia na época. Vergílio Ferreira morreu, e eu não podia fazer nada a respeito, a não ser homenagear e reverenciar o grande escritor que foi. De acordo com a Dona Regina, sua esposa, o meu texto, Cântico Infindável: a música como metáfora na ficção de Vergílio Ferreira, foi o primeiro trabalho acadêmico defendido depois do seu falecimento. Não sei se isto quer dizer alguma coisa, mas, para mim, naquela época, representou uma espécie de certeza: se dependesse de mim, a sua voz não cairia no esquecimento. Ainda bem que estava certo.

Depois de 1996, defendido o Mestrado, entrei numa fase praticamente ininterrupta de concertos e recitais, em salas de concerto e teatros que iam da Sala Cecília Meireles (no Rio de Janeiro) ao Teatro Amazonas (em Manaus). E Vergílio Ferreira acabou ficando apenas nas leituras. Mal sabia eu que o caminho que me levaria de volta à obra do escritor estava mais perto que imaginava. Em 1999, depois de ter sido aprovado no concurso para Professor Substituto de Harmonia, Morfologia e Estética Musical, do Departamento de Composição da Escola de Música da UFRJ, mergulhei definitivamente no magistério superior. Só, então, compreendi que o Mestrado era insuficiente para ingressar no meio acadêmico.

Graças a uma intervenção insistente da Profa. Luci, que me encontrou ao acaso, depois de uma caminhada, elaborei meu projeto de doutorado e submeti-o ao Processo Seletivo na Faculdade de Letras da UFRJ. Mais uma vez, lá estava Vergílio Ferreira comigo. E, mais uma vez, o final, foi surpreendente. Por diversas vezes, tentei conciliar as duas funções: a de correpetidor e professor da Escola de Música da UFRJ com a de aluno do Curso de Doutorado. À primeira vista, poderia ser uma tarefa inglória, mas foi um acidente muscular que acabou decretando o final de minha carreira como músico e consolidando definitivamente a minha dedicação ao magistério.

Longe de ser um sacrifício, foi, afinal, um descobrimento e a constatação de uma certeza: era exatamente isto que eu queria para a minha vida. Propor diálogos comparativos a partir do viés das leituras intertextuais e suas ocorrências em obras significativas da literatura portuguesa do final do século XX constituiu um caminho feliz e salutar de escolha e dedicação. E, novamente, Vergílio Ferreira lá estava, com o seu oboé e o Concerto de Mozart para clarinete e orquestra, seduzindo o meu ouvido musical a entrar numa conciliação com o meu olhar e o meu modo de ler o seu texto.

Passados mais de 10 anos depois da defesa da minha Tese de Doutorado (Concerto literário: intertextos musicais e sons metafóricos em Helder Macedo, Albano Martins e Vergílio Ferreira, 2004), acredito que aquele encontro de 1994 foi decisivo para a minha trajetória. Talvez, por isso, a memória que guardo do escritor é uma memória essencialmente afetiva, que, apesar das décadas de distância, ainda não se apagou. Nem poderia, afinal, é do próprio Vergílio Ferreira uma das lições mais sábias: “Só na memória o prodígio é eterno porque só é eterno o impossível. Foi bom por isso resgatar na imortalidade a tua mortalidade. Porque vens, ainda, imagem do meu desassossego? Não voltes mais, Há já tanto para ser em inquietação…” (FERREIRA, 1992, p. 210).

São Carlos, 29 de abril de 2016.

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Confira os textos anteriores do Literatices 

Referências bibliográficas:

FERREIRA, Vergílio. Pensar. 3ª. edição. Venda Nova: Bertrand Editora, 1992.

__________. Um escritor apresenta-se. Apresentação, prefácio e notas de Maria da Glória Padrão. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1981.

VALENTIM, Jorge Vicente. Cântico Infindável: a música como metáfora na ficção de Vergílio Ferreira. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ, 1996 (Dissertação de Mestrado em Literatura Portuguesa).

___________. Concerto Literário: intertextos musicais e sons metafóricos em Hélder Macedo, Albano Martins e Vergílio Ferreira. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ, 2004 (Tese de Doutorado em Literatura Portuguesa).

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