O governo impopular. Por Wilson Alves-Bezerra

Foto: Pedro Ladeira (Folhapress)

Foto: Pedro Ladeira (Folhapress)

Michel Temer, o presidente que assumiu interinamente, no dia 12 de maio de 2016, a República Federativa do Brasil, é impopular. Em sua posse não havia ninguém celebrando-o nas cercanias do Palácio do Planalto. Nas eleições de 2014, Michel Temer não recebeu um só voto: vice decorativo que era – em suas próprias palavras – estava ali para garantir que seu partido, o PMDB, apoiaria a chapa de Dilma Rousseff e comporia o governo. Há três semanas da posse, Michel Temer, segundo pesquisa Ibope, tinha desaprovação de 62% da população brasileira. De onde concluímos, preliminarmente, que o atual governo não foi deliberadamente eleito pela população brasileira, não teve seu apoio há três semanas e continuará não tendo.

Empossado presidente interino, por no máximo 180 dias, Michel Temer demonstra com clareza, que tampouco governa para o povo. No dia de sua posse, através da Medida Provisória 726, “extingue” (sic), dentre outros, o Ministério da Cultura, o Ministério das Comunicações, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Cria, dentre outros, “o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle” (sic). Políticas públicas progressistas, sob responsabilidade de ministérios cuja existência era efetiva mas também simbólica, dão lugar a procedimentos do Ministério do Controle, com poderes policialescos e totalitários, dentre eles: “f) efetivação ou promoção da declaração da nulidade de procedimento ou processo administrativo, bem como, se for o caso, da imediata e regular apuração dos fatos envolvidos nos autos e na nulidade declarada; g) requisição de dados, informações e documentos relativos a procedimentos e processos administrativos já arquivados por autoridade da Administração Pública Federal”.

Instaura-se, à força de medida provisória, não apenas a supressão do Ministério das Mulheres, mas também, a supressão de qualquer ministra mulher. Para o presidente impopular, lugar de mulher é o lar. O ministério do presidente impopular é composto não por notáveis, como ele chegara a declarar a jornalistas, mas de políticos investigados por corrupção na Operação Lava Jato, derrotados em eleições diversas e, à imagem e semelhança do presidente, também impopulares.

Um deles, o impopular ministro do trabalho, de cujo nome não posso e não quero me lembrar, declarou ontem, ainda antes de ser empossado, à Rádio Bandeirantes, que não se devem confundir benefícios com direitos trabalhistas, e que a CLT foi um lei importante, mas que é do milênio passado, e finalizou afirmando que é preciso modernizar as leis trabalhistas. Cada qual poderá entender o eufemismo como lhe aprouver. Modernidade e ponte para o futuro não se sustentam sequer na simbologia do governo impopular; seu lema é o obscuro e oitocentista “Ordem e Progresso”.

O novo ministro da Educação e Cultura é um político pernambucano chamado Mendonça Filho. Infelizmente, não se trata de Kleber Mendonça Filho, o cineasta do Recife, responsável pela obra prima “O som ao redor” (2012), que colocou em cena a nova classe média urbana, em ascensão durante os governos do PT, em narrativa tensa. Trata-se de um político impopular, do PFL (no atual contexto, soaria patético referir-se a democratas), filho de outro político impopular. Visitando seu site, não se vê um só projeto seu nas áreas de cultura e educação, ou em qualquer outra área; pesquisando seu nome no youtube, só se encontram falas suas sobre o impeachment e um bate-boca com Renan Calheiros.

O que se pode esperar, sob o impopular ministro, da lei Cultura Viva, de 2014, a lei dos Pontos de Cultura? Haverá pontos de cultura sob o impopular governo ou serão eliminados? As aproximações entre Cultura e Universidade, realizadas desde 2013, perseverarão? O projeto Corredor Cultural Sudeste, realizado por um consórcio de 17 universidades do Fórum de Pró-Reitores da Região Sudeste, terá seus recursos liberados?  A recente proposta de política pública para o campo da música, será implementada ou prevalecerá o Ministério do Controle? Cabe aqui a resposta do último ministro da Cultura, Juca Ferreira, no longínquo 2 de maio, quando, provocado pelo repórter Julio Maria, de O Estado de S. Paulo, sobre sua possível participação no futuro governo, disse: “Não porque eu não reconheço a legitimidade do (que seria o) próximo governo. Eu não poderia participar de um governo que fez uma ruptura no processo democrático.” O repórter insiste, sedutor: “Nem se fosse para defender uma política em que o senhor acredita?” Ao que ele arremata: “A política está submetida, não acontece no vácuo.”

Pois bem: quem sustenta o atual e provisório governo impopular? Houve forte campanha pela derrubada de Dilma Rousseff e os argumentos declarados eram a corrupção, a economia em crise, o desemprego crescente. Houve mobilização popular pela derrubada e pela permanência de Dilma. Houve a admissibilidade do impeachment. Sabe-se: há um sem número de corruptos no governo impopular de 180 dias, e ele não prima pela legitimidade. Quantos dias o povo brasileiro, que não o apoiou, não o elegeu, e ainda não o apoia, permitirá que ele permaneça no poder – ilegítimo, obscurantista, misógino, corrupto?

 

wilson alves bezerra

2 comentários sobre “O governo impopular. Por Wilson Alves-Bezerra

  1. Pingback: Artistas e escritores se manifestam contra o fim do Ministério da Cultura | Livre Opinião - Ideias em Debate

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