Artistas e escritores se manifestam contra o fim do Ministério da Cultura

Na última quinta-feira (12), o Brasil entrou em um governo interino, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) assumiu a presidência durante 180 dias devido o afastamento provisório, realizado pelo Senado, da presidente eleita pelo voto direto, Dilma Rousseff (PT). Nas primeiras horas do mandato, Michel Temer decretou a extinção de diversos ministérios, incluindo o da Cultura (MinC). A pasta agora ficará vinculada à Educação, sob o comando do deputado federal José Mendonça Bezerra Filho (DEM).Uma parte de artistas, produtores, cineastas, escritores e jornais culturais reagiu contra a decisão da extinção do ministério. Em seu texto na UOL – clique aqui e leia na íntegra -, o jornalista Jotabê Medeiros destaca a importância da pasta no incentivo cultural do país:

Difícil começar sequer a conversar com Mendoncinha sobre um fato do Brasil de 2016: as políticas de estímulo às diferentes áreas da cultura dão resultados incontestáveis. Em 1992, último ano do governo Collor, um único filme brasileiro foi lançado comercialmente no país. Aquele período foi apelidado de “desmonte”. Duas décadas depois, o cenário é totalmente diferente: só em 2015, foram produzidos 128 filmes feitos por 116 empresas produtoras distintas, filmes nacionais que foram vistos por 22 milhões de pessoas. A cadeia de empregos e mercado que se desenvolveu é das mais saudáveis da América Latina.
O presidente interino tem sido criticado por ter nomeado apenas homens para a sua equipe, assim como por ter fundido as áreas de Educação e Cultura. Na sexta-feira (13), o ministro escolhido, Mendonça Filho, foi recebido com vaias pelos servidores. No sábado (14), ao anunciar a Secretaria Nacional de Cultura, o ministro do governo interino, Eliseu Padilha, da Casa Civil, disse que Michel Temer exigia que a vaga fosse ocupada por uma mulher. O convite foi feito para a apresentadora Marília Gabriela, que já recusou fazer parte da equipe. Porém, nesta segunda-feira (16), Termer decidiu que a área ficará, de fato, sob a guarda do Ministério da Educação, que passará a ser chamada de Ministério da Educação e Cultura (MEC). Diante da situação da extinção do Ministério da Cultura, o Livre Opinião – Ideias em Debate convidou Morgana Kretzmann, Herbert Emanuel, Adriana Abreu, Marcelino Freire, Wilson Freire, Antonio Moura, Helena Terra, Maria Valéria Rezende, Carlos Careqa, Joana Hime, Luiz Roberto Guedes, Glauco Mattoso para comentar a decisão do presidente interino. Confira abaixo.
ministerio_cultura

Morgana Kretzmann, atriz e diretora

Não é o Ministério da Cultura que tem que acabar. O que tem que acabar é a isenção de impostos para Igrejas (que servem de lavagem de dinheiro para políticos como Eduardo Cunha).

Não é o Ministério da Cultura que tem que acabar. O que tem que acabar é o “Bolsa Deputado”, que custa (pasmem!) 1 bilhão por ano para nós contribuintes.

Não é o Ministério da Cultura que tem que acabar. O que tem que acabar é ficha suja continuar se elegendo e tendo poder de decidir o futuro de uma nação.

Não é o Ministério da Cultura que tem que acabar. O que tem que acabar é o machismo e o sexismo no congresso, no senado, nos ministérios, neste novo governo inteiro.

Não é o Ministério da Cultura que tem que acabar. O que tem que acabar é a burrice dos nossos governantes que não entendem que a cultura é sim uma política de estado que gera economia e emprego no nosso país.

E só pra encerrar, como disse o Odilon Wagner no Globo, “A indústria cultural e do entretenimento emprega mais que o setor automobilístico no Brasil”.  Tem que ter feito doutorado em ignorância para querer fundir o Minc e transformar numa pasta com uma salinha 4×4 lá nos fundos do Ministério da Educação.

Herbert Emanuel e Adriana Abreu, poetas e membros do Tatamirô Grupo de Poesia

A cultura sempre foi o primeiro alvo de ataque, no decorrer da história, dos regimes totalitários. Cultura é processo vivo de criação e expressão humanas e como tal não pode estar subsumida a nada que não sejam os atos de criação, de expressão, de liberdade. Daí sua dimensão libertária, transgressora, e por isso mesmo perigosa para os governos conservadores e golpistas como este que temos agora. Um governo que atenta contra a cultura é um governo que atenta contra a liberdade, contra aquilo que é um dos aspectos mais viscerais da condição humana. Só podemos considerar como execrável a atitude do governo Temer em extinguir o MINC e outros ministérios de importância vital para consolidação da democracia  e da justiça social no Brasil.

Marcelino Freire, escritor e curador da Balada Literária 

Nesse golperno não tem mulher. Não tem negro. Não tem esperança. Não tem cultura. Machos no poder. Preconceito e homofobia. Formaremos o nosso próprio ministério. Criaremos uma força paralela. De transformação. E de luta. Este golperno cairá. Pelas mãos legítimas do povo. Das minorias que se agigantarão. De nós, artistas brasileiros

Wilson Freire, escritor e compositor

Uma música dos anos 70, em plena ditadura militar, executada pela banda Ave Sangria, do poeta e compositor Março Polo Guimarães, dizia: “nada de novo no front/ nem na retaguarda também”. Cantei muito naqueles anos.  Cerca de 40 anos depois, com o novo golpe parlarmentar-judiciário, volto a cantar a mesma canção, como referência a este momento. Ou seja. Não esperava nada de novo, nem no front, nem na retaguarda desses que sempre estiveram no front da retaguarda. Não vou pedir a volta do MINC, em mãos ilegítimas, pois com golpistas não se tem conversa. Vou exigir a volta da democracia. E tudo vem junto.

Antonio Moura, poeta e tradutor

Eu não sei nem como classificar um país que não tem Ministério da Cultura. Eu acho que não pertence nem ao terceiro mundo.  Quarto, quinto, décimo mundo? Acho que para ele nem existe mundo. Penso que está fora do mapa um país que despreza aquilo que constitui a alma de uma nação, a alma de um povo: a cultura. Enquanto países desenvolvidos colocam cada vez mais a cultura no centro estratégico de seu desenvolvimento.  Escritores, músicos, atores, cineastas, toda uma classe artística e com ela grande parte do nosso poder de reflexão jogado no lixo por uma corja de plutocratas que tomam de assalto o poder. A extinção do Ministério da Cultura entre os primeiros atos de um governo é um forte símbolo do que está por vir. Por isso, quero aproveitar para parabenizar todos aqueles que com suas panelas – que não se dão ao trabalho de lavar, pois não tem a capacidade de viver  sem sua vassalagem – acabaram com o Ministério da Cultura e ajudam a promover um retrocesso histórico, apostando na ignorância, no preconceito, na barbárie, investindo na vergonhosa subserviência de país subdesenvolvido.

Helena Terra, escritora e jornalista

Encerrar o Ministério da Cultura e colocar dentro da Educação não é unir forças. É cortar o espaço, a autonomia e a amplitude de dois setores fundamentais para a solidez e o amadurecimento de uma sociedade que se pretenda criativa,  sensível (inclusive a si mesma) e mais competente para avançar em todos os sentidos.

Educação e cultura, embora sejam convergentes e proporcionem aquisição de conhecimento, não desempenham o mesmo papel. A cultura está para além da instrução,  para  além dos bancos escolares. Muito! Em um país carente como o nosso, colocá-las  em um mesmo ministério, com o claro propósito de enxugar a máquina administrativa, é como pôr dois famintos para comer no mesmo prato. Tem como dar certo?

Luiz Roberto Guedes, poeta

#GRANDE_SALTO_PARA_TRÁS__

     O momento institucional que estamos vivendo é francamente distópico.
Um pesadelo convertido em realidade pela aliança de forças antinacionais,
que encenaram longamente uma farsa político-jurídico-midiática. Resumo da
ópera: um presidente golpista, ilegítimo, acusado até de ter sido “informante
da CIA”; um magote de ministros sinistros, denunciados por grossa corrupção;
e figuras mentalmente colonizadas que ainda chamam este país de “Estados
Unidos do Brasil”. Essa gentalha sem voto, que se crê “elite”, não tem projeto
nacional. Não teve respeito por mais de 54 milhões de votos, nem terá pela cultura
mestiça de um país continental.

     Seu projeto de classe é multissecular e medíocre: explorar o  “celeiro do mundo”,
exportar soja, grãos, carne, minério bruto… e comprar um bom apartamento em Miami.
Sem o menor apreço pelos 200 milhões de nativos de um país que Mário de Andrade
um dia chamou de “monstro mole e indeciso”.

     Foi assim que a Casa Grande — dando ouvidos ao clamor dos zumbis teleguiados
contra a Lei Rouanet e esses “artistas vagabundos que vivem à custa dos nossos
impostos” —, houve por bem reduzir o Ministério da Cultura a uma simples secretaria.
Pequeno passo que antecede a marcha de um imenso retrocesso: a ampla extinção de
direitos duramente conquistados, e o saque de riquezas nacionais em detrimento da
sociedade.

    Resta à cidadania brasileira ultrajada fazer um levante permanente contra esse Grande
Salto Para Trás. O monstro mole e indeciso precisa fincar pé. E, já que os veículos do
#Partido_Midiático adestraram uma parcela da população para a prática do “panelaço”,
vamos juntos nessa corrente.

     Às panelas e caçarolas, cidadãos.

Maria Valéria Rezende, escritora 

Temer repete o tempo todo a promessa do “corte de gastos”, especialmente pela redução de Ministérios. Não há como duvidar de que a Cultura será o primo pobre no MEC “condensado”. Na verdade, o Ministério da Educação é mais exatamente o ministério da escolarização. Escola serve para instruir, durante determinado período da vida, segundo currículos predeterminados, sobretudo, na prática, para capacitar mão de obra, seja de que nível for. Educação é muito mais que isso, é, na minha visão, o desenvolvimento das pessoas, com liberdade de escolha, ao longo da vida toda, e isso é o que chamamos de Cultura, em suas manifestações mais variadas, que possibilita. Se o Estado deixa de apoiar ou reduz muito os recursos para manifestações culturais, críticas, inovadoras e não comerciais, as chances de formação/educação continuada para todos se reduzirão novamente ao que os veículos comerciais de entretenimento ou empresas produtoras de conteúdos quiserem oferecer, segundo os interesses privados que representam. Tudo indica que é o que vai acontecer sob o governo de Temer e cia, até mesmo como modo de calar os artistas e produtores culturais que se manifestam majoritariamente contra o golpe travestido de impeachment. Mas o próprio processo de luta contra isso tem demonstrado que temos recursos de criatividade e fomos capazes de construir unidade bastante para resistir e ter um papel importante no fortalecimento da resistência ao desmanche dos avanços democráticos que vínhamos conquistando. Prevejo, otimista que sou, que a mobilização e os laços solidários que se reavivaram nesses últimos meses não de desfarão e serão muito importantes para animar toda a resistência democrática.

Glauco Mattoso, poeta 

Acho que, anarchisticamente fallando,
cultura nem devia ser assumpto para ministerio. Cultura tem que ser
independente e espontanea. Si for para depender economicamente, que
fosse da iniciativa privada, typo mecenato. Educação, sim, depende mais
de supervisão official. Si um paiz mastodontico não consegue administrar
a educação, como pretender que administre cultura? Mas, como não vivemos
de hypotheses utopicas, e ja que a estructura governamental dera
autonomia orçamentaria ao MinC, incorporal-o ao MEC seria um retrocesso,
sem duvida. Como fanzineiro de origem, sempre fui refractario a
patrocinios governistas, mas reconhesço que muitas areas artisticas
carescem de adjuda financeira. Não sou, pois, contra uma redistribuição
que divida com projectos culturaes um pouco do imposto que iria para a
caixa preta do governo. Resta esperar que o MEC não desassista de vez a
scena artistica. De minha parte, sigo produzindo sem comptar com nenhuma
verba publica, quixotescamente.

Carlos Careqa, cantor e compositor

Muito triste eu sinto neste país onde a Cultura é um mero arremedo e não uma política pública. Este governo interino é vergonhoso. O Brasil tem muitas reservas e tem muitos recursos para investir em Cultura que é um bem imaterial e duradouro. A cultura talvez seja o melhor que se leva na vida. Todo este jogo em cena para diminuir ministérios não tem efeito nenhum na economia. A história não perdoa os Traidores. E um lugar de Desonra está reservado na História para este interino. No mais continuaremos a trabalhar como sempre fizemos.

Joana Hime, produtora artística e poeta

Sem arte não há civilização. Sem civilização não há desenvolvimento social e econômico de um país. Sem arte, não há inclusão social, não há difusão entre culturas diferenciadas. A cultura é o que nos torna realmente humanos, o que nos tira da barbárie. Sob o guarda-chuva da cultura encontram-se todas as áreas da economia criativa, são setores produtivos, que geram emprego, renda, conhecimento e cidadania. Não se trata de ideais partidários. Sem arte não há civilização.

Acabar com o Ministério da Cultura é um retrocesso absurdo. Além da fatia ínfima de 1% reservada para a área, é um descaso simbólico, visto a riqueza cultural que o Brasil tem. Na gestões Lula/Dilma nunca se houve tantas amálgamas sociais e culturais. Países desenvolvidos, como a Suécia, por exemplo, não tem essa de cortar a cultura porque já está arraigado na educação do país, o fazer pelo outro, pela nação. E até por uma questão de moral, o primeiro feito de corte orçamentário deveria ser prescindir de privilégios, como o bolsa deputado e regalias no cotidiano dos políticos, assim como a replanejamento tributário, que ainda privilegia as grandes rendas sem as devidas cobranças de impostos justos. Conquistamos há 30 anos o direito a um Ministério que pense exclusivamente na vasta e pujante cultura nacional, abrir mão disso é um retrocesso lamentável.

Abaixo um retratinho atual pintado à lápis, à punho:

os pântanos lamacentos vividos nos últimos tempos
secaram. Restou uma poça num pátio refletido
por grandes arranhas céus, crescidos para baixo.
★★★

Lista das mudanças do governo interino

Ministérios e secretarias extintos
– Secretaria de Portos da Presidência da República
– Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República
– Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República
– Controladoria-Geral da União
– Ministério da Cultura
– Ministério das Comunicações
– Ministério do Desenvolvimento Agrário
– Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos
– Casa Militar da Presidência República
Ministérios que mudaram de nome
– Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior em Ministério da Indústria, Comércio e Serviços
– Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações
– Ministério da Educação em Ministério da Educação e Cultura
– Ministério do Trabalho e Previdência em Ministério do Trabalho
– Ministério da Justiça em Ministério da Justiça e Cidadania
– Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome em Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário
– Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão em Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão
– Ministério dos Transportes em Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil
Ministérios criados
– Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle
– Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República

2 comentários sobre “Artistas e escritores se manifestam contra o fim do Ministério da Cultura

  1. Pingback: Política contraditória

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