CRÔNICAS SEM FILTRO: Já pensou virar escritora?, por Marina Filizola

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Olha pra mim, eu tô um caco. Eu disse pra ele. Não, não ouviu. Ele não ouve! Cê tá surda também? Eu me esganiço de falar, desenho na lousa faço maquete mando whatsapp mensagem inbox. Defumei a casa mandei sinal de fumaça frango na encruzilhada consulta-espírita, até umbanda minha filha, bonequinho pra espetar o saco, pra você ver o tamanho do desespero-enraizado. E nada. Não tem diálogo com quem não quer ouvir, eu aqui otária-máster, arrotando o abecedário. Há dois anos não durmo não sonho não trepo não danço não sou chupada, pra lá de seiscentos dias que não sou nada, é dia pra caralho, dá tempo de dar a volta ao mundo e a bunda em cinquenta países diferentes. É surdo e não usa a língua, pasme minha querida, alguém deve estar feliz mas esse alguém não sou eu. Faz corpo mole, enraíza na cama e só mexe o dedo pra mudar a merda do canal de bosta pra outro mais merda ainda. Não me olha. Não me enxerga. Chega do trabalho fim de tarde eu já acho que é cedo demais, que podia chegar depois das onze no dia seguinte, um mês depois. Fica atarantando meu caminho, eu tropeçando nele, tem um obstáculo-vivo um caroço-de-angu uma protuberância-humana bem no meio da minha sala. Trabalhar trabalho mesmo, até com cãimbra no maxilar mas chupar sem tomar-tapa de mão aberta qual a graça? Não consigo mais mentir, tudo meu é de puta: o olhar ferino o sorriso desregrado e a cara-corrompida de acompanhante barata de empresário-brocha. Já basta estar tudo um lixo descomunal os bom-dias sem-sal o cotidiano esmirilhando minha libido chocha, sem sexo é definitivamente abominoso-inaturável-escamoso. Aquela coisa mecânica que todo mundo já sabe, as preliminares ficaram enganchadas no altar daquela igreja desenxabida que me convenceu perversa a assinar um documento que consagraria minha desgraça em cartório. Imagina a cena, a pessoa sucumbida colocando roupa de festa pra ir comprar frango no supermercado, salto-alto pra buscar tylenol na farmácia. Minha auto-estima foi ficar lá na casa do caralho que é uma rua do lado da maternidade perpendicular à casa da minha ex-sogra. Parei, agora eu vou ficar viril de verdade, bater o pinto-na-mesa arrotar-o-abecedário coçar-o-saco. Macho de padaria minha filha, com muito gosto. Que eu não vou mais gastar meu domingo pra me entupir de macarrão. Família? família o cacete. Minha família é minha mãe meu filho e olhe lá, nem irmão é família, irmão a gente tem que engolir com sal de frutas. O sol comendo solto no domingo eu com a cabeça atordoada, queria mesmo ler livro de putaria escrever livro de putaria participar de uma putaria, qualquer coisa menos cumprir protocolo social familiar de merda. Que eu não tenho mais pavio pra queimar. É de perder o juízo, dá depressão vontade de matar-a-paulada de pular-da-ponte cortar-os-pulsos com tesourinha escolar, chegar em casa sete da noite empanturrada-aborrecida-frígida e de saco cheio. Ah vá, então você quer me dizer que isso é casamento?, que tem que engolir essa palhaçada e prol da união?, que faz parte? Parte do quê? Realiza fofa, minha mente é um calabouço, um pasto cheio de cogumelo alucinógino, tô fazendo hora-extra na terra, daqui meia hora eu já nem sei mais o que eu quero, nem sei seu sou hetero, se estou viva, se gosto de você. Eu sei que eu não quero ser obrigada a comer a porcaria do macarrão de domingo. Captou? Isso eu sei. Coisas que eu não quero. O que eu quero ainda é meio-nebuloso. Pede um expresso duplo pra mim? Extra-cafeína metade da xícara completa de açúcar. Tem isso também: já não fumo não bebo não cheiro não dou vexame não queimo largada. Aprendi que posso escolher, gostei da brincadeira vai todo mundo tomá-no-meio-do-cú! Agora escolho sem dó. Escolho ser feliz mesmo que seja sozinha, escolho dar o rabo gostoso três vezes por semana, escolho escrever merda e publicar mentiras, escolho não fazer o que não quero não ir aonde não gosto não me internar na doença dos outros. Não respondo inbox de quem não conheço me desmarco de textos cretinos bloqueio no whatsapp legiões de punheteiros mando pra putaqueopariu quem me encaixa em esterótipo. Não sou a Madre de Calcutá. Não me especializei em chupar-saco de ninguém. Agora eu aqui, escutando que estou cometendo um grande erro jogar um casamento no lixo. Justo de quem? De você, que só trepa uma vez por semestre e ainda acha ruim. De você, que não cheirou o largo-treze não injetou com seringa veterinária não fumou na seda da bíblia mas usa psiquiatra mais-que-calcinha. Que fez faculdade de medicina mas nunca salvou meia-vida porque resolveu cuidar do marido coitado, que não tem mão pra coçar a própria bunda. Que tem diploma na parede mas devia ter usado pra fumar-maconha, que janta toda-quarta na casa da sogra e reclama de uma azia misteriosa, que chora pelos cotovelos mas foi diagnosticada com remédio tarja-preta. Agora me diz: quem aqui tá fazendo a escolha errada? Bandoleira facínora perversa acelerada. Mais algum adjetivo? Sórdida degenerada impudica escabrosa imoral. Porra, não sabia desse seu vocabulário brilhante. Já pensou virar escritora? Cínica. Pode crê. Faltava esse. Tá contratada.

marinafilizola

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