Docentes da UFSCar lançam carta aberta sobre a conjuntura política do país

     CARTA ABERTA

Considerando  o  OFÍCIO  CIRCULAR  Nº  1  DPU  2CATDF/GDPC  2CATDF/OFDHTC   2CATDF,    que  recomenda  que  as  universidades “assegurem  a  livre  iniciativa  de  seu   corpo  docente,  discente  e  servidores  na  promoção  e  participação  em  atividades   pacíficas,  cujo tema  se  relacione  ao  debate  em  torno  da  atual  conjuntura  política   nacional”,  vimos  a  público  dizer:    

Neste  grave  momento  de  suspensão  da  normalidade  institucional  em   nosso  país,  há  urgência  de  nos  posicionarmos  propositivamente diante  da   avalanche  de  acontecimentos  que,  numa  evidente  “doutrina  do  choque”   (KLEIN,  2007) [vídeo no final do texto],  tende  a produzir  perplexidade  e  paralisia.

Ministérios  são  sumariamente  extintos,  marcadamente  os  que  se  dedicam   às  atividades  de  produção  e  difusão  do  conhecimento; outros  são   entregues  a  um  corpo  de  políticos  que  seriam  inelegíveis  dadas  suas   comprovadas  ações  criminosas,  todos  homens  e brancos,  cujas  biografias   em  nada  representam  a  grande  maioria  da  população  brasileira.  A   truculência  policial  se  autoriza,  entre outras  coisas,  à  detenção  de  jovens   secundaristas  que  se  organizam  contra  o  escandaloso  roubo  de  merenda.   Mais  além,  a iminência  de  medidas  que  desregulamentam  os  mercados   convive  com  uma  sucessão  de  medidas  que  incrementam  as  formas  de criminalização  da  organização  social  (de  movimentos  estruturados  e   mesmo  de  agrupamentos  espontâneos),  dando  sustentação técnica  a  toda   sorte  de  coibição  do  pensamento,  como  o  projeto  de  lei  intitulado  Escola   Livre,  que  instrui  comportamentos  no estado  de  Alagoas,  proibindo   discussões  políticas  em  sala  de  aula.  Dão-­‐se  destituições  inexplicáveis  em   cargos  de  direção  como no  Inep  e  na  EBC,  e  a  direção  de  entidades   nevrálgicas  para  a  política  econômica  é  ocupada  por  empresários  ou  beneficiários  diretos  do  sistema  financista  globalizado,  como  ocorreu  com   o  Banco  Central.

De  fato,  a  cada  manhã  temos  nos  deparado  com  novas  medidas   desestruturadoras  das  redes  de  proteção  social  constituídas  na última   década  e  indícios  de  medidas  obstrutivas  do  funcionamento  de  sistemas   como  os  que  presidem  o  ensino  superior.  Tudo isso aponta  para  uma   gestão  que,  por  definição,  revoga  direitos  adquiridos,  apoiada  na   consagração  de  uma  legalidade  fraudulenta,  em que  juízes  sentenciam  sem   cumprir  os  ritos  constitucionais  ou  se  omitem,  inclusive  e  sobretudo  nas   instâncias  últimas  do  poder judiciário.

Está  claro  que  vivemos  em  um  Estado  de  exceção.

Assentado  numa  forte  construção  de  imaginários  que  não  só  circulam   exaustivamente  nas  mídias  tradicionais,  mas  se  ramificaram nos  sistemas   de  ensino  apostilados,  distribuídos  por  uma  sofisticada  logística  editorial,   esse  Estado  trabalha,  com  a  conjugação  de determinações  legislativas  e   judiciárias,  no  monitoramento  das  redes  sociais,  no  achacamento  da   blogosfera  progressista  e  na descontinuação  de  programas  que  ensejam  a   diversidade  de  opinião  e  de  modos  de  vida.  Com  isso,  estimula-­‐se  a   banalização  da violência  verbal  e  física,  incitada  diuturnamente  por   políticos,  jornalistas  e  por  cidadãos  comuns  com  espírito  de  justiçamento,   que atacam  vizinhos,  colegas  de  trabalho,  eventualmente  familiares   contrários  ao  golpe  em  curso.

Nessa  conjuntura,  como  servidores  públicos,  firmamos  posição  de  não   reconhecimento  do  governo  ilegítimo  que  usurpou  o  resultado de  uma   eleição  democrática,  sustentado  por  uma  moral  patrimonialista,  misógina   e  classista,  pondo  em  risco  não  só  os  avanços sociais  havidos,  mas  cada   cidadão  individualmente,  pois,  sem  garantias  e  direitos,  não  há  qualquer   segurança  jurídica  que  impeça de  estarmos  todos  suscetíveis  de  configurar   ameaça  passível  de  sanções  arbitrárias.

Há  urgência  de  nos  unirmos  para  além  de  diferenças  pontuais,  cuja   inequívoca  importância  depende  da  manutenção  de  um  Estado democrático  de  direito.  Há  urgência  de  nos  unirmos  para  agir,  como   muitos  grupos  têm  feito,  a  partir  de  seus  lugares  sociais: somos  partícipes   da  sociedade  brasileira  encarregados  de  zelar  pelas  condições  de  ensino,   pesquisa  e  extensão  que  definem  uma universidade.  Não  há  neutralidade   possível  diante  da  afronta  a  essas  condições.  A  hora  é  já:  declaremos   suspensa  parte  das atividades  ordinárias  para  que  nos  mobilizemos  todos   os  dias  contra  o  golpe.

Docentes da UFSCar reunidos na tarde de 17 de maio de 2016 e adesões,

Adelcio Camilo Machado
Alan Victor Pimenta
Ana Carolina Soliva Soria
Anna Catarina Morawska Vianna
Antonio Carlos Leme Jr
Ana Carolina Soliva Soria
Antón Míguez
Carla Silva
Débora Burini
Débora Cristina Morato Pinto
Diana Junkes Bueno Martha
Eduardo Conegundes de Souza
Eduardo Pinto e Silva
Eliane Christina de Souza
Fernanda Castelano Rodrigues
Fernão de Oliveira Salles dos Santos Cru
Flávia Bezerra de Menezes Hirata-Vale
Fred Siqueira Cavalcante
Gabriel de Santis Feltran
Géssica Priscila Ramos
Jacqueline Sinhoretto
João dos Reis Silva Júnior
Joelson Gonçalves de Carvalho
José Alessandro Silva
José Carlos Rothen
Jorge Leite Jr.
Josette Monzani
Luciana Gracioso
Luciana Salazar Salgado
Luiz André Neves de Brito
Luiz Damon Santos Moutinho
Luiz Roberto Gomes
Maria Cristina da Silveira Galan Fernandes
Maria Sívia Cintra Martins
Mariana Galon da Silva
Márcio Antônio Gatti
Monalisa Muniz Nascimento
Monica Loyola Stival
Oto Araújo Vale
Pablo Arantes
Pedro Augusto Dutra de Oliveira
Rejane C. Rocha
Thais dos Guimarães Alvim Nunes
Thelma Lessa da Fonseca
Vera Cepêda
Vinicius Nascimento
Wilson Alves-Bezerra
Wilton Marques
Wolfgang Leo Maar

A doutrina do choque

2 comentários sobre “Docentes da UFSCar lançam carta aberta sobre a conjuntura política do país

  1. Chega de usar a universidade como ferramenta de protesto político ! A favor do direito daqueles que querem trabalhar !
    Quem quer protestar que escolha outro lugar. A UFSCar é local de ensino, pesquisa e extensão e não palanque político !

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