“Les Misérables”, de Bianca Stone, traduzido por Pedro Alberto

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Bianca Stone

Eu me sinto como um soldado perpetuamente re-encenando a Guerra Civil, confinada ao meu esqueleto… – Bianca Stone

Conheci a obra de Bianca Stone de um modo um pouco inusitado. Apesar de conhecer as obras de sua também norte-americana avó, Ruth Stone, conheci Bianca ao pesquisar sobre poesia em quadrinhos, algo que eu sequer sabia existir há alguns meses.

Versos livres e focados na construção de imagens, com uma alta carga emocional e um ritmo bastante particular me chamaram a atenção para o poema Les Misérables, publicado originalmente pelo portal Sink Review. Acreditei ser um bom ponto de entrada para a obra escrita de Bianca no Brasil – até onde sabemos, esta é a primeira vez que autora é publicada em português.

A tradução a seguir foi acompanhada pela autora, que colaborou para a calibragem de certos termos ambíguos ou para a adaptação de alguns termos a nosso cenário cultural – a construção “shower curtain”, por exemplo, que remeteria à parte do banheiro em que tomamos banho, se tornou “cortina do box” ao invés de algo como “cortina do banho” ou “cortina do banheiro”.

Adentremos suas cortinas.

Les Misérables

de Bianca Stone
(traduzido por Pedro Alberto)
Você é uma enorme bandeira Americana aos ventos
e eu sou uma Casa Grande vitoriana e vermelha
cercada por trigo.
Você agora está em algum lugar se escondendo.
Você agora está cercado por pratos.
Eu agora estou com ressaca.
Como uma picape listrada de marrom fazendo lentas rosquinhas
no meu esqueleto. Como o sol
acenando com seus braços cremosos na rua.
Mas eu amo a palavra “Misérables”. Ela circula
em minha boca até que a boca toda
se aqueça. Uma centena de caixas bonitas cheias
de variados geodos não me deixariam mais feliz;
navios de pólvora molhada tampouco.
Fico confortável
ao falar isso. Um esboço que surge
na cortina fechada do box me deixa
desconfortável. Quer dizer,
quando eu me sento ao lado de uma
cortina fechada de box
ela pode se mexer de forma assustadora
como se houvesse alguém atrás dela.
Há uma breve canção tocando no minha taça.
Começa assim: quando eu tinha medo,
levava todos meus animais para se deitarem comigo.
Quando eu tinha medo eu conversava com meu irmão
sobre as minhas habilidades com faca e nós ficávamos a noite inteira
de costas um para o outro, cantando
★★★
Bianca Stone é uma poetisa e artista visual norte americana. Trabalha também com poesia em quadrinhos e sua primeira coletânea completa, Someone Else’s Wedding Vows foi lançada em 2014. É editora da Monk Press e presidente da The Ruth Stone Foundation, organização em honra à obra de sua avó Ruth Stone (finalista do prêmio Pulitzer, dentre outros). Clique aqui e leia o poema na versão original

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