Wilson Alves-Bezerra: O paradoxo de Temer

Os sete primeiros dias do governo interino de Michel Temer expõe um paradoxo interessante: o esforço em tornar populares – pela força da comunicação – um presidente e um projeto do país que jamais teriam sido eleitos num pleito direto.

Uma das grandes críticas na claudicante primeira semana de regência Temer foi a ausência de mulheres, negros, índios e mulatos em seu ministério. Muitos artigos na imprensa lançaram mão do aparentemente razoável argumento de que se deve escolher por mérito, e não por etnia ou gêneros, os titulares das pastas. Pois bem, mas o universo do qual parte a pesquisa de competência do septuagenário mandatário não é o Brasil – país composto por negros, mulatos e mulheres – mas uma amostragem obtusa de políticos jurássicos, oriundos do legislativo, da iniciativa privada e, claro, que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff.

Os últimos governos brasileiros, em que pesem as vicissitudes do presidencialismo de coalizão, eram diversos, como – felizmente – é diverso o Brasil. De Collor a Dilma, cada ministério espelhava um certo desenho dos anseios da população eleitora. O governo Temer recende a naftalina, as roupas inatuais e rejeitadas do fundo do armário que de um momento a outro ressurgem para o ato da posse, produzem o pigarro que impede a fala, pareiam-se aos cabelos mal tingidos, às cartelas de viagra nos bolsos do paletó, para compor a cena tétrica advinda do ato jurídico perfeito: os ministros de Temer espelham o casuísmo do impeachment, não a legitimidade de uma eleição.

Como o governo interino quer se fazer popular, há uma luta na mídia para “satisfazer os anseios da população”. Assim há sucessivas voltas atrás, na tentativa de agradar a opinião pública. Como bem apontou o articulista Igor Gielow na Folha de São Paulo de 17 de maio, os ministros de Temer – políticos boquirrotos – “apanham do microfone”.

Bastem-nos os exemplos da Saúde e da Cultura. Ricardo Barros, o novo ministro da Saúde, numa entrevista à mesma Folha, afirmou ser contrário aos direitos garantidos pela Constituição Brasileira: “Só tem direitos lá, não tem deveres. Nós não vamos conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina.” –  dentre esses, o acesso universal à saúde para os brasileiros. Para o ministro, o ideal é encolher o Sistema Único de Saúde, e que cada brasileiro pague seu próprio plano privado: “Quanto mais gente puder ter planos, melhor, porque vai ter atendimento patrocinado por eles mesmos, o que alivia o custo do governo em sustentar essa questão.” Horas depois, desmentiu-se, dizendo que se referira à previdência, não à saúde. Pouco importa, pois Barros, sabe-se, teve entre seus apoiadores nas eleições de 2014, uma das maiores administradoras de Planos de Saúde do Brasil: a Aliança, ligada à Unimed, Amil, Medial, Sulamérica, entre outras.

Não é patrimônio apenas do paranaense Barros a incontinência verbal associada às ideias indizíveis; também o interino Temer padece da compreensível dificuldade em se fazer contemporâneo e superar sua condição de político anacrônico. Seguindo a tradição dos presidentes poetas do PMDB, colocou a cultura em sua linha de frente: se Sarney, o autor de “Marimbondos de Fogo”, criou o Ministério da Cultura em 1985, Temer, o autor de “Anônima Intimidade”, extinguiu-o. Ainda assim, quer parecer simpático diante da opinião pública, tentando surfar nas ondas dos protestos pela extinção da pasta. Depois da reação emocionante dos funcionários da Cultura, que receberam o novo ministro do MEC, Mendonça Filho, com vaias e coro de “golpista” na última sexta-feira 13; depois das invasões da Funarte em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte; depois dos artigos e declarações de artistas por todo o Brasil; depois disso tudo, Temer quis, de modo canhestro, fazer jus à sua fama de ótimo negociador: aventou transformar o Ministério da Cultura em secretaria autônoma submetida à presidência e chamar uma mulher para dirigi-la. Assim, pensava matar dois coelhos com uma só cacetada. E matou mesmo: logo recuou da primeira ideia, porque pareceram-lhe caros demais os custos da manobra; quanto à segunda, recebeu ao menos cinco recusas em menos de cinco dias, com distintos graus de beligerância, de Marília Gabriela, Bruna Lombardi, Claudia Leitão, Eliane Costa e Daniela Mercury. Não há “representantes do mundo feminino” – as palavras são do interino no Fantástico – dispostas ao lugar subalterno oferecido em seu governo. A solução foi mais do mesmo: nomear outro quadro do PMDB, o sorridente Marcelo Calero, Secretário de Cultura do Rio, cidade em que o Secretário de Governo, Pedro Paulo, tem processo na Justiça por agressão com socos e pontapés à esposa, e ainda assim é cotado pelo prefeito para ser seu sucessor. Temer, o presidente de 180 dias, mais uma vez querendo dar a última palavra, declarou que aumentará o orçamento da Cultura… em 2017, quando, esperamos, já não será mais presidente.

As entrevistas desencontradas e os recuos do atual governo, a cada dia que passa, pelo que afirmam e denegam, vão traçando com maior clareza os contornos da política que se pretende implantar: reduzir os direitos da população e governar para poucos, bem poucos. Quando nossa casa é invadida por uma enchente, por bandidos ou mesmo por ratos, enquanto tomamos providências, torcemos para que os estragos sejam mínimos e, dentro do possível,  reversíveis.

wilson alves bezerra

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