Leia “jukeboX”, texto do novo livro da autora Geruza Zelnys com lançamento em junho

jukeboX

não posso dizer que me acostumei porque é impossível ouvir meus pensamentos com clareza agora. tudo ficou bastante confuso, mas ao mesmo tempo é bom porque há sempre esse acompanhamento, esse embalo, essa dança. trilha ditando caminhos à sensação. sim, desde a última vez em que ele abriu minha cabeça: o barulho fino da furadeira e o rosnar da serra raivosa compunham a orquestra de acompanhamento pra incisão craniana. depois os dedos lá, preparados de luva, fuçando os neurônios do meu coração, apalpando aortas e veios à procura de um tumorzinho mínimo: pequena semente de girassol sobrevivente em meio à tempestade elétrica do meu canteiro cerebral. diz ele que ela caiu ali trazida pelo vento labiríntico de um ouvido, não se sabe qual, provavelmente aquele em que o pássaro azul demorou-se gracejando orelha, bicando lóbulo e plantando ali dois ou três amarelos. e então uma semente que vingou latejando cerebelos. enfim, quem vive assim com um girassol florido na cabeça? quem não morre de dourados solarizando os cantos escuros dos passamentos? por isso a cirurgia. a terceira, porque houve ainda duas outras tentativas de desplantar aquele intruso armado de verde e ouro empunhando a insígnia da flor. no entanto. no entanto… sim sim segundo a junta: a operação foi realizada com sucesso. mas até a quarta linha porque, depois de tudo costurado, essa música. essa música e mais essa. e outras tantas. e são tantas… a agulha, sim, a agulha ele a esqueceu lá. azul. agulha de safira bem no centro da minha caixa preta craniana. finíssima agulha cônica fonocaptora transversal circular. agulha bailarina bonita de se ver no seu eterno bailado de ponta sob saia cápsula de tule fonográfica deslizando pelos sulcos de uma memória de vinil uma memória de traços riscados com o ruído preto-e-branco do tempo. jukebox. bailarina pós-contemporânea agulha desgovernada girando sem pino em sentido anti-horário no prato palco invisível prum balé sem base mergulhado no som. e eu nem precisava de raio x pra saber isso. não preciso ver aquilo que sinto pra saber que sinto. eu sinto. eu sinto muito. sinto muito a procura dessa agulha. a fé com que se debate nos intervalos entre uma e outra música antiga em busca daquela outra, ainda toda inédita no buraco do vinil. música que não preciso ouvir pra sentir. música sem som sem letra. braço dum toca-discos de alta fidelidade. abraço… ele diz que ainda uma vez. que vai abrir minha cabeça. em um novo novembro. talvez não. porque dizem também que agulhas de safira são prejudiciais à saúde. causam câncer estroboscópico. atacam pulmões. garganta. podem matar, ou pior: não.

[9 janelas paralelas & outros incômodos, Ed. Dobra Editorial, 2016. Lançamento Casa das Rosas, dia 08/06/2016 às 18h]

GERUZA

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