Aline Bei: Então depois de morta meu conselho é nem tente

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-fecha a bolsa.

 

ouvi o cara me dizer empurrando o queixo

pro zíper da minha

mochila,

estava aberta eu andando

pelas ruas do centro um frio à noite, o vento

não tem pena de quem

não tem casa,

além da mochila fechei o casaco e

agradeci.

 

-guarda o celular também. os meninos

passam rápido e

levam. – o cara me disse apagando o cigarro no muro. sorri sem jeito,

ele entrou

pra cozinha do restaurante sem

se despedir.

 

a vida é Outra

que não se despede, passa rápido e leva

meu brilho

nos olhos que só voltam quando vejo uma porta

semi aberta

vazando jazz de dentro,

mais a frente das ruas que não conheço foi o que vi em um

pub velho

no centro todo velho, entrei:

 

um lugar pequeno assim faz até a gente tirar

o casaco.

 

o pub estava cheio

de gente conversando nas mesas altas, ninguém sozinho

além de mim.

o garçom me perguntou se eu queria alguma coisa,

fiquei olhando pra ele pensando na pergunta,

a banda de 3

homens suados que não eram chet baker mas tinham ouvido e

chorado muito chet,

então sim

eles carregavam no peito um pouco dele, não tanto,

o suficiente

pra mim.

 

-não quero nada, obrigada.

 

o garçom se afastou.

a banda tocava almost

blue, meu pai tinha esse disco

colocava

pra fumar charuto, eu por tabela ouvia e fumava aos 4 anos

de idade a tarde

inteira.

deve ser por isso que sou assim envelhecida com essas

manchas, sou como o centro de são Paulo, tinha um espelho

atrás das bebidas do bar, eu estava de lado

pra ele.

repare que

sempre tem

um espelho e se você olhar no fundo das garrafas de bebida e não for nenhum menino,

vai se ver

cansado

com cara de quem desistiu

e seguir bebendo pra ver se

melhora, é uma tática dos homens de dinheiro,

funciona muito.

por milésimos de segundos, quando as pessoas do pub

paravam de

conversar,

eu notava a Tristeza

descolando da cara delas e da minha. ali

todo mundo tinha crescido mal, todo mundo tinha seus problemas, 1 foi traído

pela mulher, pelo sócio,

o outro traiu e isso também

tem seu peso, alguém morreu, alguém estava doente pra morrer, muitas contas pra pagar e nenhum dinheiro, as pessoas tinham problemas,

não era só eu que fugia como fiz quando

fui embora

do pub

com a música de memória em mim.

o cansaço da viagem me bateu forte fazendo nascer uma dor

de cabeça que passaria se eu dormisse bastante, eu tinha

certeza.

queria chegar logo no hotel, pensei

vou pegar 1 táxi

mas um menino que eu nunca vi pegou minha bolsa antes, fechada mesmo, com o celular dentro, e me deu

um tiro.

alinebei

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