Marcelo Flecha: Sobre cultura, ministério, leis e artistas milionários

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Tenho ouvido tanta necedade a respeito de cultura, ministério, arte, Lei Rouanet e artistas milionários, que chego a pensar em me tornar homem-arte, e passar a explodir com cultura e informação os ingênuos ou energúmenos que propagam disparates ao léu, sem medir as consequências.

Recentemente retornamos da 1ª etapa do projeto SESC Amazônia das Artes, onde visitamos algumas capitais de estados da Amazônia Legal – Palmas/TO, Porto Velho/RO, Boa Vista/RR e Rio Branco/AC – e em agosto concluiremos a circulação deVelhos caem do céu como canivetes pelos outros estados da região amazônica – Manaus/AM, Belém/PA, Macapá/AP, Cuiabá/TO e Teresina, no Piauí, que, apesar de não fazer parte da região, é convidado por apresentar condições socioeconômicas parecidas.

“É a arte que nos ensina que não é necessário ter para ser, e que todo poder sucumbe perante uma forte onda de esclarecimento.”

Só quem passa por uma experiência similar a essa pode entender o significado de “custo amazônico”, e a importância do conceito de Amazônia Legal para tentar minimizar esse custo tão oprimente para os moradores da região, pois permanecem distantes dos recursos públicos para desenvolver qualquer tipo de atividade, incluindo as ligadas à cultura e arte. O projeto do SESC é inovador, por entender esse custo e tentar diminuir as desigualdades de distribuição artística na região, e favorecer a viabilização financeira do artista amazônico.

Por consequência, ao conhecer e reconhecer o Brasil, depois de ter circulado pelo país inteiro durante vinte anos, concluo que comentários sobre artistas ricos só podem sair da boca de pessoas prostradas frente à TV e suas novelas, a imaginar que artista é todo sujeito que aparece na sua frente à noite, na telinha, e desconhecem profundamente seu país, onde 99% dos artistas são massacrados pela escassez de recurso para poder produzir sua arte com dignidade.

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O Brasil é desigual por natureza, e o que o Ministério da Cultura tentou fazer nos últimos anos foi minimizar essas desigualdades, e, ainda assim, não chegou nem perto dessa tarefa na região que aqui coloco como exemplo. A penúria financeira em que vivemos – sim, primeira pessoa do plural, porque o Maranhão faz parte da Amazônia Legal – é digna de uma revolução, e a resistência artístico-cultural é digna de elogio, e não de achincalhes. A prova de que somos uma região suprimida pela invisibilidade, é o fato de, para os detratores, sermos todos ricos.

Esse tipo de comentário, no ouvido de um cidadão minimamente sério, soa como um chiste equivocado, uma anedota nefasta, uma piada de mau gosto. Qualquer cidadão ligado ao fazer cultural da sua cidade conhece as dificuldades em que se encontram seus artistas, as lutas, as frustrações, mas, principalmente, a permanente resistência. É a arte que nos ensina que não é necessário ter para ser, e que todo poder sucumbe perante uma forte onda de esclarecimento.

Ou seja, o valor que sobra para a arte não compromete a saúde do cidadão, não desfalca a educação do aluno, não abala a segurança do país; o valor historicamente destinado à cultura não passa daquela velha e famigerada esmola, aquela moedinha que você joga no nosso chapéu depois de lhe dedicarmos duas longas e prazerosas horas do nosso ofício. Não, a arte não vai falir o país. Não, 0,38% do orçamento não vai comprometer o estado. Não, 90% das pessoas que aparecem na TV não são artistas, como já falei aqui. Não. Não. Não. Pare de ser ingênuo ou mal-intencionado. A cultura não precisa disso. Ela já tem moinhos suficientes que enfrentar, para andar se preocupando com a sua desinformação.

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Marcelo Flecha

Diretor e dramaturgo, é um dos idealizadores da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA). Publicou o livro Cinco Tempos em Cinco Textos: Dramaturgia Reunida.

Confira todos os textos de Marcelo Flecha: clique aqui

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