Wilson Alves-Bezerra conversa sobre o livro ‘O Pau do Brasil’, com lançamento para junho

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Na terça-feira (7), no Auditório da UEIM / CECH. Área Sul, UFSCAR, Campus São Carlos, às 19h00, acontece o lançamento do livro O Pau do Brasil (Editora Urutau), do escritor e professor Wilson Alves-Bezerra. O autor também participa de uma mesa de conversa com mediação da professora Diana Junkes.

WILSON ALVES-BEZERRA – Doutor em literatura comparada pela UERJ e mestre em literatura hispano-americana pela USP, onde também se graduou, Wilson é autor dos seguintes ensaios: Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008) e Da clínica do desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP, 2012). Traduziu autores latino-americanos como Horacio Quiroga (Contos da Selva, Cartas de um caçador, Contos de amor de loucura e de morte, todos pela Iluminuras) e Luis Gusmán (Pele e Osso, Os Outros, Hotel Éden, ambos pela Iluminuras). É professor de Departamento de Letras da UFSCar, onde atua na graduação e no mestrado. Sua tradução de Pele e Osso, de Luis Gusmán, foi finalista do Prêmio Jabuti 2010, na categoria Melhor tradução literária espanhol-português. Como resenhista, atualmente colabora com O Estado de S. Paulo, O Globo, El Universal (México) e Los inútiles (de siempre) (Argentina). Publicou os livros Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades (EDUFSCar / Oitava Rima, 2013) e Vertigens (Iluminuras).

Em entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate, Wilson conversou sobre a elaboração de seu novo livro, da conjuntura política e,outras opiniões. Confira abaixo:

Wilson Alves-Bezerra (Foto: Paulo Ninja)

Wilson Alves-Bezerra (Foto: Paulo Ninja)

Wilson, conte-nos o processo de produção de seu novo livro O pau do Brasil.

Os poemas foram escritos ao longo de uma semana, entre os dias 11 e 18 de abril, entre a aprovação do relatório do impeachment de Dilma Rousseff, pela Comissão da Câmara dos Deputados, e o dia seguinte à votação em plenário na mesma Casa. O livro nasceu de uma necessidade de elaboração a partir da constatação de nossa indigência política, atualizada pelos acontecimentos daquela semana fatídica. Há uma noção de urgência na escritura e na publicação deste livro.

Fale um pouco do título do livro. Influências de Oswald e do Movimento Antropofágico?

O nome do livro e a capa são uma referência direta à obra fundadora de Oswald de Andrade: “Pau Brasil”, de 1925. A releitura que fez o poeta da história nacional a partir de textos do período colonial sempre me interessou muito. Reduzir-nos ao entreposto exportador de madeira foi um gesto de coragem do Oswald, colocar o nome do produto como lema da bandeira, outro. Pergunto-me como seria se o presidente interino, seguindo Oswald, cunhasse como lema do seu governo o slogan “Pau Brasil”! Embora o livro de Oswald tenha muito humor, é também uma constatação amarga de nossa condição: alguém aí se lembra das índias reduzidas a condição de prostitutas na estação, no poema “Pero Vaz caminha”? Não havia melhor ponto de partida para tratar do momento atual brasileiro: “O pau do Brasil” é uma homenagem e uma releitura da obra de Oswald, buscando inserir isso que nos ocorre como país numa lógica mais ampla. Afinal, em 2016, qual é o nosso pau?

O livro é dividido em três partes – terra em transe, história do brasil – período contemporâneo e o fim da história e o último homem. Como foi a escolha e separação dos textos? E por que dos nomes escolhidos para as partes?

“O pau do Brasil” traz uma série de citações, alusões, como no caso dos títulos das partes. Um dos pressupostos é colocar em confronto os discursos que estão em jogo em nosso momento histórico: Oswald de Andrade, Gláuber Rocha e Francis Fukuyama podem de algum modo lançar luz sobre os três movimentos que compõe a narrativa da obra. Delegarei aos leitores as associações e os sentidos que eles queiram e possam produzir. A única pretensão que tenho é de criar material literário que permita promover alguma forma nodulação na pura dispersão que se vive em nosso país; acredito que a arte e a cultura tenham um papel crucial neste processo. Não por acaso, tem sido em torno ao lugar da cultura no país – econômico, simbólico e político – que tem se dado parte dos debates e agressões atuais: a extinção e a recriação do Ministério da Cultura em apenas duas semanas não é um dado menor.

Pode nos contar algumas influências que você teve para a elaboração do livro.

Como disse acima, Oswald de Andrade é uma referência forte, pois “O pau do Brasil” põe-se em diálogo com ele na forma e no conteúdo: o procedimento de composição dos poemas da parte dois é totalmente oswaldiano. Os poetas de corte surrealista – André Breton, Herberto Helder, Roberto Piva e Cláudio Willer – também tem seu lugar nesta escritura. E sempre Baudelaire, sempre Joyce…

Em seus textos, há ironias em relação às diversas condições sociais, trabalhistas e políticas. O país está dividido – em um tom sarcástico, entre coxinhas e mortadelas – e o debate ideológico está cada vez mais com discurso de ódio. Para você, “Está prevalecendo a ideologia, não está prevalecendo a racionalidade”.

É interessante como a pergunta é uma cadeia de citações das expressões que nos golpeiam dia a dia: “o país dividido”, “coxinhas e mortadelas”, “discurso de ódio” e “está prevalecendo a ideologia, não está prevalecendo a racionalidade”. O papel do livro é suspender estes lugares de ancoragem, fazer com que produzam o espanto, não a indiferença. Quanto mais se esgarça o tecido que sustenta nossas relações – cotidianas, afetivas, políticas, sociais – cada vez nos aproximando da violência generalizada. Quando 33 homens estupram uma adolescente e postam o vídeo numa rede social e, ato seguido, o vídeo é comentado com piadas, está prevalecendo o quê, eu me pergunto?

Wilson, o site chama-se Livre Opinião – Ideias em Debate, ou seja, este final da entrevista é um espaço livre para o artista desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Tem algo a dizer?

Quero agradecer à equipe da editora Urutau, por entender a urgência dos poemas, e fazer com que em pouco mais de um mês da escrita, o livro esteja sendo lançado. Os grupos editoriais e de comunicação não hegemônicos têm um papel fundamental no debate. Neste sentido, também agradeço ao Livre Opinião, pelo precioso espaço.

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LEIA A ORELHA  DE O PAU DO BRASIL ASSINADA PELO POETA VALERIO OLIVEIRA

 

Navega na web, na tevê, afundando todos os pontos e portos da Idade Mídia, a navilouca dos libertinos liberais. A cena política tupiniquim está em chamas. Desde o arrefecimento da Ditadura Militar e da expansão do movimento Diretas Já que não assistíamos a um espetáculo tão radical. Nas ruas, nos jornais e nas redes sociais não existe meio-tom. Não há o menor espaço para a contemporização. A guerra é maniqueísta. Obscena. Porque, você sabe, “no Brasil a vida pública é muitas vezes a continuação da privada” (Barão de Itararé). Enquanto os maus e os piores se enfrentam na Capital Federal, trapaceando na dança das cadeiras, os trouxas — nós — saímos no tapa com o vizinho que torce para outro time ideológico e idolatra outro deus fedorento e corrompido. Os poemas urgentes de Wilson Alves-Bezerra denunciam essa cena em chamas, esse circo de horrores que é a nossa fascista-machista-racista democracia. Tempos atrás, André Breton explicou que o ato surrealista mais simples consiste em sair à rua empunhando revólveres e atirar a esmo contra a multidão de cretinos. Mas essa multidão cresceu e se espalhou tanto, no último século, que não dá mais pra sair à rua abatendo um por um. A opção mais eficaz é o armamento químico da melhor poesia-ironia, que devasta por atacado. Nesta coletânea, Wilson instalou um palanque e um microfone para os discursos do Poder. Não importa sua orientação — direita ou esquerda, verde-amarelo ou vermelho —, o Poder foi, é e será sempre o mesmo leviatã onívoro das lendas selvagens. Se não podemos com o facínora, podemos ao menos tirar sarro dele, cutucando seu cu com vara curta, dando umas lambadas na nádega. É o que Wilson e sua gangue de vingadores — Joyce, Kafka, Coltrane, orixás, pajés etc. — fazem em O pau do Brasil. Pra nos redimir e divertir.

★★★

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7 comentários sobre “Wilson Alves-Bezerra conversa sobre o livro ‘O Pau do Brasil’, com lançamento para junho

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