CRÔNICAS SEM FILTRO: ‘Diálogos Impossíveis da Maternidade’, por Marina Filizola

essse

Um dia qualquer na vida dessa mãe.
– Dormiu gostoso foi? Cara-lisa linda, bochechudo bunda-mole safado da mamãe. Esse abraço de urso-com-sono, quanto beijo, nossa!, que beiço molhado de cuspe menino, credo que nojeira de amor é esse?, pára de dar beijo-com-bolha beijo puxa-puxa beijo-com-ranho… Não, com a língua não mesmo, é feio lamber meu nariz, não cospe, hey não cospe na minha testa! Você tá ouvindo a mamãe?, eu não gosto de beijo molhado assim. É feio. Solta meu cabelo. Por favor, solta o cabelo da mamãe que tá doendo… Solta meu cabelo peloamordedeus, tá maluco? Não, eu não vou te dar meu cabelo pra brincar, você puxa arranca faz-mafuá nele. Pronto prendi. Cabelo sumiu. Viu? É. Sumiu. Fralda pesada avemaria, xixi de gente-grande já, de litro, fralda transborda. Tá na hora de tirar a fralda né lindo?, num tá dando conta mais, olha. A fralda tá inchada, parece uma bóia.
– Bóia mamãe?
– É, bóia, que nem a que tem na praia, aquela que eu tento enfiar á força no seu braço pra você não afundar no mar, essa mesmo, que você arranca e sai correndo e me deixa histérica. Sabe? Bóia. Parece sua fralda.
– Vamu pá paia mamãe?
– Praia não, hoje é escola, praia só sexta, a semana tem cinco dias, sexta é o último, ás vezes demora pra chegar sexta, tem que esperar. Deita direito?, que a mamãe te troca. Deita por favor gatinho, ajuda a mamãe vai, ninguém merece discutir com alguém que saiu da barriga ontem…
– O tarro memelho mamãe. Quero.
– Eu pego o carro, daí você deita?
– tá.
– Aqui ó.
– ..naranja mamãe, tadê o naranja?!
– Ah minha Santa-justiceira defensora das mães com paciência infinita, por favor me ajuda! O carro laranja sumiu meu amor, perdeu-abduziu-o-gato-comeu, vermelho já tá aí. Deita agora ta?, abre as perninhas. Por favor, abre as perninhas… Abre as pernas meodeusdocéu, pode ser?, porquê tudo fica tão difícil com você hein?, Putzgrila, tudo-debate tudo-encrenca tudo-do-seu-jeito, trata logo de aceitar que a não é assim que funciona não capitão Do-contra, se continuar desse jeito vai se lascar na vida, viu? Vai se acostumando senão o sistema te engole, a mãe tá avisando, o sistema engole sem-dó…
– Dó, é? Ahhhhh mamãe…
– ..ô bunda vermelha, comeu coisa ácida..
– Ai, o popó duendu…tumada mamãe.
– Passo pomada, vai melhorar o dodói.
– Eu mamãe, tumada, eu põe bumbum.
– Estica o dedinho que ponho pomada na pontinha do dedo. No bumbum, passa no bum-bum, bumbum é embaixo, não no rosto. Na boca não, credo!, é coisa ruim comer pomada, essa mania do diacho de provar Hipoglós, ô boca de latrina-mirim. Solta o tubo de pomada? Solta o tubo moleque!, que mão-de-garra da desgrama, olha o tamanho da porcaria que você fez. Limpa a mão na barriga, isso, esfrega. Não chupa o tubo, por favor não chupa o tubo, vai ter uma overdose de Hipoglós JesusAmado.
– dodose mamãe?
– Overdose filho, acontece quando a gente toma muito uma coisa que não é pra tomar, daí a gente fica dodói, mamãe já ficou dodói assim quando tomou um porre, é ruim, não come pomada não tá?
– ..dodose é?,..tumada pode não ..
– Isso, nem pomada nem outras coisas que você vai querer tomar quando crescer, não pode, daqui uns anos a gente conversa direito sobre isso, quando você e eu formos mais maduros. Tá? Fralda trocada. Agora vai brincar no seu quarto. Vou fazer seu café-da-manhã.
– Vamu pá paia mamãe?
– Não, hoje tem escola, graças a deus tem escola senão a mamãe pira, escola é coisa sagrada, não pode faltar. Sabia que antes da escola existir a mamãe estava ficando louca? É. Louca. Porque você não deixa a mamãe nem fazer côcô sossegada. Isso, côcô, que fica na fralda, fedido, a mamãe passou dois anos com prisão de ventre. Acha graça né moleque? Por isso é Deus no céu e escola na terra. Sorriso deslavado. Vai brincar.

E ele foi. Depois de cinco minutos…

– Que silêncio esquisito-da-porra é esse hein? Não gosto de silêncio-mudo assim desse jeito, esse silêncio tá me dando arrepio, silêncio de criança é coisa ruim, merda-na-certa. Moleque, cadê você? Vem comer vem. Que safado-de-uma-figa, onde se tá? Ah, olha aí você. Era pra brincar no quarto, jardim tá sujo. O que você tá fazendo agachado na grama? O que que é essa caneca na sua mão? O que é isso dentro da caneca?!…PELOAMORDEDEUS!
– Olha mamãe, pôpô auau. Aqui ó.
Mano do céu putaquepariu, é a visão do inferno! Você teve a-manha o-dom a-moral de pegar todos os côcôs de cachorro dessa desgraça de jardim-loteado com a mão, colocar dentro da caneca e limpar a mão no rosto na roupa no tênis em tudo?, criança do céu que eu devia meter um processo cabeludo no leso do seu anjo-da-guarda. Juro por Buda Alá krisha Maomé Bin-Laden que neste momento exato da minha existência, toda minha energia-negra está concentrada em não te dar uma bela palmada no bumbum. Deus tá fazendo piada comigo. Só pode. Tira a mão da boca por Jesus de Nazaré! Olha a sua mão filho, olha pra ela, vê se tem cabimento colocar isso na boca…ai que nojo vou vomitar.
– .. boca pode não? Dodose mamãe, tumada …
– Juro que prefiro que você tenha overdose de pomada do que uma de bosta, agora pomada virou um detalhe filho, isso é merda! M-E-R-D-A. Caca, meleca-fedida, pôpô, igual que tem na sua fralda, não pode pôr na boca. Nem na mão. Nem em lugar nenhum. Não encosta em mim não anda não respira não se mexe. Tem merda até no seu cabelo Senhor-rogai-por-mim! Ainda cor amarelo-diarreia, o cachorro teve dor de barriga bem hoje, no dia que você resolve fazer a colheita, fez conchinha com a mão pra pegar, olha o cheiro disso…Levanta o braço. Larga essa caneca nojenta, por favor larga ela no chão. Isso, não se mexe, mamãe vai tirar suas roupas pra incinerar, vai tudo pro fogo, não se mexe. Hey, não apoia em mim! Não!.. segura no meu casaco. Não pega no meu cabelo! Juro, a maternidade supera as expectativas.
– Vamo pa paia mamãe?
Não filho, você tá pelado pra ir pro banho, pra desinfetar essa nojeira toda, praia só sexta-feira e pelo jeito sexta-feira vai embaçar pra chegar que essa semana tá especial.
– Banho não mamãe.
Banho sim, tá loco? Vou te esterilizar.
– Banho não.
Olha aqui seu anãozinho, protótipo de gente, entra no banho agora, não quero discutir essa questão com você, você não tem argumentos, está bosteado dos pés à cabeça..
– O tarro memelho mamãe, quero.
– Eu pego o carro, você entra?
– Tá.
– …naranja mamãe, tadê o naranja?
– Pro banho agora! O naranja perdeu. P-e-r-d-e-u. Pediu demissão. Mudou de cidade. Agora já pro banho! Obrigada gatinho, isso, ajuda a mamãe a não surtar, te amo.

Depois do banho do almoço de duas aspirinas e um gole gordo no vidro de maracujina…

– Se comporta na escola tá?
– Tá mamãe.
– Te amo menino, dá um beijo aqui bicho-gostoso. O beijo molhado de ranho mais gostoso do mundo viu..e avisa pra professora só me ligar em caso de ossos quebrados tá?, fora isso, mamãe está off-line. Fora da área de cobertura. Te amo.

A maternidade é uma inundação de sentimentos.
Não se compara à nenhum outro fenômeno da natureza.
Apenas sendo mãe para saber.

marinafilizola

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s