Explicando o Brasil atual para Murilo Rubião no seu centenário

Murilo Rubião

Murilo Rubião

Nesta semana, dia 1º de junho, comemorou-se o centenário de nascimento de Murilo Rubião. Contista, jornalista, professor, advogado, autor dos livros: O Ex-Mágico (1947) – ganhador de um prêmio da Academia Mineira de Letras – e A Estrela Vermelha (1953), consagrando-o como um dos escritores originais da literatura brasileira.

Em 1965, lança o volume de contos Os Dragões e Outros Contos e, no ano seguinte, torna-se o primeiro editor do aclamado Suplemento Literário, também no jornal Minas Gerais, em que permanece até 1969.

Com A Casa do Girassol Vermelho, Rubião transforma o fantástico em obra de arte. No início dos anos 1990, publica a antologia O Homem do Boné Cinzento e Outras Histórias. Falece em 1991.

Reconhecido como um dos mais inventivos e inovadores autores do século XX, Rubião influenciou diversos escritores contemporâneos através de sua originalidade no conto.

Para comemorar o centenário de Murilo Rubião, o Livre Opinião – Ideias em Debate convidou Marcia Barbieri, Marcio Renato dos Santos, Marcelino Freire, Luiz Bras, Andrea del Fuego para responderem a seguinte pergunta: Se você tivesse que explicar o Brasil de hoje para Murilo Rubião, que história você contaria? Confira abaixo:

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★★★

MARCIA BARBIERI 

 

Oi, Murilo, nos conhecemos quando eu ainda era uma adolescente, no entanto, nunca me lembrei tanto de você como nesses dias, são tempos sombrios o nosso… Você se surpreenderia com a quantidade de Bárbaras no Congresso brasileiro, todas engordando a olhos vistos e se era fantástico ver a multiplicação espontânea de fetos pela Aglaia, você ficaria ainda mais estupefato com a quantidade exorbitante de pilantragens dos nossos políticos, são duzentas trapaças por segundo. E as mágicas que você já suspeitava repetitiva e entediante, agora foram definitivamente engolidas pelo aparelho burocrático, nos dias de hoje nenhum mágico morre de tédio, mas de nojo! Bem, você se lembra do Teleco, o coelhinho, aquele bicho aparentemente inofensivo mas que vivia se transformando? Tenho certeza que sim, pois é, nos últimos dias o nosso país não parou de se metamorfosear, e por fim, parece que o Brasil inteiro se transformou em uma criança morta e desdentada.

MARCELINO FREIRE

Haja pirotecnia para explicar ao Rubião o Brasil de hoje. Ele que sempre foi tão nonsense. Tão kafkiano. Rubião não acreditaria que nós tomamos um novo golpe. Ou acreditaria? Escritor sempre está além, à frente. Melhor que eu ficasse em silêncio diante do mestre. Um silêncio longo. Fraterno. E ele me contasse, na verdade, como escreveu cada conto, exaustivamente. Obcecadamente. Eu ganharia mais ouvindo os segredos de sua ficção. Melhor que qualquer realidade. Do que este futuro tão pouco natural. E nada mágico. Conte-me, Rubião. Ainda mais vivo, do que nós, os vivos, em seu centenário.

LUIZ BRAS

Ah, mestre Murilo, a alegria virou alergia, mal-estar. Veja as pessoas que passam… Zumbis? Nas artérias não há mais sangue, apenas essa gosma cinza chamada “absurdo”. Eu sei, oh, eu sei, siiim, eu sei, no seu tempo o absurdo era ao menos divertido. Ou poético. Hoje ele é o avesso da irreverência e da poesia. É mórbido. Azedo. Uma máscara sem mascarado, empobrecendo e apodrecendo. Ah, mestre Murilo, o abominável estuprou o adorável, o saudável. Veja esses zumbis que passam… Pessoas? Duvido muito. Não brilham à noite, não voam. Perderam a capacidade de atravessar paredes. De virar coelho, dragão. Pararam de atravessar o Rubião. Alea jacta est, galera! O melhor sonho não é um incêndio solitário, é coletivo. Mostre pra essa gente, mestre, que a beleza pode ser contagiosa. Que mais vale ver com olhos de gato que de gatuno. Explique pra esses indigentes, mestre, que um girassol vermelho, no topo de nossa cabaça, ou no ouvido, será sempre uma selvagem flor de vidro.

MARCIO RENATO DOS SANTOS

Diria ao Murilo que tenho visto, em Brasília, Belo Horizonte e até em Curitiba, personagens que se transformam em canguru ou coelho, o que acontece em “Teleco, o coelhinho”. Se estivéssemos bebendo café, comentaria sobre um conhecido que, ao chegar por acaso ou engano em um local para onde não planejava viajar, foi preso pelo fato de fazer perguntas em um território no qual ninguém questiona nada — situação que Murilo apresentou no conto “A cidade”. Se estivéssemos bebendo cerveja, contaria a desventura de um amigo que se tornou, inesperadamente, prisioneiro e não será libertado nem em “um ano, dez, cem ou mil anos”, destino parecido com o de Alexandre, personagem de “A armadilha”. Mas, se estivéssemos bebendo vinho, confessaria que me sinto como o protagonista de “O pirotécnico Zacarias”, que não sabe se está morto ou vivo. Gostaria muito de dizer que já faz algumas semanas que leio e releio os 33 contos que ele escreveu e reescreveu obstinadamente. E que já não sei mais quando termina a ficção dele e em que momento estou diante e na realidade.

ANDREA DEL FUEGO

Murilo Rubião, o Brasil é o mesmo. Suas epígrafes bíblicas não estavam ali por nada, é claro, elas que nos deram seu raciocínio, a nota de sua composição que é a circularidade do mundo, a cobra que sempre morde o rabo. Pois estamos no momento em que o rabo ganhou uma dentada. Coisa de sempre, não tenho novidade, na roda estamos no ponto em que o mágico está deprimido e parece que o coelho já chegou no litoral.

★★★

 

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