POEMA LIVRE: Da série dos anúncios, por Tiago D. Oliveira

Da série dos anúncios

 
I
 
A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e limitados que um objeto só é nosso quando o possuímos.
Karl Marx
 
 
homem sério estável financeiramente casa própria procura mulher para casar;
mulher madura viúva procura homem para dividir os dias que restam;
menina de família procura relação séria com homem mais velho;
discreto procura bem dotado espirituoso;
 
II
 
Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas,
cantas, sofres, praticas esporte etc, mais economizas e mais cresce o teu capital.
És menos, mas tens mais. Assim, todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.
Karl Marx
 
morena 1. 70 seios fartos coxas e bunda estilo mulherão sem enganação;
loirinha estilo patricinha 100% liberal;
coroa esperta com fantasias mata viva faço tudo com carinho;
ativo intenso pau para toda obra;
boneca amor total venha se apaixonar;
 
III
 
O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura, e como o trabalho útil só é possível na sociedade e pela sociedade, o produto do trabalho pertence integralmente, por direito igual, a todos os membros da sociedade.
Karl Marx
 
saiba tudo sobre o seu futuro leio sua mão;
corpo fechado pai José ;
pare de sofrer trago o seu amor em 24h;
diante da ausência física depois de 30 dias do funcionário comunicamos o seu imediato desligamento por justa causa;
lavo passo cozinho faxino passeio com cão gato conserto monto desmonto pinto construo sou o faz tudo que você precisa;
 
IV
 
A poesia é uma espécie de regresso à casa
Paul Celan
 
o que não mata engorda o que os olhos não veem o coração não sente mais vale um na mão que dois voando quem não chora não mama quem meu filho beija minha boca adoça para muito sono toda cama é boa mato tem olhos parede tem ouvidos este é irmão deste falar é prata calar é ouro para pé torno só chinelo velho a dor ensina a gemer longe dos olhos mas perto do coração amor com amor se paga antes só do que mal acompanhado as aparências enganam em boca fechada não entra moscas antes dentes que parentes a primeira impressão é a que fica as palavras voam a escrita fica água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
★★★

Tiago D. Oliveira, 11/01/84, brasileiro, de Salvador-BA, professor e pesquisador, graduado em letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem poemas publicados em revistas como Cultverso, Hyperion e Escamandro. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”. Atualmente desenvolve pesquisas sobre a ética dos afetos em formas breves na literatura portuguesa, projeto que é ligado à Universidade Federal da Bahia e ao CNPQ (UFBA).

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