OSSOS DO OFÍDIO: 50 Corpos

Estreia da peça 'Ossos', no Recife, na noite do dia 11 de junho passado, horas antes do atentado em Orlando

Estreia da peça ‘Ossos’, no Recife, na noite do dia 11 de junho passado, horas antes do atentado em Orlando

[1] Meu coração sempre foi alvo fácil.
[2] Você, Carlos, ignorou meu coração flechado.
[3] Véspera do Dia dos Namorados. Voltei ao Recife para ver ressuscitado o meu romance “Nossos Ossos”.
[4] Os urubus, cênicos, aguardavam o público de olho em tudo que é carcaça.
[5] Era a estreia da peça “Ossos” pelo Coletivo Angu de Teatro.
[6] O Angu tem esse nome devido ao meu livro de contos “Angu de Sangue”, que eles também montaram.
[7] É tudo ossos e sangue quando escrevo.
[8] À porta da entrada do teatro, uma coroa de flores com a frase “nossos ossos esperam os vossos”.
[9] Há um outro livro meu de contos, chamado “BaléRalé”, em que na capa você encontra a fotografia de duas múmias abraçadas.
[10] As múmias são de dois homens assassinados.
[11] Dois homens atirados em um pântano holandês.
[12] Porque eram gays.
[13] Fico pensando em nós dois, Carlos. E tudo em mim é sempre urgente e dramático.
[14] A peça conta a história de um amor quase “autobiográfico” – Carlos é, nesse caso, bem atual e real.
[15] Trata-se da história de Heleno de Gusmão que, abandonado pelo namorado, Carlos, leva o corpo de um boy morto para ser enterrado.
[16] O boy é um garoto de programa, com o qual Heleno se envolveu.
[17] O garoto de programa foi assassinado e largado no Instituto Médico Legal.
[18] Heleno luta para tirar o corpo do boy do IML para devolvê-lo à sua terra natal.
[19] É uma trajetória de um amor generoso. O nosso mundo precisa, até o osso, ser mais generoso.
[20] O Coletivo Angu de Teatro sempre foi generoso comigo. Assim, até a alma.
[21] O Coletivo me ajudou na adaptação do romance – a enfrentar, de novo, esses fantasmas.
[22] Marcondes Lima, o diretor do espetáculo, é um engenhoso e genial transplantador.
[23] André Brasileiro, ator e produtor, virou em cena o meu alter ego. Entendeu o meu peito. Mais do que qualquer outro sujeito.
[24] Brasileiro deu vida, e morte, exatamente a Heleno de Gusmão.
[25] Faz tempo que André Brasileiro não me deixa morrer solitário.
[26] Ele vem e acende a luz de meu quarto, Carlos.
[27] Jathyles Miranda é quem faz a iluminação da peça.
[28] Quando eu morrer eu quero que Jathyles me guie por dentro da escuridão.
[29] Se depender do teatro, eu não morrerei tão cedo.
[30] A literatura, essa retira, com cuidado, a flecha plantada no meu peito.
[31] Não me deixa falando sozinho, Carlos. Neste universo, espelho.
[32] No palco, Marcondes Lima, figurinista e cenógrafo e o diretor (que conta com a assistência na direção de Ceronha Pontes), aparece também como ator fazendo Estrela.
[33] Estrela é uma travesti que veio morar em São Paulo.
[34] Marcondes faz, com brilho, essa estrela (de)cadente.
[35] Tu? Ou serei eu?
[36] Arilson Lopes, um astro de primeira grandeza, quando interpreta o personagem Seu Lourenço.
[37] Seu Lourenço trabalha na Funerária Novo Horizonte e é quem leva os dois gays no rabecão.
[38] Seu Lourenço é igualmente solidário. Sem ele, os gays não entrarão no céu.
[39] Ivo Barreto, Daniel Barros, Robério Lucado estão nos esperando, no mesmo céu do palco, de coração aberto.
[40] Nenhum desses atores deixará a nossa arte morrer.
[41] O “golperno”, que aí está, não gosta dos artistas. Nem dos viados.
[42] A música final da peça celebra gente que brigou por nós, artistas. Escritores, poetas, atores, dramaturgos.
[43] A trilha sonora da história de amor, contada pela peça, foi composta pelo visceral Juliano Holanda.
[44] Requiém, concerto fúnebre, celebração da memória, um minuto de silêncio…
[45] Em nome dos 49 homossexuais e simpatizantes mortos na cidade de Orlando, nos Estados Unidos. Quase ao mesmo tempo da estreia de “Ossos”.
[46] Em todo canto, matam um. Flechado, ignorado, cuspido do mapa, solitário, vazio, infeliz, espancado, fuzilado.
[47] O poeta Federico García Lorca, assassinado com um tiro no rabo, é um dos exemplos de ataque homofóbico lembrados pela peça.
[48] Eu escreverei sobre eles, por eles, para eles, por você e por mim, até o fim. Sempre, eternamente no livro e no palco, vingados.
[49] Sou eu a quinquagésima vítima do atentado. Não enxerga isso, Carlos?
[50] 
marcelinofreire
SERVIÇO
OSSOS
De Marcelino Freire
Pelo Coletivo Angu de Teatro
Direção: Marcondes Lima
Trilha sonora original: Juliano Holanda
Estréia: 11 de junho, as 21h
Temporada: de 11 a 26 de junho
Sextas, as 20h – Sábados, as 18h e 21h – Domingos, as 19h
Onde: Teatro Apolo (Rua do Apolo, 121, Bairro do Recife)
Ingressos: R$20,00 inteira / R$10,00 meia-entrada
Informações: 81 3355-3321
Classificação indicativa: 16 anos
Vendas: Bilheteria do teatro e site ne10ingressos!
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