Marcelo Flecha: Arte não é adorno, cara pálida!

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No ano em que completa dez anos de ininterrupto fazer teatral, a Pequena Companhia de Teatro mantém sua vocação itinerante, e celebra circulando com seu repertório de espetáculos por duas regiões completas do nosso país – Pai & Filho, pela região Centro-Oeste, através do Programa Petrobrás Distribuidora de Cultura, e Velhos caem do céu como canivetes, pela região Norte, através do SESC Amazônia das Artes.

Mas, como quase nada é festa, depois desses dez anos de história, o principal desafio do grupo continua sendo o mesmo: produzir teatro e sobreviver dessa produção em uma das periferias mais miseráveis e agônicas do país, o Maranhão.

Nosso fazer atual, e durante toda a última década, vem se sustentando com a democratização dos recursos públicos federais disponibilizados nos últimos anos, e de parceiros específicos da iniciativa privada (leia-se SESC e SESI), fatores que nos possibilitam resistir à indiferença recebida dos poderes públicos municipal e estadual, que insistem em construir nossa invisibilidade.

Agora, é o governo federal que guina para a destra e o desastre é iminente. Nós artistas, que vimos encontrando na arte uma forma de construir um dizer comprometido com a efetiva consolidação do conceito de cidadania, sabemos que os sinais dados levam os rumos da cultura do país à fatídica condição de mero evento.

O que essa situação tenta esconder é a notória necessidade de combater o pensamento crítico, a reflexão política, o desenvolvimento cultural. O provincianismo imperante em nosso estado, e que agora se estende Brasil afora, continua sendo o de olhar a cultura e a arte como um enfeite de bolo, um entretenimento para as elites, uma disfarçada mercadoria para turista ver. Exemplos tácitos desse caminho são a frustrada tentativa de extinguir o Ministério da Cultura, POR parte do governo federal, e o menoscabo da cultura ao fundi-la com o turismo, por parte do governo estadual. A ideia de política pública cultural é uma nebulosa fantasia, e nós, artistas, continuamos pautados pelo calendário festivo de Carnaval, São João, férias, Pátria, Natal e Réveillon.

Um grupo de teatro como o nosso – que tem como objetivo a pesquisa, o desenvolvimento de linguagem, a revisão histórica, a contestação da realidade atual, a reivindicação de uma sociedade mais justa e equilibrada – ao encontrar-se incrustado no cerne de um ambiente tão inóspito para o desenvolvimento sociopolítico-cultural, despedaça-se na tentativa de manter-se erguido, atuante e contundente na reivindicação dos direitos dos pequenos, dos menores, dos sem voz, como demostrado nos nossos dois últimos espetáculo, ao visitar temas como poder e miséria.

Enquanto os poderes municipal, estadual e federal constituídos não conseguem enxergar o nosso fazer como instrumento importante para a consolidação de uma sociedade mais empoderada, é a circulação do nosso pensamento pelo país nossa principal força motora, comprovada com a extensão do nosso circuito nesses dez anos de viagens, intercâmbios, aplausos, vivências, quilômetros, plateias e bagagens. Os projetos que celebram os dez anos da Pequena Companhia de Teatro são exemplos manifestos do aqui posto.

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★★★

Marcelo Flecha

Diretor e dramaturgo, é um dos idealizadores da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA). Publicou o livro Cinco Tempos em Cinco Textos: Dramaturgia Reunida.

Confira todos os textos de Marcelo Flecha:clique aqui

Um comentário sobre “Marcelo Flecha: Arte não é adorno, cara pálida!

  1. A coisa se encaminha pra tempos ainda mais sombrios pra nós, querido. Por outro lado, essa inócua recriação do MinC e o papel ridículo que os deputados fascistas se prestaram fazer na audiência na câmara são provas que estamos incomodando, e que a antítese da cultura do ódio que eles estão tentando implantar no país é a cultura, por isso estão tão engajados em nos desmobilizar. A resposta tá na rua. Precisamos chegar muito mais perto da sociedade, atingir aquela parcela que normalmente não frequenta o teatro, porque esses já estão do nosso lado. Há uma parcela enorme de perdidos/envergonhados que, depois do 17 de abril e dos escândalos do golperno, não sabem muito bem pra que lado pender.

    Em tempo, a leitura da nota pública que o Bagaceira lançou na semana passada é essencial pra todos nós, até porque precisamos estar junto deles para que se entenda que não se trata de um ato isolado, mas de um retrato de todo um setor.

    E, por fim, lembrar que o Sistema S é uma sociedade de capital misto, ou seja, dinheiro público, que não deveriam servir pra pagar patos…

    Enfim, precisamos assumir a nossa invisibilidade e encontrar associações com outros movimentos sociais, sair do nosso círculo, protegido e inócuo…

    São sombrios esses tempos, camarada! À luta!

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