Leia um trecho de ‘Aqui, no coração do inferno’, novo romance de Micheliny Verunschk

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A Editora Patuá e o Patuscada – Livraria, Bar e Café realizam o lançamento do livro Aqui, no coração do inferno, novo romance de Micheliny Verunschk, vencedora do prêmio São Paulo de Literatura 2015 – categoria melhor romance de 2015 – autor estreante acima de 40 anos, pela obra nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida.

O evento será realizado no dia 28 de julho (quinta-feira) a partir das 18h no Patuscada – Livraria, Bar e Café (Rua Luís Murat, 40 – Vila Madalena – São Paulo – SP). A entrada para o evento é gratuita e o exemplar estará à venda por R$ 38,00 (pagamentos em dinheiro e cartões de débito e crédito).

Micheliny Verunschk é autora dos romances Aqui, no coração do inferno (Patuá, 2016) e nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida(Patuá, 2014) – projeto com patrocínio da Petrobras Cultural. Também é autora dos livrosGeografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003) e A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom como livro  Geografia Íntima do Deserto. É doutoranda em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade  Católica de São Paulo. O romance nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida – ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2015 – categoria melhor romance de 2015 – autor estreante acima de 40 anos.

Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

★★★

Leia a orelha do livro Aqui, no coração do inferno, escrito pela autora Maria Valéria Rezende:

Os grandes poetas e ficcionistas têm uma antena pronta a captar o que há de ser então narrado pois precisará ser lido mais adiante, quando só a imaginação for capaz de interpretar os fatos, ou seus disfarces, e desvelar a verdade escondida. Micheliny Verunschk tem essa antena muito sensível! Este romance começou a ser escrito (e reescrito) há anos, para estar pronto e vir à luz exatamente quando se tornou indispensável para nos ajudar, sobretudo aos mais jovens, ao difícil exercício de reconhecer e compreender as sombras de nosso passado, não muito remoto, projetadas sobre nosso presente caótico e incerto, porque “bandidos e heróis podem trocar de papel de um jeito que, às vezes, a gente pode não saber mais quem é quem”.

Começa -se por ouvir a voz da adolescente, curiosa, inteligente e observadora, tentando articular o que vê e ouve, aberta ou clandestinamente, no povoado onde vive, dentro de casa, nas gavetas do pai (estranho delegado de polícia, cheio de segredos), nas perguntas e explosões de rebeldia da irmã mais velha, em sua própria intimidade, com fragmentos de informação retidos da escola para entender e interpretar a seu modo a história que quer contar. O desafio para ela e para todos nós, sempre, é ser capazes de “costurar uma história na outra”, sabendo porém que “nem tudo precisa ser explicado numa história. Se precisasse, não faria sentido existir a imaginação.”  Uma voz que ao longo do livro-tempo amadurece, à medida em que descobre aquilo que conta. História à qual os que insistem em pegar etiquetas aos livros poderiam aplicar apressadamente o carimbo de “regionalismo”, de “realismo mágico “… mas aqui se trata não apenas de uma história contada com maestria, mas de um aprendizado, de um campo onde se podem colher códigos e pistas para ler melhor, investigar como a narradora, ficar atentos ao estranho que é o mundo hoje, ontem, agora, aqui e alhures, e defender-se de suas armadilhas.

Arme-se o leitor, portanto, de imaginação e coragem para empreender esse árduo caminho em busca da verdade, o caminho que nos resta.

★★★

Leia o primeiro capítulo de Aqui, no coração do inferno, o novo romance de Micheliny Verunschk

 

(1)

Meu pai prendeu um garoto. Minha madrasta chegou pra mim e minha irmã mais velha e disse,

Olha, seu pai prendeu um menino, um rapaz de uns 14 anos, e vai trazer ele pra casa por umas horas, porque seu pai não acha certo ele ficar na delegacia, em risco. É um menino muito novo e vocês sabem bem como o pai de vocês é. Mas isso é só enquanto a viatura não chega pra levar ele pra Matapombos, ninguém precisa se preocupar.

Matapombos fica a uma hora de carro daqui e quase duas horas e meia de ônibus, dependendo da situação da estrada. Quando chove, e chove muito, a estrada vira um lamaçal vermelho, um barro vermelho e pegajoso, como se a lama fosse sangue, e a estrada, sua veia. Matapombos é uma cidade bem maior do que esta em que moro e lá tem tudo o que aqui não tem, como sorveteria, por exemplo, ou como uma fundação pra meninos e meninas que deram errado, uma febem. Febem, Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor. É uma sigla. É isso o que quer dizer. Mas apesar de falar em bem, não é lá uma coisa muito boa. De todo modo, é pra lá que o garoto vai, minha madrasta explicou. Minha madrasta tem muitas explicações, um arsenal delas, e sempre acha que sabemos como papai é. Não sabemos. Mas vamos descobrindo.

E ele fez o quê? Por que ele tá preso?, perguntei.

Ela, não muito segura, como se estivesse constrangida, contou, pausadamente, que o garoto matou umas pessoas e a gente meio que se encolheu no susto, porque nem eu e nem minha irmã tínhamos como imaginar papai trazendo um assassino pra dentro de casa, ainda mais um que tivesse matado muitas pessoas. Mas papai é assim mesmo, ele não funciona como todos pensam que ele deveria funcionar, o que faz dele um sujeito com noções muito próprias de dever, moral, justiça e todas essas coisas que os adultos enchem a boca pra falar.

Que maluquice! Papai não pode trazer ele pra casa, não. Só pode tá doido, né?

Minha irmã mais velha estava mesmo inconformada. Na verdade, minha irmã mais velha se conforma pouco com tudo. Papai diz que ela está ficando rebelde e eles batem de frente o tempo todo, num desgostar-se contínuo. Ela esperneia e grita e sai batendo portas. Eu acho um desperdício ser assim, mas acho também que é preciso que alguém grite, mesmo que o outro rebata. Faz parte do mecanismo do mundo. E quando a coisa parece tão absurda, como essa de trazer um assassino pra dentro de casa, gritar sobre a maluquice até parece saudável. Mas, no fim das contas, eu prefiro mesmo o silêncio e, se possível, nenhum confronto, ou nenhum confronto direto, especialmente com papai. Assim como a minha madrasta, que disse pra gente confiar nele e que ficássemos sossegadas, pois o menino ia ficar na cozinha, algemado.

Faz dois anos que chegamos a esta cidade, eu, minhas irmãs, meu pai e minha mãe, isto é, minha madrasta. Minha mãe mesmo morreu quando eu e minha irmã mais velha éramos pequenas. O bebezinho é filha desse segundo casamento. Meu pai veio ser delegado daqui, cidadezinha onde Judas perdeu as duas botas, mas isso por algum motivo havia de ser bom pra carreira dele. Santana do Mato Verde, lugarzinho violento do caralho. Desculpe o mau jeito, eu sou desbocada mesmo. Especialmente quando os adultos não supervisionam.

Quando a gente chegou aqui, ainda na entrada, de uma espiada só deu pra ver a cidade toda. A entrada fica lá em cima, no morro, e a porra da cidade aqui, dentro de um buraco. Minha irmã ficou impossível. Ela chorava sem parar. Aquele choro de soluçar, sabe? Eles tinham dito pra gente que a cidade nem era tão pequena, e que a gente ia fazer novas amizades. Que ia ser maravilhoso, aqui. Essas coisas que os adultos dizem pra conformar as crianças, ou talvez pra se convencer eles mesmos. Coitada de minha irmã. Tive muita pena dela. Já eu, eu não liguei muito, não. Isso porque esta cidade é um acontecimento.

Santana é pequena. Acho que do tamanho ou até menor que o nosso antigo bairro. O que mais me impressionou quando cheguei aqui foi o fato de que uma cidade minúscula precisasse ter dois cemitérios. Um na entrada, outro na saída. O que estranhei no início hoje em dia faz muito sentido pra mim. E diz muito sobre que lugar é este, esta cidade, um monstrengo, um bezerro deformado com uma cabeça na frente e outra na parte de trás, as duas sempre mastigando, mascando, ruminando. Quem olhá-la num mapa verá que é isso mesmo, que é assim que Santana é.

Quase sempre morre alguém em dia de feira, por exemplo. Parece uma festa. Tem duas famílias que são inimigas e volta e meia a gente escuta o estouro de balas zunindo feito o velho oeste americano. Numa festa no clube municipal, por exemplo, teve um bangue-bangue e morreram quinze. Desses quinze, dez eram de uma das famílias. Os outro cinco morreram de estar na hora errada e no lugar mais errado ainda. Foi essa chacina, aliás, que trouxe papai pra trabalhar aqui. Se minha irmã fosse contar isso pras amigas dela, da nossa antiga cidade, acho que não acreditariam, e é bem capaz que rissem de nós, com um pouco de pena, da arapuca em que nos metemos. Mas a gente nem se espanta mais de ver papai saindo armado, quase engasgado do almoço mal comido pra ver se prende bandido em flagrante. Ele diz que é sempre melhor prender o facínora no pulo do gato. Mas não pro bandido, é lógico. De todo modo, morre muita gente por aqui, daí que se fosse um cemitério só, era possível que faltasse chão pra engolir todos.

Os dias de feira são sempre os melhores. Além da defuntaria que, como eu disse, quase sempre resulta desses dias, há um monte de outras coisas que movimentam a cidade. As pessoas que vêm dos sítios e dos povoados a pé, de carroça, a cavalo ou penduradas em carros caindo aos pedaços sempre estão muito arrumadas. Uma arrumação lá delas, é claro. As mulheres têm cabelos muito longos, alguns amarrados, outros trançados, mas a maioria soltos. Muitas usam lenços e eles quase nunca combinam com o resto do conjunto. As roupas têm umas cores e estampas inacreditáveis e elas também estão sempre muito maquiadas. Eu acho engraçadas aquelas bolas de rouge muito vermelhas nas caras, os cabelos oleosamente pregados nas cabeças. Os perfumes, então, inconfundíveis.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha…

Ah, isso tirei da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal. É que falando das pessoas que vêm dos sítios, por um momento me achei parecida com o marujão quando chegou por essas terras e viu as índias peladas. Mas foi um desvio. Uma lembrança rápida, acho que porque o professor de português falou que a carta inteira é uma grande aula de virgulação. Já esta minha carta, ou o que seja, não pretende nada disso. Pretende só contar uma história, que começa com o fato de que meu pai prendeu um menino e trouxe ele pra casa.

Eu gosto de ver o vaivém das pessoas na rua em dia de feira, em torno da praça ou se amontoando em filas nos correios. É no dia de feira que essas pessoas vão aos montes ver se chegaram cartas dos parentes que moram longe, porque o carteiro não chega aonde elas moram e as cartas ficam amontoadas nas agências esperando que os destinatários aparecem para resgatá-las. A emissora de rádio de Matapombos é retransmitida por um alto-falante na praça, sempre na hora do programa Mensagens Sonoras, que manda recados pra pessoas dos sítios de toda a região e também lhes dedica músicas. No intervalo tem sempre o horóscopo, com uma musiquinha grudenta que diz

Atenção, menina, ouça aqui o seu horóscopo! Atenção, menina, ouça aqui o seu horóscopo!

É também no dia de feira que as pessoas compram roupas novas nas bancas de madeira ou nas lonas que ficam estendidas no chão. É assim: batatas, cenouras, chuchus, botas de couro, selas, arreios, panelas, tecidos, tapiocas, galinhas vivas. Tudo está pra vender. Se chove no dia de feira, fode tudo pra quem não tem banca e toldo que proteja a mercadoria. Se chove no dia de feira, é um corre-corre dessas formigas coloridas e tac tac tac, se juntam todos em alguma bodega, homens e mulheres e crianças, os adultos a se aquecer na cachaça, às vezes os pequenos também. Dia de feira é, aliás, dia de grandes cachaças. E dia de desafiar as autoridades, como no dia do saque. Não fazia nem dois meses que a gente tava morando aqui, quando minha madrasta chegou esbaforida

Tranca tudo! Tranca tudo, que vai ter saque!

A gente ficou olhando por uma brecha do basculante, um pouco sem entender o que estava pra acontecer ali, mas logo ouvimos um grande barulho, como uma trovoada ou um terremoto, mas que era mesmo uma multidão que subia e descia a rua meio que obedecendo a uma ordem invisível, as mãos cheias de tudo o que podiam carregar, as costas arqueadas dos sacos nos lombos.

Uma turba!

Uma turba é uma gigantesca e descontrolada serpente que vem como uma tempestade, sua gorda barriga esmagando tudo. Já saquear, eu achei, é trabalho de gafanhoto, que vem logo depois do estouro da barragem.

Vai ter saque! Vai ter saque! Tranca tudo, que vai ter saque!

E daí ninguém pode fazer nada. Quando acaba esse trabalho, coisas pisoteadas, sapatos perdidos, gente machucada, casas e lojas fechadas, todo mundo meio escondido e um tipo de dormência ou vergonha na vida da cidade pelo resto do dia, pelos dias seguintes, até que tudo volte ao normal novamente.

Papai não fez nada no dia do saque, ele disse que era mais gente do que contingente. Achei engraçado. Ele chama os soldados dele, três, e mais o cabo, disso, de contingente. Mas essa foi a única vez em que ele não entrou em ação, o que com certeza o deixou frustrado. Acho que por ser bom pra carreira dele estar aqui, ele tem, sei lá, uma síndrome de herói. Não que ele seja, de fato, mas que ele quer ser. Se acha. Daí ele se mete nos tiroteios e corre pelo mato em diligências e quer acabar com o mata-mata das duas famílias e ainda trazer trabalho pra casa. Um dia papai acaba é com uma bala bem no meio da testa como o delegado anterior. Espero que não, mas ele não é lá muito precavido. Se fosse, arranjava outro emprego. E ia criar a gente de outra forma. É o que minha irmã diz. De todo modo, papai é um cara estranho. Mas nunca tinha inventado isso de trazer um assassino pra dentro de casa.

O rapaz entrou de cabeça baixa. Loiro, um pouco mais alto do que eu, podia ser meu colega de classe. Papai deixou ele na cozinha com um soldado e se reuniu com a gente. E disse basicamente a mesma coisa que a minha madrasta, que o garoto matou umas pessoas, que não achava certo ele ficar na delegacia porque teve um tumulto, mas que a gente não se preocupasse. Papai sempre diz pra gente não se preocupar. É um pouco irritante, mas finjo que tudo bem porque, como eu já disse, meus confrontos são de outro tipo. Mas quando ele falou isso, julguei, por um momento, que havia uma coisa meio perversa, não porque ele quisesse proteger o garoto, mas porque achei que havia um brilho de orgulho em seu olhar, satisfação não por ter prendido o menino, mas exatamente por aquilo que o menino fizera. Eu queria os detalhes, circunstâncias, meios, vítimas. Tiro, foice ou faca? Homens, mulheres e crianças? Todos de uma vez ou aos poucos, um por um?

Como um menino assim pode ter matado muitas pessoas?

Mas papai nunca foi de dar detalhes de nada. O que me faz fazer o que faço. E os tênis puídos do garoto, eu percebi, eram mesmo de dar pena.

 ★★★

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