Marcelo Flecha: Sem polêmicas, exclamações ou superlativos

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Passei a semana refletindo sobre o quanto o teatro consegue se descolar do rolo compressor imprimido pela contemporaneidade, e no quanto ele contribui para a educação do cidadão, em tempos onde gritos, pipocas, atrasos e ruídos fazem parte do cotidiano das artes, seja no cinema, no show de música, na galeria de arte, no circo.

O teatro é templo de pontualidade. Tolerância compreende, no máximo, quinze minutos. O espectador chega pontualmente – a grande maioria – e entende que isso é necessário para a melhor fruição da obra que vai assistir. Essa conquista é do teatro, tendo em vista que esse mesmo espectador chega a um show de música com uma hora de atraso, sabendo que vai entrar, e que o show ainda está longe de começar.

Qualquer espectador minimamente acostumado com uma sala de teatro sabe que não entrará para ver um espetáculo comendo ou bebendo, jamais. Essa conquista é do teatro, pois, esse mesmo espectador vai ao cinema e se empanturra de pipoca e refrigerante, sem o menor constrangimento.

O mesmo espectador do parágrafo acima sabe que, após adentrar na sala onde acontecerá a apresentação teatral, seu silêncio é o primeiro indício manifesto do respeito que ele tem pelos artistas em cena. Outra conquista do teatro, pois sabemos que, o reiterado espectador, não só cochicha, como conversa e brada em qualquer sala de cinema ou casa de show.

Hoje, em pleno século vinte e um, qual é o único lugar onde se desliga o celular antes de entrar? Na peça de teatro. E caso aconteça o indesejado esquecimento, corre-se o risco de que o toque do celular gere a virada do pescoço e o olhar de toda a sala, identificando em você o extraterrestre mais distante no espaço, ou o troglodita mais distante no tempo.

São amenidades que tornam a vida em coletivo mais afável, mais amável, mais sociável. São coisinhas sem importância que transformam as pessoas e ajudam a construir o sentido de cordialidade, boa educação, respeito. Pontualidade, assiduidade, atenção, reconhecimento, são predicados importantes na constituição do cidadão, e o teatro, com a parcimônia que lhe é particular, contribui para robustecer esses sentidos no imaginário das pessoas.

Sim, de fato, é sobre essa grande bobagem que eu estendo minha reflexão hoje. Um assunto menor, anódino, entediante: educação. Algo fora dos holofotes, mas que fundamenta meu esforço recente em explicitar a importância do teatro na vida das pessoas.

Percebam que a peça nem começou ainda.  Tudo o que advém da cena quando a cortina se abre é reconhecidamente construtor de dizeres que formam, esclarecem, questionam, contestam. Minha defesa hoje é mais sutil. Apenas destaco aqui a ação efetiva de formação cidadã que o teatro oferece antes mesmo do espetáculo começar – lembrando que, no teatro, antes da cortina se abrir, temos o nada. O teatro tem esse poder. Só ele pode fazer do nada um espaço de ensinamentos para a vida toda.

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Marcelo Flecha

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