Jornalista mostra como as músicas de Cazuza e Renato Russo contaram parte da história da transição da ditadura para a democracia no Brasil

891d7e66-1947-4de8-a414-cfc7360861a6Por Christina Fuscaldo

Já faz tempo que o jornalista Mario Luis Grangeia começou a se interessar pelas relações entre cultura e política, mas foi analisando as letras de composições de Cazuza e de Renato Russo que ele percebeu a relação entre a obra de dois ídolos da sua adolescência com a redemocratização do Brasil. Em “Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática”, da editora Civilização Brasileira, ele coloca o foco na criação das obras desde 1978, época do início do Aborto Elétrico (primeira banda de Russo) e fim do governo do general Ernesto Geisel, até 1996, ano de morte do líder da Legião Urbana e da gravação dos dois últimos álbuns de sua banda, “A tempestade” e “Uma outra estação”.

Creio que as letras de Cazuza e Renato fizeram com o Brasil da transição democrática o que filmes do neorrealismo italiano fizeram com a Itália pós-Segunda Guerra Mundial, por exemplo. O valor documentário dessas obras é inegável, mas, no caso dos dois letristas, essa contribuição me parecia subvalorizada. Talvez por boa parte dos repertórios enfocar questões íntimas, como amor e identidade própria, a abordagem deles à esfera pública foi menos analisada. Uma contribuição do livro é o realce à essa faceta cronista dos dois cantores. Ele demonstra que eles não fizeram “canção de protesto” nem foram porta-vozes só dos jovens ou outras minorias. Vocalizaram visões e expectativas comuns aos brasileiros de todas as gerações”, afirmou o autor em entrevista para o blog da editora.

Mario Grangeia vai lançar a obra no próximo dia 5 de julho, na livraria Blooks, no Rio. O jornalista Silvio Essinger participa de debate com o autor antes da sessão de autógrafos

Especialista em Sociologia, Política e Cultura pela PUC-Rio e mestre e doutorando em Sociologia pela UFRJ, Mario foi repórter da revista Exame e do jornal O Globo e hoje é assessor de comunicação do Ministério Público Federal. O estudo foi desenvolvido durante o curso na PUC-Rio, mas começou a ser reescrito como ensaio em 2013, ano em que uma versão anterior levou o 2º lugar no prêmio Vianna Moog, da União Brasileira de Escritores-RJ. Foi recém-contemplado com a bolsa Criar Lusofonia (do governo de Portugal) para desenvolver a pesquisa do próximo livro, com histórias de famílias luso-brasileiras.

 

ORELHA:

“Ser jovem no Brasil dos anos 1980 não foi algo fácil, ou simples, ou puramente divertido. Sabe lá o que é atravessar uma era em que o país saiu de uma ditadura militar, grávido de esperança, sonhos e utopias, e ver os bebês serem abortados, um a um, ao longo de planos econômicos furados, escabrosos casos de corrupção e vírus tão devoradores quanto indecifráveis? Naqueles tempos em que a inocência ruía a cada esquina, novos sons, novas batidas, novas pulsações se fizeram necessários. E o rock, com suas farpas e arestas (e um coração transbordando de tudo), acabou sendo o veículo ideal para os trovadores que tinham a missão de reinventar o Brasil para o novo milênio.

Ao mesmo tempo profundamente semelhantes e diferentes, Cazuza e Renato Russo compuseram o songbook da perplexidade de uma garotada diante do país (e do mundo) que lhe foi entregue. Dobrando sua pena a estilos estrangeiros (àquela altura cosmopolitas e urbanos), eles acharam formas simples e poéticas para falar de política (“Que país é este”, “Brasil”), de amor (“Codinome beija-flor”, “Quase sem querer”) e de tudo que se encontra no meio. Existencialistas, apaixonados, debochados, desesperados e inconsequentes, eles cresceram junto com o público para quem cantavam, dando versos e acordes às suas dúvidas, solidões, iras e dores de cotovelo.

Em Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, Mario Luis Grangeia conduz o leitor numa viagem cheia de solavancos pelo Brasil em desconstrução, que Cazuza e Renato mapearam com tanto brilhantismo e audácia. Suas letras – e entrevistas, modalidade de comunicação na qual os dois também fizeram arte – ajudam a compor um relato sobre como, após o país ter se despido dos véus da censura e do isolamento em relação ao mundo, sua juventude encontrou os caminhos numa realidade muito mais voraz e cheia de possibilidades. É a história, com H maiúsculo, contada por quem não teve tanto tempo na Terra (ou teve seu próprio tempo), e a quem restou apenas a imortalidade.”

Silvio Essinger

BRASIL: CAZUZA, RENATO RUSSO E A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA
Mario Grangeia
Páginas: 176
Preço: R$ 32,90
Editora: Civilização Brasileira / Grupo Editorial Record

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