Nara Vidal lança o livro de contos ‘A loucura dos outros’ em São Paulo, Minas e Rio

814c0cea-4683-40ec-b654-7b78fdf946d9Loucos são os outros. Uma mulher que perde a cabeça, outra que desaparece diante dos olhos do marido, a morte de uma criança doente, a perda de uma mãe, a disponibilidade sexual, violência doméstica, alcoolismo, sexo casual, drogas, amor profundo e pura loucura. Tudo isso poderia definir os vinte e um contos, cada um com nome de mulheres como título, que compõem o novo livro adulto de Nara Vidal, A Loucura dos Outros (Editória Refromatório), escritora mineira radicada em Londres. Os lançamentos acontecem em 4 de agosto, quinta-feira, no Cemintério de Automóveis em São Paulo; e 13 de agosto, sábado, no Estação 30, em Guarani, Minas Gerais. Haverá também na Blooks do Rio de Janeiro, dia e horário a confirmar. Leia no final da matéria um conto que faz parte do livro.

Nara se arriscou de propósito nesse novo trabalho. Seu primeiro adulto, Lugar Comum (Ed Pasavento, já em reimpressão) é um livro fundamentalmente romântico, no sentido de cantar origens, saudades e o, contraditoriamente, extraordinário lugar comum de cada um de nós.

“Pra mim, escrever é tentar. O risco vem com a tentativa. Não é possível que eu recrie um tipo de escrita que fiz no primeiro livro porque aquele livro foi concluído. Disponibilizou-se para o leitor que agora faz uso dele, com intimidade, referências próprias. Eu quis fazer uso de outra linguagem, de escrever por outro ângulo, escolher palavras e temas que não foram ainda tratados no livro anterior”.

A loucura dos outros traz no título o teor do livro. Mas cada conto é revestido pela imprevisibilidade incrivelmente dramática. “Louco é sempre o outro, não? De fato, somos todos absurdamente desequilibrados e prontos para apontar aqui e ali o que há de errado, de insano, de anormal, de impressionante com os outros. Loucos somos todos e cada um de nós. Exatamente por isso quis que os títulos dos contos fossem nomes de mulheres. Nomes relativamente comuns que trazem a tragédia e o renascimento nosso de cada dia. É um livro íntimo no sentido de falar de perdas, violência, sexo, amor, traição.” reflete a autora.

Quem espera outro Lugar Comum se surpreenderá. De uma certa maneira, os livros são praticamente opostos. “A loucura dos outros” é cru, áspero e trágico. Mas exatamente por isso fala muito do amor. Quer loucura maior que essa? “Incesto, adultério, trocas de casais permeiam as páginas esparramando um mudo desespero. O sexo como escape e culpa, quando não ódio filtrado pela libido. Mas não pense a leitora, o leitor, que não há doçura e humor nas entrelinhas. São as recompensas em meio ao puzzle tragicômico das narrativas que se interligam que tornam este livro único. E aí, descobrir que a loucura dos outros coincide com a nossa é mero detalhe.” , escreveu o jornalista Daniel Benevides que assina o texto de orelha do livro.

O prefácio é do escritor Godofredo de Oliveira Neto

São contos com nomes de mulheres, com trajetórias de mulher, com alegrias, tristezas, ódios e amores de mulher, lições e derrotas extremas que agarram o leitor acumpliciado e afundado na poltrona, os olhos vidrados, o peito arfando numa viagem insaciável, agarrado àquelas vidas pulando das páginas . Percursos que desafiam a ordem moral, essa moral social injusta, como o casamento no conto “ Adriana”, ou na demissão travestida de redenção no conto “ Maria Dulce”, um dos mais impactantes trabalhos literários que pude ler nesses últimos anos. Nessa narrativa o tom confessional faz com que a personagem, para reencontrar a paz consigo mesma, reencontre saída no crime, numa revolta interior que os leitores acompanham perplexos e às vezes condescendentes, alternando ira e compaixão pela jovem opressa e ofegante.

(…) A tirania da carne e os fantasmas do desejo vêm tratados com belíssima literariedade e os leitores, já acumpliciado com as figuras femininas, torcem para um final apaziguador, que não vem à primeira vista, mas que explode como libertação quando fecham o livro. É difícil escolher os contos, todos são de valor artístico extraordinário e cabe ao leitor e à leitora os descobrirem e devorá-los. O distanciamento requerido pela estética literária permite transgressões  de normas – fora e dentro da narrativa – e criam o conhecido prazer do texto.  O A loucura dos outros  provoca esse prazer da leitura.

Leia um conto que faz parte do livro A loucura dos outros

Íris

Encostaram um no outro desde que olharam ao redor e fora de casa. Habituaram-se ao namoro que os acompanhou feito uma tosse de inverno, meio fraca, insistente, persistente.

O dia do pedido de casamento foi feito qualquer um. Já tinham dezenove anos e quinze de convivência.

Íris, diante do pedido, disse nem que sim e nem que não.

– Quero nos meus cabelos uma coroa de jacinto azul. É a flor da fidelidade. Sem uma coroa de jacinto azul na cabeça não posso me entregar.

– A flor de jacinto que plantou morre toda primavera, Íris. Essa secura desta terra mata toda possibilidade. Você tá é me dizendo que não quer casar comigo?

– Caso quando florescer jacinto azul para coroa que eu vou fazer.

Na cidade da Íris, todo mundo tinha lá suas manias. Colocava-se vassoura atrás da porta para visita ir embora. Cobria-se espelho em dia de trovão. Deitava-se rasteiro no chão quando morcego entrava em casa. O tio avô de Íris, que não saia da cadeira da cozinha esperando a morte lhe carregar pelas mãos, viu uma morcegada em voo raso entrar em casa às seis da tarde. Não saiu da cadeira, não se deitou rasteiro no chão. Virou vampiro. Ninguém mais viu o velho.

Tinha gente que mandava o padre benzer a casa depois de entrar bruxa.

A Íris dizia não ter essas manias. Mas recusando as teimosias coletivas, arrebanhava outras: era a única da cidade que não matava as bruxas. Tinha predileção por elas. Enquanto todo mundo corria atrás de borboleta, Íris ficava lá, cabeça virada pra esquerda examinando a imobilidade da bruxa agarrada na madeira descascada da varanda.  Íris era única que chamava bruxa de mariposa. Achava a sonoridade da palavra de uma beleza tão grande que não usar era pecado. Era meio feito o Guido, o primo distante, italiano que achava que a palavra mais bonita em português era “pesadelo”, coitado, sem entender direito se tratava de um íncubo.

Aos dezoito anos e com Silvério há quatorze, conheceu Adriano. O homem veio sem rastro, sem mulher, sem filhos e abriu um secos e molhados para concorrer com o senhor Altamiro que só não vendia o seu mau humor porque estava agarrado a ele.

Silvério veio como uma chuva fresca na cidade. O armazém era belíssimo. O balcão alto de cerejeira era escorado por sacos de linhagem com feijão branco, preto e vermelho, arroz de ponta, arroz redondo, fubá, farinha de trigo, farinha de mandioca e polvilho. Em seguida, a doçura se esparramava nos grãos que grudavam nos dedos suados das crianças que esperavam entediadas o açúcar refinado e o cristal serem pesados.

Tudo preciso através da balança Ramuza de ferro fundido e embalado em sacos de papel. Dos céus caiam alho, tomates secos, mortadelas, queijo cavalo, pernil defumado, cebolas. Em cima do balcão, a máquina registradora perto do baleiro de vidro que servia pra troco quando faltava o níquel.

João Balão, o menino dos dentes marrons, fornecia o jornal velho em troca de chocolate. João Balão fez enriquecer o doutor Salim, dentista sírio que aportou na cidade com os filhos que, convidados para os aniversários davam caixas de bombons de presente. O menino da boca podre, aos oito anos, tinha nervos expostos nos buracos dos dentes. Mas o desejo pelo chocolate era maior que ele. A doçura fazia da dor um vago esquecimento. Comia e chorava, o pobre. Assim, nunca faltava jornal na venda do Adriano.

Na vitrine, espanada duas vezes por dia, caixas de bombons. Não as do João Balão. Caixas vindas dos vales argentinos e chinelos. Dizia Adriano que, feito a flor de jacinto, o chocolate bom era feito em lugar frio. Nas prateleiras, mantimentos. Na prateleira baixa, óleo de soja vendido a litro. Óleo de azeite vendido feito ouro. Clio, uma mulher esquisita, branca feito a neve e com um chumaço de cabelos da cor do sol, arrancava um fio de cabelo todo dia e guardava numa caixa. Cada fio valia um fio do óleo de ouro. Quando acabou a cabeleira, entregou a caixa a Adriano em troca de uma lata inteira de fios de ouro, o azeite extra virgem Zippori, importando de Israel e o mais caro do mundo. Foi presa pelo recruta da patrulinha que passava no armazém diariamente pra comprar tabaco.

O secos e molhados do seu Altamiro viva às moscas. Além de tanta sorte de produtos, o armazém do Adriano era feito de gentilezas. Ele dava bom dia, boa tarde, apertava as mãos e olhava nos olhos dos clientes. Inventou a caderneta dando a ele o direito de ser bajulado por todo mundo que precisava colocar mais que feijão com arroz na mesa. Enriqueceu quando começou a vender sorvete e coca cola.

Íris frequentava o armazém com incomum frequência. O namorado que ia jogar dama e cheirar rapé na praça, achava digno a Íris se ocupar de pesquisar receitas novas, coisa que Adriano sabia muito bem.

Uma segunda-feira, à noitinha, no horário que a luz se espreguiça mas já não encontra forças, Íris estava no armazém procurando polvilho doce. Era pro pão de queijo da quermesse da igreja. No sacos de linhagem, só polvilho azedo. Adriano acomodou a moça na parte de trás da venda, onde tinha uma escrivaninha e fazia contas e investigações botânicas e entomológicas. Adriano era homem que, além do sorriso de deixar doutor Salim na miséria, carregava uma extravagante curiosidade por plantas e insetos.

O relógio fechou as sete horas completas da noite. Adriano fechou as portas com Íris lá dentro. Pediu paciência que ainda não tinha encontrado o polvilho, aquele doce.

Íris não se incomodou com o relógio. O namorado, de certo, tentava revanche em algum jogo de dama. Não ia dar falta dela. Íris foi se distrair com os livros. Parou na história da mariposa japonesa.

Adiano deu-se por vencido: não havia polvido do doce. Mas veja, em compensação, que curiosa a mariposa japonesa.

Atlas Gigante é o nome dela. Quando aberta tem as asas do tamanho de um prato de jantar. No seu cocoon ela resiste às piores tempestades. Quando seca a chuva, a mariposa sai do casulo e deixa cair uma gota do seu cheiro para atrair um reprodutor que viaja até três milhas atrás dela. Quando se reproduzem, ela morre dez dias depois. Uma mariposa que nasce apesar do furor dos vendavais, com a única missão de ter alguém para se perpetuar. Uma vida curta, mas grande.

Íris chorou ao ouvir a história. Parecia conto de gente, de tão bonito!

Naquela noitinha, enquanto o Silvério terminava sua milésima partida de dama, feito a mariposa Atlas, Íris decidiu que o mundo poderia acabar, mas que fosse antes feliz com Adriano.

Toda noite, antes de fechar o armazém, Íris ia comprar mantimentos e ouvi mais uma vez a história da mariposa Atlas japonesa. Às vezes faltava luz e aí, Íris, tímida, contava para Adriano seus segredos, já que não precisava ver os olhos dele. Falava da predileção pela flor de Jacinto que não existia porque nunca tinha visto a não ser nos livros. Adriano mostrou a Íris sua coleção de livros sobre flores de climas subtropicais e assegurou-lhe que ela jamais casaria com Silvério porque não seria possível fazer uma coroa de jacinto azul ali naquela quentura toda.

Seu Altamiro soube pela esposa das visitas de Íris ao armazém depois do expediente. Tratou logo de espalhar a novidade, já que o seu rancor por Adriano fazia-lhe um buraco no fígado.

Na pracinha, no meio de uma partida de dama, Silvério soube da história. Foi tirar satisfações com a namorada. Como poderia trocá-lo, homem forte, bem apessoado, saudável e jovem, por um senhor que ninguém sabia quem era e que hipnotizava Íris com bobagens escritas em livros?

A fúria de Silvério foi feito um tufão testemunhado pela mariposa Atlas. Soprou bafo quente de ódio, derramou sangue, cuspiu fogo. Com a luz ferida dos olhos fez congelar toda a febre que tinha Íris por Adriano. A vizinhança correu pra casa, se escondeu dos raios que partiam os telhados. Crianças choravam de medo. Mulheres uivavam pra lua. A Terra, num estrondo de ódio do namorado humilhado, revirou-se de cabeça pra baixo. A secura do lugar se escassou. Caiu neve, congelaram todas as paixões pedidas debaixo dos coretos da praça. Íris não resistiu.

Na manhã seguinte, com os ânimos controlados, ao invés de Íris, Adriano, o namorado traído e a cidade acordaram com a mais bela e inútil florada de jacinto azul esparramada pela vista afora. Tudo voltou a ser como era antes, com exceção da Íris.

★★★

A loucura dos outros

Nara Vidal
Categoria: contos
Editora Reformatório
Lançamentos:
Dia 4 de agosto, quinta-feira, no Cemintério de Automóveis em São Paulo
No Rio, na Blooks (dia e horário a confirmar)
Dia 13 de agosto, sábado, no Estação 30, em Guarani, Minas Gerais
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