Santiago Santos: Bokartianos

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Bokart foi o som que mais pronunciaram ao me encontrar. Significa, descobri depois, parecido. Não à toa disseram tanto isso. Embora falemos línguas diferentes, comamos outra comida e vistamos outras roupas, somos praticamente iguais.

Os bokartianos evoluíram em um planeta de condições favoráveis devido ao seu tamanho, composição e distância do sol no sistema solar. Possuem espécies correlatas de animais às que possuímos na Terra e reinam sobre elas. Passaram por eras glaciais e outras ocorrências climáticas que moldaram sua superfície habitável. Construíram cidades, evoluíram tecnologias, desenvolveram sensibilidade artística, curaram e criaram doenças, dividiram-se em nações, travaram guerras, singraram os mares, cruzaram os céus e se integraram com o avanço dos sistemas de comunicação. Durante os primeiros estágios de exploração espacial, foram abordados pelos celestiais, que explicaram a ameaça iminente dos drokkars. Acabaram convencidos, como nós.

Os militares são treinados em seu planeta natal, Rupakau-ri, e enviados aos planetas fronteiriços, na proximidade do escudo energético, para erradicar os drokkars que ali chegam dentro de suas bolhas, como eu mesmo cheguei aqui.

Por sorte os bokartianos são uma espécie mais desconfiada que nós. As suspeitas de que havia algo errado no conflito eram latentes na cúpula da sua inteligência militar. Portanto a minha chegada foi ocultada, com direito a apagamento seletivo da memória do grupo que me encontrou, e não alcançou os ouvidos dos militares de alta patente que dialogavam diretamente com os celestiais, para impedi-los de descobrir minha existência do outro lado do escudo com suas habilidades telepáticas. Nos meses que os linguistas bokartianos levaram para me ensinar sua língua e aprender a minha, iniciando as trocas de informações que comporiam enfim um quadro mais apurado da situação, seus cientistas estudaram o drokkar morto e a mensagem criptografada no aparelho, naquela única linha corrida.

Cruzadas as informações, chegamos à seguinte conclusão: os celestiais simulavam um conflito inexistente. O escudo, aparato tecnológico criado para proteger ambas as espécies, era um emaranhado de elementos estranhos aos humanos e bokartianos, impedidos de estudá-lo, assim como muitas das tecnologias celestiais, por serem consideradas avançadas demais. Os celestiais queriam nos proteger, diziam, não adulterar nossa evolução científica e nos presentear com conhecimento que ainda não tínhamos maturidade para possuir. Nossa suspeita era de que o escudo fosse na verdade uma dobra, conectando pontos longínquos e similares do universo, os nossos, e também uma espécie de funil energético. Sabíamos que os celestiais mineravam energia dos planetas mais distantes para alimentá-lo, e que tal mineração os exauria completamente. A técnica utilizada para tanto era desconhecida; bastava que o escudo funcionasse. A constatação dos celestiais era a de que muito antes que os recursos ao nosso redor fossem esgotados, os drokkars desistiriam e iriam embora ou encontraríamos fontes alternativas de energia. Se tornou óbvio que os celestiais sugariam todos os planetas e por fim os nossos.

O mais chocante, contudo, não foi desvendar a manipulação que sofremos, mas reconhecer a real parte dos drokkars nisso tudo. A mensagem do mártir que fez a travessia comigo foi descriptografada. Eles são os remanescentes de outra espécie que sofreu o mesmo destino que estamos fadados a sofrer quando os recursos de nossos quadrantes se esgotarem. São prisioneiros, cuja única função é aguardar o momento de serem enviados dentro das bolhas para manter viva a ilusão do conflito. Programados com avançadas técnicas neurológicas, alcançam nossos planetas com o único intuito de nos atacar. As pedras uterinas que depositam no coração das vilas nada mais são que explosivos, que pensamos ter inutilizado mas continuam ativos. Serão usados para intensificar o clima de guerra caso nosso esforço colaborativo enfraqueça.

O drokkar que morreu na bolha ao meu lado foi um cientista. Ele foi o primeiro a conseguir se esquivar da programação neurológica dos celestiais e arquitetar um plano para embutir uma bolha de transporte dentro de outra, fazendo com que a segunda resistisse à penetração atmosférica e sobrevivesse para permitir uma nova travessia. Terminada a autópsia, descobrimos que o alto nível de radiação do escudo foi demais para o seu corpo, exposto duas vezes seguidas. Pelo jeito, sua esperança era a de fazer a travessia com um humano, que sobreviveria e permitiria chegar às respostas que aqui enumero.

É irônico, dado o que eu sabia quando desci da nave em Carcará-2 para exterminar os drokkars, que um deles viria a se sacrificar para me dar a chance de salvar toda a minha espécie.

santiago santos

Drop originalmente publicado no Flash Fiction
Arte da vitrine por GORA

Esta é a quarta parte da série Drokkar, uma aventura espacial em 7 capítulos. Confira todos da série já publicados no Flash Fiction:
1 – Os Celestiais e os Drokkars
2 – Recruta
3 – Travessia
4 – Bokartianos

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