Demetrios Galvão: o carteiro

o carteiro

 
 
hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta
e disse que a espera faz parte da gestação.
 
hoje o carteiro trouxe uma matéria não repetível
e afirmou que sua feitura não passa por oficinas.
 
hoje o carteiro rezou uma caminhada longa
e foi buscar postais de um mundo imaterial.
 
hoje o carteiro fotografou ruídos feudais
e os entregou em recantos sem número.
 
hoje o carteiro endereçou urgências para corações sem identidade
e explicou que a entrega é pensada no silêncio oco do escuro.
 
hoje o carteiro plantou esperanças em um novo endereço
e levou tudo em um grande baú cintilante.
 
hoje o carteiro inventou louças para um maestro
e disse que eram novos instrumentos que lhe chegavam.
 
hoje o carteiro embalou horas maduras
e uma família inteira fez farra com o presente.
 
hoje o carteiro arrematou aromas antigos em um leilão
e apontou para as despedidas se abalando nas portas.
 
hoje o carteiro acordou de mau humor
e entregou infernos retirados de uma bolsa incendiada.
 
hoje o carteiro quis ser carta e ao invés de entregar coisas
preferiu se lançar às acrobacias da noite.
 
hoje o carteiro amanheceu de ressaca
e conversou com as esquinas e descobriu os abscessos maquiados.
 
hoje o carteiro sentou-se com o poeta para tomar café
e prometeu que daqui a uns meses lhe trará o inesperado.
 
 demetrios galvao

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