Marcelo Flecha: Entre tantas escrituras, uma homenagem ao leitor

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Hoje presto uma homenagem a você, minha cara leitora, meu caro leitor. Dos meus dez anos de Pequena Companhia de Teatro, seis foram ocupados escrevendo neste blog [pequenacompanhiadeteatro.blogspot.com.br], em um permanente adestramento do pensamento para tentar estabelecer um diálogo reflexivo, escrevendo sobre teatro e todo o seu entorno, o mundo, pois, para mim, o mundo gira em torno dele.

Portanto, hoje abandono minha permanente lamúria quanto à sua indiferença, minha constante chantagem por uma leitura, minha persistente insistência na sua presença, para dar lugar ao fato que escondo, por mero mecanismo de defesa, pois, sou apenas um fabulador que faz da sua escritura uma tentativa de aproximar um pensamento quanto aos caminhos que podemos seguir para sentirmos úteis fazendo algo de inútil nesta vida de exigente rendimento.

Comecei escrevendo para ninguém; outrora, para quase ninguém; logo, para alguns; mais tarde, para poucos; depois, para vários; e hoje escrevo para algumas centenas e, dependendo da postagem, milhares. Sim, essa informação que escondo permanentemente de você, para que não me abandone, hoje é uma realidade que quero externar e lhe dedicar.

É difícil prestar esta homenagem sem revelar minha surpresa ao ver a quantidade de gente que, no decorrer dos anos, se aproximou para estender seu olhar e amenizar as angústias que este parco escritor carrega na lida com um mundo repleto de injustiças, desigualdades, mazelas e intempéries. Perceber que mais e mais pessoas estão atentas às agruras de uma sociedade precária de autocrítica me fez acreditar cada vez mais na potência do diálogo e na necessidade de questionar tudo e todos, para que das questões surjam mais conceitos e menos iluminuras.

Em certa medida, íntima e cálida, você é parte do meu pensamento, parte do meu ser, parte do meu existir, parte da minha teimosa fortuna de jamais desistir. Você está aí e eu não sei se lhe conheço, mas você me conhece na mais profunda intimidade e me ampara com a generosidade de um irmão, de uma amiga, de um compadre, de uma companheira, extraindo de mim um compromisso inadiável, um diálogo inimaginável, um franqueamento incurável.

Por isso, minha homenagem. Jamais desista de mim, minha cara leitora, meu caro leitor. Jamais abandone a esperança de tornar o diálogo a arma para combater as mazelas do mundo, as faltas sociais, os descompassos da vida. Você é a minha esperança de que ainda existe espaço para a reflexão, para o pensamento, para o questionamento, para o velado desconforto atual de debater ideias.

A homenagem não apresenta uma justificativa palpável. Não é uma data específica, nem é o dia que iniciei este exercício; não há marca no calendário, não estou morrendo (espero), nem vou parar de escrever. Não há nada que pontue esta homenagem, a não ser o reconhecimento do quão importante você se tornou no decorrer dos anos, e no quanto eu, por mero exercício de sobrevivência criativa e literária, insisti em ocultar, imaginando que talvez um dia, sem aviso prévio ou motivo justificável, você fosse desaparecer. Obrigado. Por mais infiel, irresponsável, traidor, displicente e preguiçoso, você jamais me abandonou.

Marcelo Flecha

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