As músicas que cantaram a história do Brasil de Cazuza e Renato Russo

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A Civilização Brasileira, do Grupo Editorial Record, lançou o livro Brasil – Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, escrito pelo jornalista Mario Luis Grangeia. A proposta é interessante em abordar um período da história nacional recente sobre dois dos compositores que mais despertaram a juventude de uma e de outras gerações. As canções de Barão Vermelho e Legião Urbana ainda ecoam pelas praças e cenários culturais do país ou como o autor abriu o livro com a música Que país é este: “Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a Constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação”. E, sem dúvidas, Renato e Cazuza acreditaram.

Não à toa, 1978 é o mote para a construção do livro. A música Que país é este foi escrita nesse mesmo ano e, como sua letra, foi um turbilhão de significados importantes na política e na cultura. O Brasil beirando o fim da Ditadura Militar e jovens questionando a conduta opressora desse regime.

Grangeia tem uma árdua missão de esmiuçar cada estrofe das letras desses dois gênios da música atual. Missão porque de diversas gerações fizeram esse papel de elaboração das interpretações das enigmáticas canções dos dois artistas. Mas no livro, o jornalista deixa tudo mais fluido, o que é cativante para a leitura.

Quando não achou mais uma boa razão para manter o silêncio sobre os dramas coletivos, Cazuza não precisou ir longe para encontrar uma inspiração. Bastou olhar as desigualdades à sua volta com inquietação ímpar que tinha ao tratar dos mais íntimos. Sua voz soava mais como lamento do que canto.

São 7 horas da manhã
Vejo Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles tem

 

Com Renato, Grangeia desenvolve a indignação do compositor em relação às desigualdades sociais. O abandona das políticas públicas de sua juventude em relação aos descasos de um país na entrada da Nova República. O pessimismo que permeou uma geração de jovens dos anos de 1980 encontra o tom. Renato, ainda no Aborto Elétrico, criou a problemática do avesso, ou seja, de denunciar o que era realizado ao relento pela política.

Na amarga Despertar dos mortos, a ordem e progresso eternizados na bandeira não dão as caras. A desordem e o progresso saturam tanto quanto as anacrônicas intrigas entre quem é de esquerda ou direita. A televisão é a fuga dos ricos; a religião, a dos pobres, e “golpe de Estado é revolução” (um desabafo sarcástico sobre a história oficial contada até então).

Desordem e regresso não aguento mais
A guerra acabou mas nós não temos paz
E sempre a gente que sofre mais
Você de esquerda, você de direita
São todos uns babacas e velhos demais
Vivendo intrigas de tempos atrás
Acabem com a merda e nos deixem em paz
Verde e amarelo, verde e amarelo, verde e amarelo,verde e amarelo
Menos guerra e mais pão
Golpe de estado é revolução
Fuga de rico é televisão
Fuga de pobre é religião
Roubaram o verde e o amarelo também
Protejam o azul e o branco, alguém
Como roubar mais de quem nada tem!

O livro é um documento importante sobre o período em que o Brasil sofreu um terremoto moral e político. A etiqueta e conduta patriarcal foram deixadas para trás e o rock se tornou fonte de rebeldia e revolução. As vozes e letras de Cazuza e Renato Russo são marcadas pela liberdade de expressão. Esta é a transição do subtítulo do livro, uma quebra de fronteira, onde Cazuza e Renato Russo estiveram no front.

Mario Luis Grangeia – Especialista em Sociologia, Política e Cultura pela PUC-Rio e mestre e doutorando em Sociologia pela UFRJ, Mario foi repórter da revista Exame e do jornal O Globo e hoje é assessor de comunicação do Ministério Público Federal. O estudo foi desenvolvido durante o curso na PUC-Rio, mas começou a ser reescrito como ensaio em 2013, ano em que uma versão anterior levou o 2º lugar no prêmio Vianna Moog, da União Brasileira de Escritores-RJ. Foi recém-contemplado com a bolsa Criar Lusofonia (do governo de Portugal) para desenvolver a pesquisa do próximo livro, com histórias de famílias luso-brasileiras.

ORELHA

“Ser jovem no Brasil dos anos 1980 não foi algo fácil, ou simples, ou puramente divertido. Sabe lá o que é atravessar uma era em que o país saiu de uma ditadura militar, grávido de esperança, sonhos e utopias, e ver os bebês serem abortados, um a um, ao longo de planos econômicos furados, escabrosos casos de corrupção e vírus tão devoradores quanto indecifráveis? Naqueles tempos em que a inocência ruía a cada esquina, novos sons, novas batidas, novas pulsações se fizeram necessários. E o rock, com suas farpas e arestas (e um coração transbordando de tudo), acabou sendo o veículo ideal para os trovadores que tinham a missão de reinventar o Brasil para o novo milênio.

Ao mesmo tempo profundamente semelhantes e diferentes, Cazuza e Renato Russo compuseram o songbook da perplexidade de uma garotada diante do país (e do mundo) que lhe foi entregue. Dobrando sua pena a estilos estrangeiros (àquela altura cosmopolitas e urbanos), eles acharam formas simples e poéticas para falar de política (“Que país é este”, “Brasil”), de amor (“Codinome beija-flor”, “Quase sem querer”) e de tudo que se encontra no meio. Existencialistas, apaixonados, debochados, desesperados e inconsequentes, eles cresceram junto com o público para quem cantavam, dando versos e acordes às suas dúvidas, solidões, iras e dores de cotovelo.

Em Brasil: Cazuza, Renato Russo e a transição democrática, Mario Luis Grangeia conduz o leitor numa viagem cheia de solavancos pelo Brasil em desconstrução, que Cazuza e Renato mapearam com tanto brilhantismo e audácia. Suas letras – e entrevistas, modalidade de comunicação na qual os dois também fizeram arte – ajudam a compor um relato sobre como, após o país ter se despido dos véus da censura e do isolamento em relação ao mundo, sua juventude encontrou os caminhos numa realidade muito mais voraz e cheia de possibilidades. É a história, com H maiúsculo, contada por quem não teve tanto tempo na Terra (ou teve seu próprio tempo), e a quem restou apenas a imortalidade.”

Silvio Essinger

★★★

BRASIL: CAZUZA, RENATO RUSSO E A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA

Mario Grangeia

Páginas: 176

Preço: R$ 32,90

Editora: Civilização Brasileira / Grupo Editorial Record 

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