Três poemas de Sofia Ferrés

sentamos
num bar. mesa posta de
fim-de-tarde, você ajeita
uma sequência de gestos
para provocar copos cheios
de vontade, mas você
já nada pode contra mim
, ou por nós. você dá goles
de certezas, remaneja o rosto
pra desviar das estacas de luz
que entram no olho, enche a cara
com brilhos de um dia morrendo
(enquanto fala do passado
como se ele não estivesse
sentado na mesa ao lado)
.
sem palavras me prolongo nesse efeito
novo, você em desconforto, sem me ver
na contra luz. você já nada pode.
.
enxugo as gotas caídas
da garrafa vazia, te enxergo
por inteiro
então me ergo, peço a conta
faço sombra nesse lugar sutil

★★★

um poema me surge no táxi
na sala de espera se perde
sem dono volta no meio
do eletroencefalograma
(sem rastros inscritos
nas linhas do exame)
um poema orbita magnético
e eu cleptomaníaca:
coisa alguma que é dos outros
assumo como minha

★★★

o importante é ser alguma coisa
– pensavam
eles que ignoravam qual coisa
e que importância era essa
de frases vazias lascaram pedras
como pra fazer fogo e depois
a escrita e dela todos os
idiomas e gírias.
colaram cimento na terra
procurando dissimuladamente
pistas no céu e nos outros
da coisa que era importante Ser
na dúvida e pra garantir
deformaram os rios
envidraram os olhos
apagaram os chacras 2, 3 e 4
mataram seus ancestrais de desgosto
e aqueles por vir no trânsito
o importante agora é esperar algo
inesperadamente bom acontecer

★★★

sofia ferres

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