Aline Bei: ‘é a menina que sente’

Edward Hopper “Night Windows”

Edward Hopper “Night Windows”

 

– vai com ela, sérgio.

ele foi
apesar de não poder com montanha russa
ainda que fosse dentro do shopping com descida curta
até para uma criança de
7,
Polvo Blue
era o nome da montanha.
o corpo do meu pai
mal cabia no carrinho

– vai Sérgio.

minha mãe insistindo
o corpo do meu pai
tinha pelo e
pinto
mas criança pensa que pai é boneco
assinador de
cheque para as coisas que as crianças querem, livros da turma
da mônica,
brinquedos da turma da mônica,
o cheiro de plástico
novo
na vida de um pai
acabado no chão
do shopping
por conta de uma montanha russa pequenininha que a filha encasquetou de ir.
meu pai Foi
(comigo)
e passou mal já na primeira curva, ficou amarelo depois
deitado
no banco de trás do carro, minha mãe dirigindo pela primeira vez em são Paulo direto pra farmácia, a cabeça do pai no meu colo.
passei a mão na testa dele. não teria conseguido seguir minha vida sem aquela montanha russa, só deus sabe como seriam meus dias
se a montanha do shopping e eu
não tivéssemos nos encontrado, provavelmente hoje
eu teria menos
coragem de dizer o que penso pro meu chefe, o sobe e desce com velocidade ensina muito.

-brigada, pai.

eu disse na época.
em 94
quando o Ayrton Senna já tinha morrido
eu não queria mais comer de jeito nenhum.
barriga vazia com criança crescendo
dá doença,
minha mãe ocupadíssima
com a roupa de passar na lavanderia e eu de luto
com a colher: meu pai me deu na boca.
comi até ficar estufada só porque ele me disse:

– dentro de você tem uma Cidade.
a comida que desce pela garganta vai virando prédio, rua,
escola,
crianças na escola,

eu comi apressada de montar a cidade
querendo que o mundo ficasse completo dentro de mim.

– o Ayrton Senna é uma cenoura?
– é, ele é
uma cenoura.

corria pro quarto
colocava espelho na boca pra tentar ver Ayrton na cidade da barriga.
não via, era
apertada demais e vermelha a minha garganta. tentei isso por anos
até chegar o dia
em que fui dar Depoimento
sobre a maconha que eu não fumei
mas parecia
pela foto que saiu na revista.
meu pai foi comigo sem ficar
bravo, inclusive rindo um pouco, de lado,
disfarçando. só percebi o riso depois, pela memória que eu guardei do meu pai na delegacia comigo e o riso lá, minúsculo,
foi lembrando que eu percebi. na hora não
que eu estava com medo da Polícia e no peito a blusa
dos beatles.
quando fiz minha primeira peça
olhei pra plateia procurando
e tudo ali era
fumaça
fiquei triste fazendo a minha personagem alegre
dona de um bordel que amava a vida
de rua.

– sem energia você estava hoje, hein. -me disse o diretor quando meu pai apareceu no camarim.

– achei que você não vinha! – eu disse lhe dando
um abraço de órfã.

– você acha que eu ia faltar?
então por que
esse vazio no rosto quando a gente fica de frente na mesa do café?

você não gosta da minha adulta

mal disfarça
é impossível disfarçar essas coisas que são verdades absolutas na cidade da barriga que você mesmo que criou pra mim. o Ayrton Senna ainda mora lá,
você amarelo da montanha mora lá,
a mãe ocupada
mora lá com a turma
da mônica. você não gosta da minha adulta
porque ela sente o quanto o seu adulto é triste.

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei

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