Aline Bei: Festa em homenagem termina em tiroteio

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o que Aconteceu com o seu pescoço? – ela disse alto,
todo mundo olhou
pro pescoço dele,

procurando.

de braços e pernas
cruzadas,
ele se manteve em silêncio
pensando que o silêncio
faria A pergunta desaparecer,
era tática
esse Calar esperando virar pó, as coisas.
se não virassem
virava ele que morto não precisa falar mais nada nem entre os mortos, já viu?
cemitério barulhento
quando não tem coveiro ou família visitando.

hein, pai?
o que aconteceu com o seu pescoço?

a mesa
e as pessoas
na mesa
ficaram Suspensas, o olhar delas cada vez mais com jeito de boca
devorando o pescoço
e o que havia de errado com ele.

por que? – o pai perguntou finalmente,
quase já sabendo
sobre o que se tratava,
ele tinha momentos Firmes o suficiente no espelho pra perceber o que estava aconteceu com o seu eu do lado de fora
em resposta ao caos do lado dentro e também as condições climáticas.

tá todo
Enrugado, – a filha disse
puxando a pele do próprio pescoço ainda bem jovem, como se concertasse nela
o que no outro incomodava tanto.
a mesa
seguia Analisando
sem qualquer
piedade
parte por parte
do pescoço do pai que pagava desde sempre todas as contas.
é claro que a família já tinham reparado
naquela pele
esquisita, mas não com um alarde desses.
eram pequenas observações
tão mínimas que não passavam pelo racional
eram mais como intuições visuais,
flashes, ninguém tocava no assunto do pescoço triste
que ter ruga
é triste
(um pouco menos do que não ter).
acontece que a filha
era muito
sem medo
de machucar as pessoas porque oficialmente
ela nunca tinha machucado 1 pessoa.
(a ana não contou daquele dia da foto, o luís nunca mais disse nada depois do xingo, ou seja,
as pessoas não contavam pra ela
que estavam machucadas, é difícil
contar).
então a filha puxou o assunto
na mesa de restaurante
com a luz do dia tão crua quanto a sua indagação deslocada.
a mãe, em pânico,
perguntou:

e o meu? tá assim também?

(a idade dos pais
era a mesma)

o seu não.
-ah que bom, graças a deus.

(a mãe voltou a comer)

hein pai? – insistiu a filha,
obstinada pela resposta
louca pra ouvir
a resposta
-o que o houve com o seu pescoço?

o pai
que constantemente ignorava (com sutileza, ele era bom
nesse jogo)
aquela família que era a dele mas nem parecia de tão estrangeiro que ele se sentia ali,
melhor trabalhar o dia inteiro
do que
enfrentar isso
essas
mulheres,
então ele respondeu
ou aquela pergunta ficaria ecoando pela mesa a tarde toda ganhando Tamanho,
cavando um buraco cada vez maior
na dor que é escutar uma pergunta difícil e ter que responder,
ainda que todos saibam da resposta no fundo de si
ninguém quer
olhar pro fundo de si.
é claro que o pai
podia mentir dizendo é o frio. ou
é a luz
desse lugar muito claro.
ou
é alergia a peixe. ou
não é nada, chega
de bobagens,
talvez fosse isso
que a filha gostaria de ouvir, a mulher também, a mesa também, o restaurante inteiro gostaria de ouvir uma resposta suave e por que não? engraçada,
mas ele decidiu
ser tão cruel quanto tudo e disse:

-eu tô ficando Velho, filha.
o que você esperava?

ah não. – a menina disse quase chorando, 1 medo da morte terrível.

-ah Não,
pai.
e a boca do pai fez uma curva parecida com riso.
se as igrejas
e os padres os professores e os
canais de televisão fossem sinceros assim
o planeta terra teria que mudar de nome para algo como Eu não aguento
mais.
alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei

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