Alejandro Reyes: “A relação entre literatura e militância é dada pela conjunção entre ética e estética”

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O escritor Alejandro Reyes e o professor Wilson Alves-Bezerra na UFSCar, durante o Fórum de Debates

No dia 16 de agosto o jornalista, escritor, tradutor e ativista mexicano Alejandro Reyes veio para a cidade de São Carlos-SP participar do Fórum de Debates, edição “O que está acontecendo no Brasil”. Esse evento é organizado pela Coordenadoria de Cultura da UFSCar para discutir o atual momento político do país. Nessa edição do Fórum de Debates, o ativista de mídias livres, jornalista no Coletivo Radio Zapatista e parceiro do Movimento Zapatista e do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) tratou da experiência mexicana com os movimentos sociais para refletir um pouco sobre a atual conjuntura brasileira.

Alejandro Reyes nasceu na cidade do México. É escritor, tradutor, jornalista e ativista. Depois de morar vários anos nos Estados Unidos e na França, mudou-se, em 1995, para o Brasil, onde trabalhou com crianças “de rua” e adolescentes da periferia. É mestre em Estudos Latino-Americanos e doutor em Literatura Latino-Americana pela Universidade da Califórnia em Berkeley. Colabora em várias mídias alternativas, reportando sobre movimentos sociais no México e Estados Unidos. Participou no movimento literário baiano e publicou Vidas de rua, Contos mexicanos e, neste ano, Vozes dos porões, ensaio sobre o movimento de literatura periférica/marginal no Brasil. A rainha do Cine Roma, seu primeiro romance, foi finalista do prêmio Leya 2008 e ganhador do prêmio Lipp 2012 pela versão em espanhol, e foi publicado no Brasil, Portugal, México e na França.

Em entrevista, Alejandro Reyes nos contou um pouco mais sobre seus trabalhos com literatura, além de tratar da situação política no Brasil, do Movimento Zapatista e do EZLN no México. Confira abaixo:

O escritor Alejandro Reyes

O escritor Alejandro Reyes

Você possui vários trabalhos com literatura no Brasil e no México, tratando principalmente das crianças e das periferias. Como é essa junção entre literatura e militância?

Eu acredito numa literatura comprometida com o nosso mundo, sobretudo nestes momentos de crise global e de extrema violência nas nossas sociedades. A literatura para mim, portanto, é uma forma de militância.

Mas há uma diferença. O sentido da literatura não é dar respostas, propor caminhos, levantar bandeiras. O sentido da literatura é questionar, indagar no que há de mais profundo da condição humana. E visibilizar aquilo que está oculto ou que dificilmente percebemos em nosso entorno.

No meu romance A Rainha do Cine Roma,[1] por exemplo, trabalho com as crianças que vivem ou trabalham nas ruas de Salvador, a violência, o abuso, a pedofilia, a prostituição infantil, as mais diversas questões de gênero. De certa forma é um romance de denúncia, mas a intenção vai além. A intenção é mergulhar na vida, nas mentes e nos corações dessas crianças invisibilizadas numa sociedade que, apesar de ter um profundo respeito pela infância, comete formas violência extrema contra esses seres que não são considerados crianças. Por isso a decisão de escrevê-lo numa linguagem de rua, na voz de um narrador morador de rua que constantemente interpela diretamente o leitor, além de outros recursos estéticos para tentar me aproximar dessa realidade.

Num romance mais recente, ainda inédito, trabalho a questão da migração nos Estados Unidos, o racismo, a brutalidade da violência no trajeto pelo México, a luta pela memória e a dignidade, a separação forçosa das famílias. Da mesma forma, o intuito é mergulhar nas realidades múltiplas da experiência da migração, denunciando, sim, mas sobretudo aproximando essas realidades e provocando questionamentos sobre o nosso papel nessa catástrofe humana, ao mesmo tempo que indago em questões universais como o amor, a solidão, a memória e a morte. A temática da migração é trabalhada, de forma distinta, no livro de crônicas Sueños en tránsito, resultado de várias experiências com migrantes tanto no México quanto nos Estados Unidos.

Enfim, eu acho que a relação entre literatura e militância é dada pela conjunção entre ética e estética, e não por propostas programáticas.

Atualmente o Brasil vive um momento bem delicado em relação à política, essa questão também é bem latente no México. Como você enxerga esse momento e o que o Movimento Zapatista tem para nos ensinar? 

Esse foi o tema de várias palestras e encontros nesta minha última viagem ao Brasil. Minha impressão no Brasil desta vez foi de muita tristeza, perplexidade, raiva e impotência. Ao mesmo tempo, surpreende a pouca mobilização social perante o desmantelamento dramático dos direitos. Uma análise muito superficial me leva a pensar em duas possíveis razões. Por um lado, os anos do PT no governo provocaram uma significativa desmobilização dos movimentos sociais, uma dependência dos recursos estatais e uma crença na possibilidade de transformar o sistema a partir das próprias estruturas do poder. Por outro lado, fica também evidente que os governos de Lula e Dilma não implementaram mudanças estruturais e não representaram uma alternativa real ao neoliberalismo; ao contrário, o aprofundaram. E esse fato e o descontentamento de muita gente cria divisões na própria esquerda que dificulta muito a unidade nestes momentos crucias.

No México nós temos a “vantagem” de não ter tido nenhum governo minimamente crível em muitas décadas. O movimento zapatista é um dos movimentos mais radicais na sua reivindicação da autonomia e na sua recusa de procurar o poder ou de acreditar que o sistema pode ser transformado de dentro. Sobretudo a partir de 2001, quando os três partidos políticos traíram os Acordos de San Andrés – que o próprio governo assinou em 1996, e que nunca implementou – os zapatistas vêm construindo a autonomia em seus territórios em todos os seus aspectos: criando um sistema próprio de governo (horizontal, coletivo, rotativo), um sistema de justiça baseada nos usos e costumes indígenas, um sistema próprio de educação, de saúde, de transporte, de comunicação, de produção. Isso tudo, sem receber um centavo do estado e enfrentando ataques paramilitares e inumeráveis investidas de programas contrainsurgentes.

Na última década, a partir da publicação da Sexta Declaração da Selva Lacandona, os zapatistas têm lançado um número de iniciativas para compartilhar a sua experiência com a autonomia e “contagiar” a rebeldia. Na Sexta Declaração, os zapatistas propõem que, para enfrentar a brutalidade do capitalismo globalizado, é necessário duas coisas: criar e fortalecer autonomias locais, cada uma ao seu modo e conforme as próprias identidades, e vincular essas autonomias locais, para, assim, construirmos um sujeito político global (múltiplo, diverso, descentralizado).

A partir dessa proposta, surgiu a Outra Campanha, movimento social impulsado pela viajem do então Subcomandante Marcos pelo país, onde as mais diversas organizações e indivíduos se encontraram no intuito de começar a tornar realidade a proposta da Sexta Declaração. Depois, de finais de 2006 ao 2008, uma série de encontros entre “os povos zapatistas e os povos do mundo” em território rebelde, com a presença de milhares de pessoas de todo o mundo. Em 2012, a “Escolinha da liberdade segundo os zapatistas”, iniciativa que abriu as portas à intimidade do território zapatista a um total de aproximadamente 6000 pessoas, que convivemos nas comunidades durante uma semana e aprendemos na prática o sentido da resistência, da rebeldia e da autonomia. Na virada do 2014 para o 2015, um “Festival Mundial das Resistências e Rebeldias”, em várias partes do país, e, uns meses depois, o “Seminário de Pensamento Crítico perante a Hidra Capitalista”,[2] que reuniu teóricos e pensadores de muitas partes do mundo. Agora, em julho de 2016, um grande festival de arte chamado CompARTE pela Humanidade,[3] e, em dezembro deste ano, o festival de ciências ConCIENCIAS pela Humanidade.

Em todas estas iniciativas, a provocação dos zapatistas é para pensarmos o mundo de baixo pra cima, para construirmos alternativas de vida na base, na prática, todos os dias, sem esperar nada das estruturas do poder nem imaginar que é preciso tomar esse poder. Em vez de tentar consertar a máquina, destruí-la e construir outra coisa. E essa proposta e a própria experiência de construção zapatista talvez possa servir de referência para outras formas de pensar a atual situação brasileira.

Nessa década as mídias livres ganharam grande fôlego no Brasil. Sabendo que você tem um grande ativismo em nessas mídias no México, como se deu o seu envolvimento nas mídias livres e qual é, na sua opinião, a importância dessas mídias para os movimentos sociais e para a sociedade como um todo?

Em 2005, quando o EZLN publicou a Sexta Declaração, eu estava morando na Califórnia. Quando iniciou a Outra Campanha, um pequeno grupo de migrantes e chicanos começamos a cobrir a Outra Campanha em Pacifica Radio, uma rádio comunitária de San Francisco. Meses depois, eu e um companheiro percorremos o país inteiro de moto, fazendo a cobertura da Outra Campanha, da fraude eleitoral, da revolta de Oaxaca. A partir dessa experiência, criamos o coletivo Radio Zapatista, que hoje funciona a partir da internet (www.radiozapatista.org) e que, além de produzir áudios para compartilhar com rádios comunitárias do país e do mundo, produz textos e fotorreportagens, se focando, também, no registro histórico dos principais eventos zapatistas.

O papel da mídia livre para o zapatismo é fundamental, sobretudo depois da Sexta Declaração. Se um dos eixos principais da proposta é a vinculação das resistências, uma ferramenta essencial é a mídia livre. Por isso, a partir de 2006, se fortalece no México um grande movimento de mídia livre. Esse movimento cresce ainda mais em 2014, quando o professor zapatista Galeano é assassinado num ataque paramilitar no “caracol” de La Realidad, na Selva Lacandona. O EZLN decide então, num ato inesquecível na madrugada do 25 de maio desse ano, que o Subcomandante Insurgente Marcos deixaria de existir, e que da sua “morte” renasceria o agora Subcomandante Insurgente Galeano.[4] Nesse ato, a mídia comercial foi excluída. Um mês depois, a Comandância zapatista convidou os coletivos de mídia livre a uma conferência de imprensa em La Realidad, onde o Subcomandante Galeano explicou por que a mídia comercial não interessa mais ao zapatismo e anunciou que, a partir desse momento, a única interlocução do EZLN seria com a mídia livre.[5] Pela lógica do capitalismo atual, explicou o Subcomandante, a mídia comercial não sobrevive com as vendas diretas, mas com a venda de publicidade; e quem mais paga pela publicidade é o Estado. Isso quer dizer que não só a informação se torna uma mercadoria, mas também o silêncio. Apesar dos esforços heroicos e o excelente trabalho de alguns jornalistas nas mídias comerciais, eu concordo com a avaliação do EZLN. As prioridades editoriais da grande mídia são pautadas pela necessidade da sobrevivência e a procura do lucro, e raras vezes pela transformação da sociedade. Um exemplo disso: o recente festival de artes CompARTE pela Humanidade, que reuniu uns 1.300 artistas de todas partes do mundo e centenas de artistas zapatistas, não recebeu qualquer cobertura por parte da mídia comercial.

Já as mídias livres têm outros desafios. A falta de recursos é uma. Tentamos não depender de ninguém, procurando a autonomia não apenas dos fundos estatais, mas também de financiamentos privados e de ONGs. Isso significa um nível de comprometimento que às vezes é difícil manter. Precisamos nos “profissionalizar”, no sentido de aquisição de equipamentos e conhecimentos. E precisamos do tempo e das habilidades para desenvolver um jornalismo de investigação e análise, e não apenas um jornalismo reativo e militante. Precisamos aprender a falar a um público amplo e, mesmo tempo, procurar canais para chegar às pessoas comuns, fora do nosso círculo ativista. Enfim, uma série de desafios muito grandes, mas que estão acontecendo aos poucos. “Vamos lento porque vamos longe”, diriam os zapatistas.

★★★

FÓRUM DE DEBATES

Coordenadoria de Cultura (CCult) da Pró-Reitoria de Extensão (ProEx) da UFSCar realiza o Fórum de Debates “O que está acontecendo no Brasil?”. Em parceria com o Departamento de Letras (DL), a iniciativa busca fomentar a reflexão sobre o atual momento do País, sempre com pessoas convidadas diferentes e com espaço reservado para contribuições do público.

Para o Coordenador da CCult, Wilson Alves-Bezerra, o Fórum de Debates, projeto que existe na UFSCar desde 1993, conseguiu catalisar o desejo da comunidade de São Carlos de debater a conjuntura política atual. “Tivemos até o momento quatro sessões com excelente presença e participação do público. Contamos com a participação de especialistas em Política, Economia e Sociologia, que situaram o panorama atual em um marco mais ampliado. Foram aulas de Sociologia e de Cidadania, acima de tudo.”, afirma Alves-Bezerra. As gravações dos encontros estão disponíveis no canal da CCult no Youtube.

A série de debates “O que está acontecendo no Brasil?” continuará com outros eventos ao longo do semestre, sempre abertos ao público e sem necessidade de inscrição prévia. As informações ficam disponíveis na página da CCult no Facebook. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (16) 3351-8112. Os convidados para os debates são Maria Rita Kehl, Vera Cêpeda, Wolfgang Leo Maar, entre outros.

ALEJANDRO REYES – O ativista, escritor e jornalista livre mexicano Alejandro Reyes discute a gênese e os desdobramentos do movimento zapatista em Chiapas, no México, sua relação com o Estado e a Mídia e ensaia aproximações com a atual realidade política brasileira. Mediação: Wilson Alves-Bezerra

NOTAS

[1]  http://arainhadocineroma.blogspot.com

[2]  http://radiozapatista.org/?page_id=13233

[3]  http://radiozapatista.org/?page_id=16981

[4] Leia ou escute Entre la luz y la sombra, as “últimas palavras” do Subcomandante Marcos antes de deixar de existir: http://radiozapatista.org/?p=9766

[5] Leia ou escute aquí: http://radiozapatista.org/?p=10441

★★★

Entrevista realizada por Edmar Neves

Nasceu em Mogi Guaçu e tem 24 anos, estuda Licenciatura em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Tem interesse em Educação Popular e no que se convencionou a ser chamado de literatura marginal, talvez um dia termine um projeto de um livro de contos, se a preguiça permitir. Gosta de cerveja e de conversas sobre a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

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