Leia um trecho do livro ‘Eu contra o sol’, de Alex Tomé

Capa do livro "Eu contra o sol". A capa foi feita a partir de uma obra do artista espanhol Jorge Varela.

Capa do livro “Eu contra o sol”. A capa foi feita a partir de uma obra do artista espanhol Jorge Varela.

Junho de 2013. Um ponto de inflexão se instala e se espalha pelo país por meio de sucessivas manifestações que, descobriremos, transformarão a história brasileira.

Eu contra o sol (Confraria do Vento, 2016) é uma tentativa de apreender esse momento pelas lentes de Benício, estudante de direito que lidará com típicas descobertas de um jovem adulto, como primeiro emprego, traição, preocupações sociais, engajamento político, morte e desejo, cujas resoluções nem sempre serão simples. Como lidar com desafios tão concretos se, no entanto, o mundo à sua volta, como ele conhece, parece ruir e se modificar em uma velocidade que ele não acompanha?

Durante doze dias no mês de junho acompanharemos suas andanças por uma cidade em colapso, que se recria em labirintos emocionais internos, e nos faz crer, sobretudo, que não há paz sem catarse.

O lançamento do livro será realizado no dia 22 de setembro, quinta-feira, no Espaço Kadri (Rua Amélio Alves de Lima, nº 265 – Portal do Ipê), às 20h00, em Guaíra-SP.

O escritor Alex Tomé

O escritor Alex Tomé

Leia um trecho de ‘Eu contra o sol’ 

Ele continuava em disparada, seu corpo em movimento era um contraste à escuridão imóvel. Pensou em telefonar à polícia ou aos bombeiros. Seria prudente que o fizesse, refreara-o a adversidade circum-navegante das chamas.

Havia algo de relativizante no ar. A lâmpada com sensor de movimento acoplada ao muro dégradé acendia e apagava à medida da sua indecisão. Tornara-se a própria pressa que supunha ter.

A distância entre ele e o carro crescia como uma bolha urgente de explosão.

Benício seguia a fumaça elétrica, chegou por detrás do carro, pareceu reconhecer o adesivo dourado do para-brisa, deu a volta completa. O vidro do motorista estava fechado. Seus olhos levitavam, e ele sentiu seu corpo tomado por uma espécie de fragor maternal. Havia um descompasso entre a imagem acelerada dos fatos e seus movimentos. Ouviu o barulhinho de estática que vinha do motor, no entanto não sabia como abrir o capô. Talvez estivesse menos ali do que no quarto, preocupado com Júlia, temeroso de que ela desaparecesse. Pessoas que ele amava tendiam a desaparecer de repente. Tinha coleção de desaparecidos.

A chama sépia explodia novas tonalidades de verde no canteiro de hortênsias, faíscas branqueadas pairavam na claridade fervilhante. No alto do poste, fios de aço chorosos, e então ele virou o corpo para o quarto, teve a sensação de que alguém o observava da janela. Lutou contra o vidro, ouviu a porta destravar e puxou-a contra si. Nova tentativa e a porta pateteou ao seu encontro e o fez cair de cócoras no asfalto. Uma pena que não houvesse ninguém para rir, pensou. Levantou-se e viu aquele rosto enigmático, reconheceu-se neles. Levou a mão à boca, depois gritou no suspiro do corpo. “Rico! Rico! Irmão.”

O homem adormecia no air bag e, de súbito, fanfarronice pura, deu um sorriso de canto de boca. Cabelos negros e esvoaçados como um ninho de corvos.

Rico falava coisas, falava via-crúcis, o vermelho vivo do rosto se transfigurava. Um homem com cara de exilado. Estava de blazer, molhado de suor. Um animalzinho de olhos esbugalhados com medo da escuridão. “Se você falar alguma coisa vou me sentir ofendido”, Rico disse e deu uma molhadinha na ponta da língua. Benício não pensaria fosse o que fosse do irmão, não era hora nem lugar naquele contexto de cinzas e réstias flutuantes. Mergulhado na fumaça, o irmão tentava tomar fôlego, segurou a gola da própria camisa como se afrouxasse uma gravata imaginária. Naquele instante de horror, Benício envolveu os braços na cintura do irmão. Puxou-o com força, deixando-o de pé. O rádio estava ligado. Reconheceu a música: Let Love in. Nick Cave é aquilo que mais perto deve ser a voz de Deus, quase disse. Ele era um pouco isso, quase-dizendo coisas que pudessem interessar aos outros.

Os irmãos caminharam trôpegos primeiro à esquerda, depois para a direção oposta, precários diante da enormidade dos acontecimentos recentes. Benício tinha que decidir no calor do momento, na lividez do calor. “Ela não poderia ter feito isso, é tudo culpa dela. Ela não me entende, eu tento explicar, ela não me ouve. De que forma fazer ouvir a quem não quer? Qual a linguagem que se usa?”, o irmão sussurrou. Mais uma vez, Benício pensou algo e não disse. Não era a rua que o encurralava, mas sua casa.

No chão uma guimba de cigarro até a metade, uma coisa tão banal e ao mesmo tempo tão significativa.

Estavam perto de casa quando Rico se livrou de seu braço direito e desferiu-lhe um soco na altura do abdômen. Correu até o carro, sentia o tremor da vista. Uma dor superestimada ou subestimada, mas não a dor real.

Rico tinha a pele amolecida como manteiga fora da geladeira.

Por que razão se prendia ao carro?, Benício pensou. Não havia sinal de ninguém nas ruas e o silêncio era um facão, cortante e luminoso. O irmão remexia no banco do passageiro quando Benício o agarrou: chave de cabeça, chave de braço, mata-leão, até as palavras remetiam às circunstâncias físicas do momento.

“Uma única vez na vida me ouça”, agarrou o irmão, as mãos de Rico enfiaram-se por debaixo dos seus braços, direito após esquerdo, segurando-o como alças de mochila. Viu as sombras se projetarem contra o muro alto, de relance. Se ele tinha uma sombra, provável que tivesse alma também, uma alma de artista, pensou.

Rico o observava meio de lado, e assim que possível Benício percebeu a lívida penugem que se formava em torno dos olhos do irmão; de vermelho seu rosto passava para azul-aço. Uma falha sinuosa na calçada de topázio fez com que quase despencassem, um olhou para o outro, riram de nervoso e de surpresa. Ficaram ali, durante um tempo, um se segurando no casco do outro.

Uma das casas vizinhas, a terceira à direita, acendeu uma pálida luz no segundo andar. Rico deu um passo à frente, o irmão reagiu rápido e emendou um passo dois centímetros maior. Rico então recuou antes que a rivalidade alcançasse um espaço íntimo entre os dois. Desta vez, era Benício que ia à frente e o irmão que o seguia, pareciam viver minutos distintos em suas existências simultâneas. Benício foi desacelerando os passos até ficar imóvel. Meio metro atrás dele ia o irmão, como uma faísca, uma presença tênue e fugaz, tentando se tornar alguma coisa.

★★★

SERVIÇO
Lançamento do livro “Eu contra o sol”
Autor: Alex Tomé
Editora: Confraria do Vento
Dia 22 de setembro, quinta-feira
Espaço Kadri (Rua Amélio Alves de Lima, nº 265 – Portal do Ipê)
às 20h00
Guaíra-SP

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