‘Grito’: Novo romance de Godofredo de Oliveira Neto

Com narrativa marcada pelo embate entre as esferas do real e do imaginário, livro conta a história de uma ex-atriz de teatro octogenária e sua relação com um jovem ambicioso

livro_yaghehAinda que o real seja insuficiente ou medíocre, a arte pode alterar os rumos da vida, criando outros espaços, ressignificando a passagem do tempo. De muitas formas, esse pode ser o caso de Eugênia e Fausto, uma atriz octogenária aposentada e um jovem ator iniciante, vizinhos em Copacabana e atores num reino particular onde realidade e fantasia, vida e arte, erudito e popular, literatura e teatro se misturam. São eles os personagens centrais de Grito, o mais recente romance de Godofredo de Oliveira Neto.

No livro, Fausto encena histórias do seu cotidiano de rapaz negro e pobre nas quais o grito de sua irmã gêmea que morreu no parto está sempre presente. Eugênia assiste às suas encenações e transmite a Fausto sua experiência na cena teatral. Os dois comungam a paixão pela arte dramática, numa relação de posse e de dominação. No livro, a narrativa teatral e literária convivem e se complementam. Para Godofredo, “o teatro é onde se dá a transmissão de mensagens múltiplas e simultâneas, arte que se encaixa bem no século XXI, mundo da simultaneidade das informações. A literatura só tem a ganhar com essa extensão.”

.TRECHO:

“Tem um holofote igualzinho a esse aí em cima do armário. As tiradas mais retóricas são ditas debaixo da luz. Fausto caminha de um lado para o outro no pequeno palco. Ele pretende instalar uma iluminação profissional no seu apartamento, apesar da exiguidade da sala. A voz do Fausto é extraordinária, algo fundamental para o teatro. A linguagem dramática exige certas qualidades. Ele fica lindo quando a luz do holofote incide sobre seu rosto. Quase chorei quando ele recitou a resposta de Iago, do Otelo, do Shakespeare, ao personagem Rodrigo: ‘O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo.’ O Hildebrando, meu falecido marido, costumava repetir essa frase, mas dita pelo Fausto a exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. O espaço do apartamento trezentos e dezoito vira poesia.”

ORELHA:

Vinte e um atos. Vinte e uma cenas em que performance e teatralidade ocupam lugar central. A narrativa aqui apresentada oferece o epílogo da octogenária Eugênia e sua relação com o jovem Fausto. Conduzido a partir da perspectiva da ex-atriz teatral, Grito não se limita a seduzir o leitor nesta trama bem urdida. Godofredo de Oliveira Neto experimenta formatos e problematiza a linguagem.

No quarto e sala cabe o mundo – especificamente o teatro e suas reverberações na mente de uma atriz. Peças são encenadas, personagens visitam a cabeça desses sonhadores, unidos pelo esforço de se inscrever na história da arte, que desconhece fronteiras. Os sujeitos, esses sim, se encontram premidos por limitações. É possível uma mulher de mais de oitenta anos desejar um rapaz de dezenove? A literatura e a vida já disseram que sim. O erotismo está à flor da pele e na mente febril dos personagens. E eles fabulam.

Grito transita pelo mundo da criação e da encenação. Valéry, Goethe, Vianninha, Shakespeare, Machado de Assis e outros tantos estão na sala do apartamento, mais reais do que os sujeitos de carne e osso. A tradição passeia por um mundo carioca, em que o cinema pornô Hot Love e seus frequentadores andam em paralelo aos empreguinhos de quinta categoria a que se submete hoje um ator no país para sobreviver. Referências da mitologia grega aqui se encontram rebaixadas, circulando entre buzinaços de Copacabana. A realidade é violenta, como o são certas passagens da trama, marcada pelo embate entre as esferas do real e do imaginado.

Como sujeitos premidos pelos limites, somos obrigados a escolher entre segurar as rédeas dos instintos, ou, como cita Eugênia, à semelhança de certa raça de cavalos, romper com os dentes a veia da própria pata para aliviar a pressão. Como grande literatura, Grito não oferece solução, mas aponta na linguagem essa dúvida.

SOBRE O AUTOR:

Godofredo de Oliveira Neto é catarinense de Blumenau, ganhador do Prêmio Jabuti e autor de dez obras de ficção, entre as quais O bruxo do Contestado, Menino oculto e Amores exilados, também pela Editora Record. Dois dos seus romances, Amores exilados e O menino oculto, foram publicados na França. Este último foi o romance brasileiro contemporâneo mais destacado pela imprensa francesa entre as cem obras expostas no stand do Brasil no Salão do Livro de Paris-2015. O Le Figaro classificou o livro como ” apaixonante” e de grande deleite para o leitor, o Le Monde dedicou palavras entusiastas e aproximou L’ Enfant Caché da obra artística de Almodóvar.  Mora no Rio de Janeiro e é professor titular da UFRJ.

 

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