Madeira que cupim não roi: o governo Temer e a censura ao filme ‘Aquarius’. Por Wilson Alves-Bezerra

cena-do-filme-brasileiro-aquarius-dirigido-por-kleber-mendonca-filho-com-sonia-braga-no-elenco-1462821326064_956x500

Depois de cem dias de imobilismo, tentativas de abafar denúncias, promessas de retrocesso e voltas atrás às mesmas promessas, o governo Michel Temer pode gabar-se de seu primeiro grande feito: a classificação indicativa, em território nacional, de 18 anos, para o filme Aquarius, do diretor recifense Kleber Mendonça Filho, ecoando o termo censura, tão vigente no Brasil de décadas atrás.

À despeito das acusações de casuísmo ao governo, que teria elevado a classificação indicativa por conta do protesto de toda a equipe do filme no tapete vermelho do Festival de Cannes, em maio, levantando cartazes que denunciavam o golpe no Brasil para a mídia mundial, foi sem dúvida um gesto sensível de Temer e seus asseclas: o governo ilegítimo reconheceu seu primeiro grande filme de oposição.

A história de Aquarius é simples e linear: Clara, uma intelectual de mais de sessenta anos, viúva, mora sozinha num apartamento amplo – cheio de memórias afetivas próprias e alheias, sob a forma de discos, livros, uma rede e uma vista privilegiada para a praia de Boa Viagem. Clara, que na juventude, em 1980, enfrentara um câncer de mama e tivera o seio direito mutilado, enfrenta agora atônita o mundo de Michel Temer (esta poderia ser a sinopse): vem-lhe à porta o dono de uma construtora que quer comprar seu apartamento, o último ainda ocupado do prédio, para a construção de um novo empreendimento. A quantia é polpuda, dois milhões de reais; clara tem outros cinco apartamentos; Clara diz não, para espanto dos empreendedores. Clara não busca nenhuma revolução, quer apenas exercer seu direito à propriedade privada. Sua recusa não é, porém, invocada por este direito, também legítimo. Trata-se do direito à memória, aos afetos investidos em cada objeto. E ninguém parece entendê-la. “Todos estão surdos”, cantaria Roberto Carlos – ou Chico Science –  numa música que não está na trilha sonora.

Em relação a esse aspecto, o diretor é de uma sensibilidade brutal: a protagonista, diante da pergunta binária de uma repórter – “Vinil ou mp3?” –  responde com a história do périplo de um exemplar do último disco de John Lennon, arrematado num sebo em Porto Alegre, que trazia dentro, guardado, o recorte de uma reportagem do New York Times de duas semanas antes do assassinato do cantor. A repórter não entende a parábola e a manchete no jornal não trará nada de seu teor. “Todos estão surdos”.

Aquarius é um filme de resistência cultural em sentido amplo, por ferir a jugular cínica do nosso tempo, que naturalizou a truculência nos negócios, que proíbe os corpos que não sejam jovens e simétricos. Enfim, Aquarius é de fato subversivo, por clamar pela singularidade do sujeito, com seus afetos, suas memórias, por devolver a aura  aos objetos – artísticos ou não – e valorizar os gestos de recusa. Assim, a proibição ao filme foi correta, mas parcial: não deveria ser acessível tampouco às mulheres, pois trata com um lirismo do universo feminino – o direito ao saber, ao desejo, à maternidade, ao filicídio simbólico. São delicadas as cenas da vida social e sexual das amigas de mais de sessenta, das vicissitudes de não encontrar um homem que tenha um olhar sensível a uma cicatriz no seio que não seja um prostituto. Dificultar o acesso a tal filme é a missão adequada a um governo misógino e autocrático, em um país de pessoas de bem.

Aquarius deveria ser proibido ainda aos jovens que saem da universidade para o mundo dos negócios, pois desmonta ao espectador o mecanismo que fomenta sua agressividade e historiciza as origens do ódio racial e de classe no Brasil, mostrando seu discurso e sua cartografia. O sorridente Diego, o jovem neto do dono da empreendedora, ecoando outros sorrisos cínicos, como o do atual ministro da Cultura, encarna o racismo bom mocista, ao dizer que respeita gente de pele mais morena, como Clara, que deu duro para chegar onde chegou.

A trilha sonora é outra bela subversão da obra, ao trazer o fino do brega ao lado do rock and roll, embaralhando referências de diversas tribos: ouvimos Queen, Roberto Carlos, Altemar Dutra, Reginaldo Rossi e um exuberante Taiguara cantando – anacrônico e contemporâneo –  “Hoje, trago em meu corpo as marcas do meu tempo. Meu desespero, a vida num momento. A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo.”

O filme de Kleber Mendonça, concluído antes da posse de Michel Temer, deixa o interino e seu governo nus: a película mostra não só a apoteose do cinismo e do ódio nacionais, como também uma via possível para enfrentá-los: o corpo, o gesto, o afeto, a memória, a voz. É possível ser otimista: o Brasil ainda não acabou.

★★★
wilson alves bezerra

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s