Entrevista: Dona Maria Cândida

unnamed-2Maria Cândida do Nascimento Santos, 58, agricultora, nascida aos arredores de Viturino Freire, Maranhão, contou ao LOID um pouco sobre a sua vida. Casada aos doze anos, mãe de vinte filhos, avó de cinquenta netos e bisavó de doze, Dona Maria Cândida expressa alegria e empolgação em sua voz, quando afirma que sente muito orgulho de estar casada com o mesmo homem há exatos quarenta e seis anos e por ter vivenciado, em um ambiente não muito inspirador e em pleno século XX e meados do XXI, situações que muitos de nós nem sequer ousamos imaginar.

LOID – A senhora trabalha e está casada desde quando?

Maria Cândida – Trabalho desde muito cedo. Em casa sempre fizemos o trabalho “a manual”. Onde a gente morava não tinha energia, nem padaria, nem mercado. A gente morava mesmo era dentro do mato, na roça. A gente pilava o arroz, torrava a farinha, caçava o peixe, o tatu, criva o gado. Casei aos doze anos e olha: esta é a maior alegria da minha vida. Ver toda aquela gente me esperando e me vendo no altar, casando, foi uma das maiores alegrias que já vivi. Me senti importante, estava todo mundo ali.

LOID – Como foi a experiência da senhora se casar ainda tão cedo, tão criança? A senhora tem boas ou más lembranças acerca disto?

Maria Cândida – Olha, minha filha, o dia que entrei na igreja, um homem que estava lá e que eu nunca tinha visto na minha vida, me disse que ele iria “dar muito sal para mim”* se meu casamento durasse. Queria encontrar com ele hoje para “esfregar” na cara dele que estou casada há 48 anos com o mesmo homem e que sou ainda completamente apaixonada por ele.

LOID – Pelo fato da senhora viver sempre no meio rural e por nao haver escolas por perto, como fez para estudar?

Maria Cândida – Um caderno ou um lápis para mim é a coisa mais pesada, minha filha. Se você me desse um milhão de reais para que eu escrevesse o meu nome, eu seria obrigada a recusar pois não saberia nem como segurar um lápis ou mesmo uma caneta. Me adimiro de ver gente como você: tão inteligente, falador… mas eu mesmo… não sei ler, nem escrever, mas confio em Jesus e voto e não erro. Ele me dá inteligência para eu votar na pessoa certa.

LOID – A senhora vota, mesmo sem saber ler ou escrever?

Maria Cândida: Opa! Isso eu sei fazer e faço melhor do que muito doutor por aí com diploma. Eu voto e sempre voto na pessoa certa.

LOID – A senhora é mãe de 20 filhos. Todos eles estão vivos até hoje?

Maria Cândida: Eu tive catorze filhos e seis abortos naturais. Desses catorze, sete morreram. mas hoje sou avó de cinquenta netos e doze bisnetos. Eles são a maior alegria da minha vida, amo minha família. Minha vida não foi muito fácil, porque crescer sem a mãe nunca é. Mas agradeço minha madrasta por tudo o que fez por mim.

LOID – Se a senhora estivesse com doze anos nos dias de hoje, a senhora casaria assim, tão cedo?

Maria Cândida: Claro que sim! faria tudo exatamente igual. Como eu já te disse… essa é a maior felicidade da minha vida.

davilla_martins

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