Evandro Affonso Ferreira conversa sobre seu novo romance ‘Não tive nenhum prazer em conhecê-los’

unnamed“Minha vida? Insípida? Desconfio que não há insipidez no vazio”, reflete o protagonista de Não tive nenhum prazer em conhecê-los. Nonagenário, habitante de um “quarto-claustro” e entregue ao que chama “decrepitude inescrupulosa”, o narrador do novo romance de Evandro Affonso Ferreira é alguém que experimenta um mergulho visceral na memória e na agonia das horas vazias. A aproximação da morte, a solidão, a loucura e a melancolia, que têm sido matéria-prima primordial para a prosa do autor, surgem ainda mais contundentes neste novo livro. Temas que, porém, dividem espaço com reflexões inquietantes sobre o fazer literário. O protagonista-narrador, afinal, também é alguém dedicado à escrita. E, como Evandro, cultiva o gosto pelas andanças e o hábito de escrever sentado em confeitarias e em cafés. “Você poderia imaginar um escritor brasileiro-mineiro escrevendo Memórias do subsolo sem o talento magistral de Dostoievski? Foi o que eu fiz”, descreve o autor, em entrevista para o blog da editora.

Mineiro de Araxá, radicado em São Paulo há 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000 – apresentado por José Paulo Paes. Participou de uma coletânea de contos em Portugal (Editora Cotovia), organizada por Alcir Pécora. Vencedor do prêmio Jabuti 2013 na categoria romance com O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, do Prêmio APCA 2012 com Minha mãe se matou sem dizer adeus, e terceiro lugar no Jabuti de 2015 com Os piores dias de minha vida foram todos, Evandro Affonso Ferreira lança agora seu mais novo romance, Não tive nenhum prazer em conhecê-los. A obra chega às livrarias em setembro, pela Record.

ORELHA

Você, leitor, tem agora às mãos uma joia lírica feita com rigor artístico, onde as palavras foram delicadamente facetadas e polidas à luz da beleza, um romance elaborado com a atenção minuciosa de quem lapida ou pratica ourivesaria, um romance sobre o fim da vida, pedra bruta aqui usada para construção desse texto preciso e precioso.

Construído de fragmentos poéticos curtos e muitas vezes apresentados como epigramas ou aforismos, onde a frase lapidar é usada como elemento construtivo básico, este é um romance que faz da prática do estilo sua demonstração de amor à palavra e à eficiência da escrita, e da visão desesperançada e negativa da vida a apresentação de seu narrador.

Dialogando com o romeno E. M. Cioran, que dizia ser preciso destruir no homem a sua propensão à fé, qualquer fé, e a sua faculdade monstruosa de ser obcecado por um deus, Evandro Affonso Ferreira apresenta, neste romance mosaico, um narrador quase desprovido de fé como o proposto pelo romeno – quase, pois para esse narrador ainda há o consolo da música de Billie Holiday e do inventar de frases.

Naufragado na velhice e na desesperança, esse homem de Evandro Affonso Ferreira caminha por uma “cidade apressurada”, tendo como companhia “a melancolia e seus apetrechos sombrios”. Sente perder a memória, mas não esquece os rancores e os arrependimentos, soma a solidão à desesperança e mostra sua velhice como “restolho migalha da vida”. Para ele, os homens se imbecilizaram, e a vida, corroída pela angústia e pela amargura, destruiu amizades e levou “aquela que voltará jamais”, deixando apenas o apego à música de Billie, sua carpideira, e às palavras, últimas amarras.

Evandro Affonso Ferreira mostra um painel sombrio do fim da vida. Constrói um vitral formado por cacos da vida do narrador que, como vidro, filtram o olhar e são trespassados por observações de um personagem poderoso que, mesmo na saída da vida, mantém viva, até quando Billie e as palavras ainda forem reconfortantes, a necessidade humana de compartilhar mesmo que seja o fim.

Celso Queiroz

Leia abaixo uma entrevista com o autor. Parceria Grupo Editorial Record e Livre Opinião – Ideias em Debate:

Evandro Affonso Ferreira

Evandro Affonso Ferreira

A finitude tem sido tema central em seus últimos romances. Qual o maior desafio de narrar o limiar da morte?

Falo demais da morte na minha literatura para me esquecer dela na vida real.

Andar pela cidade, observar pessoas e escrever sentado em cafés e confeitarias. Sua obra literária nasce, em geral, desse processo. “Não tive nenhum prazer em conhecê-los” surgiu a partir de alguma situação específica nas suas andanças?

Desde o livro “Minha mãe se matou sem dizer adeus” que escrevo nas confeitarias, ando pelas ruas da cidade. Jeito matreiro que encontrei para andar atrás das palavras escondidas talvez em bueiros, ruas sem-saídas, atrás de postes e árvores, no olhar das pessoas, essas coisas. Andar para não doidejar — costumam dizer meus narradores.

Você qualifica este novo livro como “romance mosaico”. Por que a escolha pelos fragmentos? Uma vez justapostos, que tipo de desenho fazem surgir?

Você poderia imaginar um escritor brasileiro-mineiro escrevendo “Memórias do subsolo” sem o talento magistral de Dostoievski? Foi o que eu fiz. Romance mosaico cujo desenho final poderia simbolizar a palavra SOLIDÃO em caixa alta.

Seu narrador ensaia várias definições para a velhice. Qual sua predileta?

Velhice? Tropeçar a todo instante nos evocatórios, nos rememorativos — e cair no esquecimento.

Citações a escritores e filósofos são frequentes em seus romances: o senhor costuma dizer que gosta de convocar parceiros. Neste, uma presença marcante é Jorge Luis Borges, que se infiltra em diversas passagens. Podemos dizer que há algo de borgeano em sua obra e em sua vida?

Não consigo escrever um livro sozinho: sempre apelo para parceiros: Borges, Bruno Schulz, Hilda Hilst, Hermann Broch… Sim, psicografo todos eles: acho que sou escritor mediúnico. Sei que gosto de dialogar com eles, meus deuses do Olimpo Literário… São inúmeros… Almeida Faria, Lúcio Cardoso, Alberto Helder, Cornélio Penna, etc etc etc

“Gostaria de ser escritor taciturno”, conta o protagonista. Que tipo de escritor o senhor gostaria de ser? Que tipo de escritor o senhor tem sido?

Vida toda tive vários sonhos, entre os quais jogar futebol com a elegância de Ademir da Guia, compor com a elegância de Paulinho da Viola e escrever com a elegância de Graciliano Ramos — fui pretensioso demais: dei com os burros n’água nesses empreendimentos todos. Jeito foi terminar a vida evandrianamente: andando flanando pelas ruas às vezes inconscientemente rápido para apressar o dia, talvez, ou para tentar iludir vigilância do tédio, da angústia que a todo instante embosca-se para me surpreender amiúde nele, meu quarto-eremitério.

Seus livros têm a fama de serem algo herméticos. E, também, de comporem um conjunto bastante singular, reconhecido pela crítica e pela conquista de vários prêmios. Hoje, com 10 títulos publicados e 70 anos de vida, como é sua relação com o ato de escrever e com as interpretações a respeito de seu trabalho?

Não consigo interpretar os próprios livros… De modo que depois de publicado cada um diz o que bem entender… Depois de velho, adeus às bazófias e cousa e lousa.

Você já tem trabalhado num novo livro ou projeto?   

 Sim: escrevendo um livro no qual falo de cinco menores abandonados. Narrador saiu da rua 30 anos atrás, virou professor, e narra os dez anos nos quais viveu na rua. Acho que está ficando bonito, poético, devastador, mas, como já disse, sou péssimo comentador de mim mesmo.

★★★

NÃO TIVE NENHUM PRAZER EM CONHECÊ-LOS
Evandro Affonso Ferreira
Páginas: 368
Preço: R$ 49,90
Editora Record/Grupo Editorial Record

Capa: Marcelo Girard

Sobre “Gráficos”, composição com fragmentos de folhas de madeira

record

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