Aline Bei: Memória

Ilustração: Anthony Mazza

Ilustração: Anthony Mazza

 

era um galpão e tanto
cercado de prédios espelhados que são Bancos
ou estão envolvidos
com Bancos.
nenhuma árvore na rua, talvez
1
tão pequena que parecia uma flor
quando por acaso eu achei aquele galpão vestido de Bar, o táxi tinha se perdido. eu disse:

-vou descer aqui mesmo, obrigada.

Entrando
descobri que ali também customizavam motos. a parte do bar
só tinha os garçons
e eu
comendo um burguer
cercada por aqueles quadros de banda e filme, com uma playlist de rock tocando solta
de lynyrd skynyrd
a joni mitchell.
eu me sentia ótima.
comecei a frequentar ali levando um livro.
o bar
dava mais prejuízo do que ganho mas o dono era Rico, me disseram, 1 dos garçons que foi ficando meu amigo chamado Ricardo.
o Ricardo
nunca andou de moto
nem viajou
de avião. sentia medo,
medo de
tudo.

é rico de herança, o dono. – o Ricardo me dizia
de bigode mexendo.

só assim
pra manter aquele bar quase sempre vazio, o ponto não era bom.
a vila madalena
talvez fosse um lugar melhor com a sua boemia dos jovens de 30.

– o problema é que vai encher, né, ricardo? e eu gosto assim
vazio.
é egoísta, eu sei. mas eu gosto assim.
-também prefiro. se for pra vila vai ficar ruim pra mim. é muito longe de casa, não compensa.

e o dono arrumando as motos, sempre sujo, de jaqueta. saía acelerando sua Harley sem olhar pra ninguém.
fiz meu aniversario no Bar, na época que eu tinha amigos.
comemoramos numa mesa grande de madeira
que um dia foi árvore. comemos e bebemos em cima da árvore morta sem pensar em morte, uma banda de rock tocava, eles tinham cara de motoqueiros também. perguntei pro meu primo:

-você iria? no meu casamento.

porque a minha família é muito
desunida.

eu iria, claro. – ele disse pleno, – é só me convidar.
a gente se abraçou
tirou foto
lembrando do playcenter e do dia que ele comeu um sabonete incentivado por mim, acabamos parando no hospital. foi uma noite e tanto
a do sabonete
e a de hoje que como todas
Terminou.
voltei dirigindo, meu namorado bêbado. nem olhei direito a fachada do bar com aquele vento da madrugada na minhas costas e uma alegria de estar viva que às vezes bate quando fazemos aniversário. não lembrei de dar uma última olhada pro bar, eu
não sabia, não fazia ideia de que aquela
era a última vez.
passaram-se uns meses
quando recebi a notícia
que o bar tinha
Fechado, um amigo me contou:

– fechou. passei lá outro dia e estava tudo escuro com placa de aluga-se.
-o que? você tem certeza?

peguei um táxi e fui até lá ver se sim Pedindo que não. pra deus? é
pra deus,
fiquei pedindo no táxi pra que o bar estivesse bem.
chegando na rua,
da esquina já dava pra ver a falta de luz. que dor,
era Verdade,
o bar estava
morto com corrente nas vagas. aqueles prédios ao redor é que engoliram tudo, como a rua ficou triste, não passei mais por lá depois disso, não que fosse vingança. é só que
eu tinha perdido o Propósito.

(tempos depois o bar reabriu, na vila madalena. o ricardo não estava, como ele havia dito que não estaria. nem meu primo
que se mudou pra patos
de minas. nem muitos dos meus amigos que estavam naquele meu
aniversário.
o bar ficou diferente na vila, bem menor. o dono dizia que aquela esquina só poderia trazer sucesso.
quando passei por lá eles estavam finalizando o balcão e o cheiro forte
de serragem.

tragam suas Motos, – o dono dizia
alto
na esquina
com a cerveja na mão parecendo um louco.
o bar reabriu
e aquele morno dentro.
que me desculpem as pessoas que estavam ali, mas
as que não estavam
me chamaram muito mais a atenção.
que lugar Vazio,
antes isso não me incomodava. deve ser cisma, pensei,
e visitei de novo o bar
no inverno.
pedi um burguer. o gosto
estava diferente, sobrou no prato quase a metade e isso nunca aconteceu.
fora que no lugar novo não cabiam todos os quadros do outro galpão
e o dono
escolheu ficar com os quadros errados, onde está aquele do
Manhattan
com o Woody Allen e a Mariel Hemingway?
onde foi parar aquele quadro meu deus,
fiquei de olho
nos lixos próximos.
tempos depois,

o bar fechou outra vez.
vou reabrir nos estados unidos. – o dono disse em entrevista, dificultando pro Ricardo
cada vez mais)

 

alinebei

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