Aline Bei: Fraude

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a cena era uma tomada de decisão.
eu e a tati, minha dupla no exercício, decidimos que seria a minha personagem quem tomaria a decisão, uma jovem
com a minha idade
que usaria o meu corpo
na Cena do apartamento onde as duas moravam.
o Teatro
pode levar um sujeito à Loucura,
é muito esquisito falar com propriedade
frases que não foi você quem pensou e ainda por cima dentro de lugares no palco que não estão lá, por exemplo um apartamento. por exemplo a Grécia. por exemplo um consultório psiquiátrico, não importa. basta usar o velho pacto do isso é um jogo.
nos ensaios,
decidimos que eu acharia uma foto da personagem da tati
beijando o namorado da minha personagem.
ensaiávamos quase todas as tardes, tínhamos o prazo de 1 semana.
era uma cena improvisada, cada hora saía de um jeito
mas a gente ia memorizando
algumas falas e os lugares em que deveríamos estar, a tati sempre mais à frente quando eu encontrava a foto
e decidia ir embora daquele apartamento.
durante os ensaios correu tudo bem
numa cena fraca
de duas atrizes iniciantes que pensavam vamos mudar o mundo, eu principalmente.
quando chegou o dia da apresentação,
pra mim era um grande dia.
nosso professor era um diretor respeitado, todos os alunos queriam ter aula com ele, a escola sorteava as turmas, nesse semestre demos sorte.
eu e a tati fomos a quinta dupla a se apresentar.
todas as cenas tinham sido banhadas por vários elogios do diretor em frases como:

vocês
estão no caminho.

quando ele chamou nosso nome, rapidamente ajeitamos a cena com os objetos que usaríamos. ele pediu silêncio pra turma com o caderno de anotações no colo.

prontas?

fizemos que sim com a cabeça. fui pra fora da sala, a cena começava comigo chegando.

Ação.

abri a porta como se fosse a do apartamento,
a tati arrumando umas caixas.

oi. – eu disse, atuando.
oi amiga, como foi seu dia?
-bem, muito trabalho na empresa, estou morta. e você como está? fazendo faxina?
-não, na verdade eu tô só dando uma limpa aqui. podemos jantar depois, se você quiser.
-claro.

sentei no sofá cênico
feito com 2 cadeiras. pra quem estava assistindo eu queria que imaginassem um sofá daqueles de novela. fiz uma curva de madame com o corpo.
foi então que a tati
derrubou a foto
no sem querer tão Ensaiado.
minha personagem se levantou pra pegar
sem nem imaginar
tamanha traição.
eu estava nervosa,
queria mostrar um bom trabalho
não queria ouvir do diretor um simples você está no Caminho, eu queria ser o caminho, eu queria ser
Genial.
quando minha personagem percebeu o beijo
eu comecei a
Gritar com a tati
de um jeito bem diferente do que estávamos fazendo nos ensaios, Improvisei. segui meu coração, como dizem nos filmes, gritar
era baixo pra aquilo que eu estava fazendo, eu
Berrava
a escola inteira ouviu.
Rasguei a foto do beijo
e todas as outras dentro da caixa
inclusive a caixa, um mar de papel.
dei um Tapa na cara da tati
saí de qualquer controle possível.
minhas veias saltavam, meu canto da boca ficou Branco de saliva. o chão da sala tremia
os alunos assistindo pareciam congelados.
terminei a cena batendo a porta
com uma força descomunal
ainda sem tempo de me sentir arrependida, sem perceber direito a merda que eu tinha feito.
com a porta da sala fechada me separando
deles
por alguns segundos eu pensei que tinha conseguido
ser
a mulher que eu gostaria no palco quando
num estalo
finalmente percebi
o quanto eu tinha ultrapassado
um limite grave.
abri a porta
da sala
e vi a marca de mão na bochecha da tati me encarando incrédula.
Terminou? – o diretor me perguntou.
então se fez uma longa Pausa, enorme muito
maior
do que eu podia aguentar.
– isso aí
que você fez
não me Convence.
a palavra convence
entrou em mim
como um punhal.
comecei a chorar
sem conseguir encontrar o olho de ninguém da sala ao mesmo tempo que eu sentia
todos os olhos
me Dissecando.
fui embora aberta,
desmontada,
desmaiando querendo ser outra pessoa pelo amor de deus. sumir, sumir,
sumir de uma vez por todas.

o que houve? parece até que alguém morreu! –minha mãe me disse
quando cheguei em casa.
não respondi
e me tranquei no quarto.
passei a noite toda só pensando no meu surto
várias noites depois.
quase abandonei
o curso de
Teatro
mas naquela época eu acreditava de verdade
que o meu destino
era ser atriz.
Morta
fui pra aula na semana seguinte.
e na semana
seguinte. e na
semana seguinte,

(ninguém teve coragem
de tocar no

assunto)

★★★

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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