Em entrevista, ‘Coletivo Passarinho’ conversa sobre manifestação contra a visita de Michel Temer na Argentina

13439110_1734783613427647_2051868428066951343_n

O Coletivo Passarinho surgiu da inquietude dos brasileiros e brasileiras que moram em Buenos Aires e que acompanhavam a gravidade da situação política do Brasil, o que terminou com o golpe de estado e destituição da presidenta eleita Dilma Rousseff.

O coletivo começou a se organizar antes do ocorrido em 31 de agosto, organizando atos nas ruas da capital argentina e através do grupo do facebook “como pessoas independentes que sentiam a mesma angustia e preocupação, mas logo sentimos a necessidade de nos organizar de maneira mais estruturada. A união, então, vem pelo caráter de urgência desse momento específico onde era – e ainda é – necessário lutar pela defesa da nossa democracia”.

O grupo está organizando uma manifestação contra o atual presidente, Michel Temer, que irá para a Argentina nesta segunda-feira (3), onde se reunirá com Mauricio Macri – presidente argentino. Por enquanto a agenda da visita de Temer na Argentina não está fechada e se desconhece quem fará parte de sua comitiva. Esta será a primeira visita de Temer a Buenos Aires desde que no final de agosto foi confirmado no cargo de presidente após a destituição de Dilma Rousseff. Temer já esteve com Macri na Cúpula do G20, realizada no início deste mês na China.

Confira abaixo uma entrevista com o Coletivo Passarinho, realizada por Daniel Matos.

O Livre Opinião – Ideias em Debate decidiu publicar a entrevista na íntegra, em respeito à liberdade de expressão

Foto: Daniel Matos

Foto: Daniel Matos

 

Companheiros, primeiramente, Fora Temer. Poderiam comentar um pouco quem são e como surgem como Coletivo Passarinho?

O Coletivo Passarinho surgiu da inquietude dos brasileiros e brasileiras que moram em Buenos Aires e que acompanhavam estando fora do país a gravidade da situação política do Brasil, que terminou recentemente num golpe de estado pela destituição da presidenta eleita Dilma Rousseff. Em março dese ano, começamos a organizar atos nas ruas da cidade através de um grupo do facebook, como pessoas independentes que sentiam a mesma angustia e preocupação, mas logo sentimos a necessidade de nos organizar de maneira mais estruturada. A união, então, vem pelo caráter de urgência desse momento específico onde era – e ainda é – necessário lutar pela defesa da nossa democracia.

De fato a pregunta sobre “quem somos” é algo que refletimos constantemente por sermos um grupo que nasce da união afetiva e política e que tem, desde o inicio, um caráter plural. Tentamos ser uma experiência micro para o que acreditamos que seja fundamental neste momento crítico da América latina, que é a união das correntes progressistas e das esquerdas para conter o avanço do ultraconservadurismo e garantir os direitos dos povos conquistados até o momento. Nós nos propomos ser um coletivo autogestionado onde os espaços de decisões e as práticas são horizontais. E além das diferentes relações e afinidades políticas dos integrantes do coletivo, nossa unidade se estabelece porque acreditamos na luta por uma América Latina mais unida e independente; por mais igualdade de direitos e oportunidades; por mais justiça social; por mais democracia.

Como definiriam a visita de Michel Temer a Argentina?

O Presidente golpista do Brasil é uma figura que transita há anos na política nacional. Sempre apoiando os governos de turno, o que o caracteriza como um personagem que conhece como poucos os tramites da política de bastidor que se faz em Brasilia. É interessante avaliar sua atuacao politica porque nos ajuda a entender como ele chegou ao posto que agora ocupa. Temer, junto com José Serra e outros personagens nefastos da direita fisiologista mantém estreitos laços com países e corporacoes que buscam neles intervir nas políticas internas e externas, sobretudo no campo dos negócios como minerio, petróleo, gás, agronegócio e as grandes obras de infra-estrutura. É nesse contexto que Temer serve ao financismo nacional e internacional que pretende impor suas receitas economicas e políticas sobre os interesses dos povos. Seja no ambito nacional como na política exterior. Temer vem a Argentina nao só buscar a legitimidade e reconhecimento do Governo Macri como também vem negociar os rumos geopolíticos da América do Sul, num viés imperialista pró-mercado e pró-potencias ocidentais. Sem esses atores o golpe jamais teria prosperado.

É casualidade que a primeira visita diplomática regional seja a Argentina de Mauricio Macri?

Quando olhamos o inicio do processo de impeachmeant  e as posicoes do Governo Macri sobre a crise política brasileira já é possível saber o que esperar enquanto posicionamento do governo.Ainda que a diplomacia sinalizava respeito pela ordem democrática. Porém Mauricio Macri faz parte da nova safra de políticos latinoamericanos que dividem os países entre bolivarianos e nao bolivarianos. O que acontece também no Brasil. Nao é menor o fato de que a Argentina, através do governo Macri seja o primeiro país a reconhecer oficialmente o governo Temer e tampouco é menor o fato de Macri se reunir com o chanceler José Serra quando este ainda estava interino no cargo. Já que a politica se faz com gestos, Mauricio Macri emitiu vários e muito diretos sobre como a Argentina sob sua gestao pretendia colaborar com um novo governo no país vizinho. Macri e Temer, tem linhas politicas muito parecidas já que pregam um estado menor e menos intervencionista, acreditando que as politicas sociais aplicads nos últimos 15 anos em ambos os paises e que tiraram milhoes da linha de pobreza, sao politicas equivocadas e onerosas. Ambos acreditam nos acordos de livre comércio com as potencias europeias e os Estados Unidos onde o Mercosul e o fortalecimento das relacoes sulamericanas nao trazem beneficios. É nesse contexto que a primeira visita diplomática de Temer no cone sul simboliza uma retomada das politicas neoliberais. É um forte sinal que ambos emitem para os mercados internacionais e também para os trabalhadores.

Como definiriam o Golpe no Brasil?

O golpe no Brasil foi impulsado pelo partido que perdeu as eleições de 2014 conjuntamente com os meios que usam no momento o argumento de que o país passaría por uma das piores crises econômica. No momento em que Dilma e os deputados do seu partido, o PT, não aceitam retirar os votos que condenaríam a Eduardo Cunha na Comissão de ética da Câmara de Deputados, Cunha aceita o processo de juìzo político contra a presidenta. É o momento então em que o vice presidente trai a sua companheira de chapa e assume a responsabilidade do seu partido seguir com seu egocentrismo de chegar ao poder máximo do estado. Sem crime, sem provas, sem testemunhas, a presidente foi afastada do poder no Senado e este é o momento onde o golpe começa a se materializar. Termina o juízo político com a presidente afastada do poder definitivamente mas não condenada a perder os seus direitos políticos, como é o costume. Os senadores dizem abertamente: ella não cometeu crime mas queremos afastá-la. No presidencialismo, isso é golpe! Mas o golpe não termina alí, tem a função também de desletigimar a esquerda e inviabilizá-la para as próximas eleições, e neste momento, Moro e o judiciário vem cumprindo o seu papel, contra Lula e de outros nomes representantes do projeto popular na semana das eleições municipais no Brasil. Resumindo: é um golpe parlamentar-judicial-mediático.

Certamente estão informados do que está acontecendo no Brasil, como vem o contexto pós-golpe?

É um contexto bastante complicado e que vislumbra grandes retrocessos. Desde que assumiu como interino, além de alterar a equipe de governo e formar um ministério sem nenhuma mulher e sem nenhum negrx, Temer passou a executar um plano de governo contrário ao que foi eleito pela chapa Dilma/Temer em 2014, levando adiante um programa que atende aos interesses neoliberais norte-americanos e das grandes corporações internacionais. Na prática, o governo tem trabalhado para aprovar propostas que beneficiem o mercado de capitais, sem se preocupar com o bem-estar da população. Entre alguns dos projetos já anunciados estão a redução de direitos trabalhistas (como aumento da carga horária e extinção de benefícios), de privatizações (desde aeroportos e rodovias até a exploração do pré-sal, a maior reserva de petróleo do país) e de mudanças no sistema básico de ensino – esse projeto já foi aprovado via Medida Provisória e, sem envolver a comunidade e especialistas, impôs a extinção de disciplinas como Educação Física (semanas depois de o país sediar os Jogos Olímpicos), Sociologia e Filosofia. Isso sem falar do enfraquecimento da Lava Jato, operação da Polícia Federal que investiga casos de corrupção em contratos da Petrobrás – enquanto a operação seguia de maneira autônoma no governo Dilma, o governo Temer já se apropria de informações e dita os rumos da operação. Não por acaso, líderes e políticos de partidos como o PSDB e PMDB, cujas práticas ilegais já estão mais do que evidenciadas, não viram réus da operação, enquanto líderes e políticos do PT, mesmo sem provas ou evidências, são indiciados.

O golpe foi muito bem planejado por todos os seus agentes e foi dado em um momento conjuntural bastante complexo para o país: além de o país sediar os Jogos Olímpicos, fato que ofuscou a situação política, o impeachment de Dilma se oficializou a um mês do primeiro turno das eleições municipais deste ano. Ou seja, a militância e os movimentos sociais que repudiam o golpe, ao mesmo tempo em que vão para as ruas defender a democracia e pedir Diretas já, trabalham para eleger seus representantes nos municípios brasileiros. Para que haja eleição direta para presidente, Temer tem que cair ainda neste ano, pois caso caia no ano que vem, de acordo com a legislação, as eleições se dão de maneira indireta, com votação feita pelo Congresso Nacional. Nesse contexto, o que se observa é uma movimentação que nós chamamos de golpe dentro do golpe: a grande mídia brasileira, que até o impeachment de Dilma nunca noticiou nada contra Temer, agora, já denuncia parte de seu plano de governo. Ao que tudo indica, o golpe dentro do golpe visa a enfraquecer o governo Temer aos poucos, para que ele se sustente até 2017, quando, então, o derrubam e, por meio de eleições indiretas, coloquem o candidato derrotado do PSDB em 2014 no comando do país.

Sabemos que a visita de Temer a Argentina será breve e que desde o Coletivo Passarinho estão convocando a uma manifestação repudiando a visita, no que consistirá a convocação?

Temer vai passar por Buenos Aires e Assunção (Paraguai) no mesmo dia, em uma clara mensagem de articulação sobre o Mercosul. Nossa convocatória consiste em duas questões principais: a primeira é repudiar o governo golpista e denunciar a sua ilegitimidade por onde ele passar. Para isso, estamos organizando um escracho que vai acontecer na Quinta Presidencial de Olivos a partir das 10h de segunda (3/10). A segunda questão é um ato político, organizado por mais de 40 organizações e movimentos argentinos além do Coletivo Passarinho, para repudiar o avanço de políticas neoliberais na região e denunciar o desmantelamento do Mercosul que está sendo liderado por Temer e Macri. Esse ato está marcado para o mesmo dia, na Plaza de Mayo, às 17h.

Foto: Daniel Matos

Foto: Daniel Matos

 

Um comentário sobre “Em entrevista, ‘Coletivo Passarinho’ conversa sobre manifestação contra a visita de Michel Temer na Argentina

  1. Pingback: Manifestações repudiam visita de Michel Temer na Argentina | Livre Opinião - Ideias em Debate

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s