Leia um trecho do livro ‘Eu contra o sol’, de Alex Tomé, com lançamento em São Carlos no dia 15

Capa do livro "Eu contra o sol". A capa foi feita a partir de uma obra do artista espanhol Jorge Varela.

Capa do livro “Eu contra o sol”. A capa foi feita a partir de uma obra do artista espanhol Jorge Varela.

Junho de 2013. Um ponto de inflexão se instala e se espalha pelo país por meio de sucessivas manifestações que, descobriremos, transformarão a história brasileira.

Eu contra o sol (Confraria do Vento, 2016) é uma tentativa de apreender esse momento pelas lentes de Benício, estudante de direito que lidará com típicas descobertas de um jovem adulto, como primeiro emprego, traição, preocupações sociais, engajamento político, morte e desejo, cujas resoluções nem sempre serão simples. Como lidar com desafios tão concretos se, no entanto, o mundo à sua volta, como ele conhece, parece ruir e se modificar em uma velocidade que ele não acompanha?

Durante doze dias no mês de junho acompanharemos suas andanças por uma cidade em colapso, que se recria em labirintos emocionais internos, e nos faz crer, sobretudo, que não há paz sem catarse.

ALEX TOMÉ é formado em Comunicação Social: Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos e atualmente cursa Direito. Nasceu em Orlândia e hoje vive em Guaíra, São Paulo. Roteirizou os curta-metragens A Cena Perfeita e Recortes, este último ganhador de um Kikito em Gramado. Eu contra o sol é seu primeiro livro.

LANÇAMENTO – O lançamento do livro será realizado no dia 15 de outubro, sábado, no GIG Bar (R. Nove de Julho, 1817 – Centro), às 20h00. No evento, também haverá performance da poeta Natalia Ribeiro da Conceição com a leitura de seu recente livro Inconfidência Primeira (Editora Patuá) e de Jorge Ialanji Filholini que irá apresentar trechos do seu livro de contos Somos mais limpos pela manhã (Selo Demônio Negro).

O escritor Alex Tomé

O escritor Alex Tomé

Leia um trecho de ‘Eu contra o sol’ 

A mosca inaugurou o dia.
Ele acordou com o rumor atonal do bicho de mil olhos seguido do susto do próprio reflexo. No espelho, um vulto cálido, uma forma desprovida de concretude eação, uma coisa vaga demais para ser considerada abstrata. Aquilo era uma coisa sem aura, no sentido mais filosófico do termo. Aquilo era ele.
Despertou imerso na escuridão cinza. Na parede, o prego à mostra, um espelho dos grandes, que cobria o corpo inteiro ou quase. Viu o que seria visto ao largo de dias e noites: um homem com um rosto banido. Abanava a mão na altura do nariz para afastar o inseto. Percebeu que adormecera no chão, tomara a decisão de modo inconsciente, ele não conseguira dormir na cama onde Júlia ainda existia.
Benício rolava de um lado para o outro, em uma sequência de segundos contada mentalmente, uma cadência severa que ele foi esmerilhando depois de repetir e repetir e repetir. Estendia os braços, uma palma sobre a outra e se deixava cair, guiando-se em uma base de cálculo particular. A estria do movimento ficava desenhada no lençol.
Colada no teto, de cabeça para baixo, a mosca o compreendia até certo ponto. Ela o ajudava a dar sentido ao seu sorriso insone e sociopata.
O chão estava frio, frigidíssimo. Ele falou a palavra: frigidíssimo. Era como se ele houvesse dito um palavrão, mas o nome da coisa existia antes dele. Apoiou primeiro o cotovelo direito, depois o esquerdo no chão de madeira, se esforçou – mas não verdadeiramente – para levantar o tronco e ficou naquela posição de bailarina inclinada com a cabeça para trás. O dia estava preguiçoso e afetava seriamente seu empenho para se colocar de pé.
A mosca era uma presença divina, um misto de tensão e fascínio. Era importante que ela estivesse ali, exilada de sua espécie, parada e olhando para ele, sem pedir nada.
Pensou que ela, talvez, tivesse fome. Porque ele não tinha. Precisava tomar um banho.
Quem chega da rua chega sempre sangrando.
Precisava se limpar do dia anterior, se limpar dos atritos e quinquilharias deixados no corpo. Ele não sobreviveria sem uma boa relaxada na banheira. Era o que lhe faltava para voltar a ser o que sempre fora. Fome mesmo ele não tinha.
A fome comeu minha fome.
A fome comeu minha fome.
A fome comeu minha fome.
A fome comeu minha fome.
Ele ficou repetindo a frase, mas não se levantou para anotar. Ficou um tempo naquela posição austera e claudicante. Depois voltou a se deitar e viu a mosca sair pela janela, brônzea, guiada pelo estalo de luz.
★★★

Título: Eu contra o sol
Autor: Alex Tomé
Editora: Confraria do Vento
Ano: 2016
Páginas: 480
Preço: 50 reais

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