Santiago Santos: Em Busca de Abrigo

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Segura a cabeça que lhe entregaram. Alisa o cabelo como quem espreme os dedos diante do pai antes de confessar a irmã com o joelho quebrado no fundo do poço, era brincadeira, ela me empurrou, eu empurrei ela e. Tabefe.

Ergue a cabeça pros homens ao seu redor. Eles espremem os olhos, abrem a boca e se curvam, colando as testas no chão, colando as costelas salteadas uma a uma no chão, envergados sobre os joelhos nus, ralados.

O primeiro deles balbucia algo, ela sobe no degrau de pedra no centro da cabana. Do caldeirão de barro sobe um cheiro azedo que não é de comida. Ela olha, esperando notar a borbulha no caldo pastoso. Vazio.

Olha pra abertura da cabana, as lâminas de pano encostadas uma na outra. Conta os homens curvados no caminho até ela. Engole saliva.

Deixa a cabeça escorregar dos dedos e cair no caldeirão. Ela rodopia no globo ressequido, gritando, corruptelas que parecem primeiro sair da boca de um rato, engrossando até ganharem definição, até se tornarem palavras reconhecíveis.

Tira a cabeça de dentro com as duas mãos, amassa os cabelos, enrola o bigode, espreme os lábios; a cabeça abre a boca e mostra a língua. Os homens se erguem e se engalfinham.

O vencedor pisoteia os corpos até ela e, com a única mão que lhe resta, mostra a faca. Ela agora abraça a cabeça como quem abraça o próprio recém-nascido. É um corte limpo da lâmina, a cabeça do vencedor rola, a mão ensanguentada arranca do seu colo a cabeça do caldeirão e a enfia no seu lugar.

Ele dá a ordem. Ela entra no caldeirão.

Lá de cima ouve a voz retumbante que sai daquela boca, em contraste com sua própria voz afinando. Sente encolher cada vez mais, rodopiando nas paredes terrosas, até o corpo se tornar um graveto retorcido sob o pescoço. O homem a tira dali com os dedos em pinça, alisando seu cabelo.

Durante todo o tempo em que limpam a cabana, em que o caldeirão é esfregado, em que o homem que a segura estala a língua, testando os novos dentes em mordidas vazias, ela mantém os olhos fixos na cortina da saída, pensando que a coragem que sobrava quando ela entrou correndo, fugindo das palmadas do pai, faltou em todos os momentos em que as palmadas do pai eram o que mais queria.

Os homens entram, tomam seus lugares, e então seu novo corpo entra. Parece assustado. Só busca a filha.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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