Livre Opinião conversa com os fundadores da 11 Editora

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Léa De Ungaro Almeida Prado

A 11 Editora foi criada em 2014 na cidade de Jaú, interior de São Paulo, pelo casal José Almeida Prado (Zé Renato) e Léa De Ungaro Almeida Prado, tendo como objetivo publicar novos autores, estreantes ou não, e os clássicos. Segundo os editores, “a proposta é publicar autores que, por um motivo ou outro, ainda não encontraram espaço nas grandes editoras, mas que também não queiram pagar pela edição da própria obra”.

Além de editora, Léa é historiadora e artista plástica, já trabalhou na assessoria de imprensa parlamentar e jornalismo sindical. Colaborou durante quatro anos na revista A Granja, coautora e coordenadora de edição – ao lado de Zé Renato – dos livros Terra Roxa – vida e ciência na Estação Experimental de Jaú (2012) e De Bica de Pedra a Itapuí – 100 anos de história (2013). Zé Renato é jornalista e trabalhou como repórter por 28 anos. Autor dos livros Prosa fiada e outros goles (2008) e Tampa de baú (2011).

Foram cinco títulos pela 11 Editora, sendo quatro de contos: Ao contrário, um caminho, de Afonso Caramano; Avesso sentido, de Maria Teresa Fornaciari; O conto modal, de Potyguara Alencar; e Outras vozes, do Plínio Camillo. Um romance: Depois da Rua Tutoia, de Eduardo Reina. Pelo selo 11 Letras – criado com a finalidade de atender as necessidades editoriais de instituições educacionais, empresas e autores independentes que optam por custear suas próprias obras – foram lançados quatro títulos: Gotas d’água no jardim (Poesia), de Maria Tereza Fiorelli; À procura do oráculo, de Ana Clara Saggioro (Romance no gênero fantasia); Abra a boca e mostre os dentes, de Marcel Devides (autoajuda) e Trilhos, de José Nabuco de Araújo Filho (Poesia).

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José Almeida Prado

De acordo com Léa: “Nosso projeto, como o de boa parte das independentes, é produzir em pequenas tiragens.  Dar oportunidade ao autor estreante, especialmente aos interioranos, que comumente não encontram espaço nas grandes editoras”. Já Zé Renato comentou: “Às vezes nos perguntam por que batizamos nossa empresa com o nome de 11 Editora. Porque somos eu e a Léa, dois inteiros, um e um, onze.  Estamos na trilha há pouco tempo, mas com muitos projetos na cabeça. Aos poucos, com os pés no chão – e conforme a saúde financeira permite – vamos tornando-os realidade. Em tudo, pretendemos estreitar contato com produtores culturais, autores e universidades de nossa região, para que possamos debater formas sobre como fortalecer o mercado editorial também no interior”.

Em entrevista ao Livre Opinião – Ideias em Debate, Léa e Zé Renato conversaram sobre as publicações de livros no interior de São Paulo, editoras indeprendentes, mercado editorial e o trabalho com a  11 Editora.

O Conto Modal é uma tentativa da “escrita zerada”: texto feito para que a estrutura do conto proteste para ser prevalecente sobre o próprio belo visual da história. São textos de caça ao olhar, prosas que pedem para ser apreciadas como propostas de liberdade de escrita.

O Conto Modal é uma tentativa da “escrita zerada”: texto feito para que a estrutura do conto proteste para ser prevalecente sobre o próprio belo visual da história. São textos de caça ao olhar, prosas que pedem para ser apreciadas como propostas de liberdade de escrita.

Como surgiu a ideia de fundar a 11 Editora?

Léa: Tinha o sonho de “fazer livros” desde bem pequena e os produzia na máquina de costura da minha mãe.  Meu primeiro emprego, ainda muito jovem, foi em uma empresa de encadernação. Aprendi a separar os cadernos, costurar, colar, encadernar. Depois a vida profissional tomou outros rumos. Anos mais tarde, já casada com o Zé Renato, conversávamos a respeito. Discutíamos sobre a falta de oportunidades para os estreantes na literatura e tudo mais, mas o custo de se ter uma editora na época era impensável para nós.  O Zé Renato, por sua vez, sempre escreveu, mas ainda trabalhava como jornalista e era relutante. Até 2013, nossa experiência no meio literário era apenas como autores. O Zé havia lançado dois livros como autor independente. No segundo, uma edição do autor, fui eu quem fiz a capa e o projeto gráfico, tudo ainda muito amador. Entre 2012 e 2014, escrevemos em coautoria outros dois livros sob encomenda.  Começamos nos aprofundar sobre os aspectos de uma editora, como funcionava, leituras sobre o tema e a possibilidade se tornou mais concreta quando vimos surgir editoras pequeninas e independentes, graças à impressão digital. Em 2014 constituímos a 11 Editora e lançamos os primeiros títulos em 2015.

Como vocês planejaram o catálogo e o convite dos autores para a editora?

Léa: Nosso projeto, como o de boa parte das independentes, é produzir em pequenas tiragens.  Dar oportunidade ao autor estreante, especialmente aos interioranos, que comumente não encontram espaço nas grandes editoras. No planejamento do catálogo, passamos a procurar autores que tivessem uma narrativa original, arrojada, capaz de provocar reflexão, que apresentasse temas que abordassem questões relevantes do nosso tempo. Fizemos uma convocatória e também convidamos algumas pessoas a submeterem seus originais à nossa avaliação. Os primeiros títulos foram de contos. Todos eles abordando temas reflexivos como a solidão e as escolhas, o olhar feminino sobre a vida e o cotidiano ou que davam voz a personagens do sertão e regiões marítimas do Ceará e ao negro do período escravocrata. Tivemos a felicidade de reunir trabalhos que preenchiam nossa expectativa.

Em seu romance de estreia, o jornalista Eduardo Reina conta a triste e violenta história do sequestro de um bebê por agentes da repressão na ditadura em São Paulo – e como essa mulher viveu depois desse conturbado período. Ficção baseada em histórias reais de pessoas que viveram, lutaram contra, sofreram ou apoiaram a repressão nas décadas de 1960/70.

Em seu romance de estreia, o jornalista Eduardo Reina conta a triste e violenta história do sequestro de um bebê por agentes da repressão na ditadura em São Paulo – e como essa mulher viveu depois desse conturbado período. Ficção baseada em histórias reais de pessoas que viveram, lutaram contra, sofreram ou apoiaram a repressão nas décadas de 1960/70.

Sabendo que o mercado editorial é, muitas vezes, concorrido. Como foi entrar neste ramo? E as vendas, como são elaboradas?

Léa: Realmente o mercado é muito concorrido, mas acreditávamos que também poderíamos ter nosso lugar ao sol. Há muita coisa boa a ser garimpada. Quando nos deparamos com um bom original, é uma satisfação enorme. No começo, é claro que deu certa apreensão, mas resolvemos meter as caras.  Como trabalhamos com tiragens limitadas, planejamos vender nossos títulos nos lançamentos, feiras literárias e em nossa loja virtual. Quando publicamos o primeiro romance, Depois da Rua Tutoia, do Eduardo Reina, sobre o sequestro de bebês por agentes da ditadura militar, fomos procurados por livrarias e resolvemos abrir também para esse mercado. Na verdade, para nós, independentes, não é uma alternativa que traga retorno financeiro. Ao contrário. As livrarias ficam com 50% do valor de capa e ainda pagam 90 dias depois. Acabamos levando em conta a maior visibilidade que nossos títulos teriam e topamos nos abrir a essa possibilidade de vendas.

Publicar livros no interior de São Paulo é um desafio?

Zé Renato: É um desafio muito grande, quase uma ousadia (risos). Ter uma editora independente já é uma empreitada de risco. Em nosso caso, só o fato de não estarmos em um grande centro urbano traz algumas limitações. Feiras, cursos de atualização, encontros literários comumente se concentram entre São Paulo e Rio. Para participar de alguma feira de livros em São Paulo, por exemplo, temos de ter investir para nos deslocar, para nos hospedar e esses gastos nem sempre são compensatórios. Acabamos ficando um pouco isolados, sem o contato que gostaríamos de ter com outros editores, autores, curadores e jornalistas das editorias de cultura. Para nos fazermos conhecer e aos nossos títulos é sempre mais difícil, justamente por não estarmos no circuito. À medida do possível, temos procurado compensar parte dessas limitações por meio das redes sociais e distribuição de releases. É um trabalho de formiguinha, mas nossos títulos têm conseguido boas resenhas na mídia.

Neste livro construído a partir de uma sequência de contos cuja narrativa muitas vezes flerta com a sonoridade do poema, Plinio Camillo nos transporta para variados cenários e enredos, desde a vinda nos navios negreiros e o trabalho nas fazendas, passando pelos “negros de estimação”, até os alforriados que trabalhavam nas cidades e os mestiços protegidos pelos pais que não os podiam assumir e moravam nos fundos da Casa Grande com certos privilégios.

Neste livro construído a partir de uma sequência de contos cuja narrativa muitas vezes flerta com a sonoridade do poema, Plinio Camillo nos transporta para variados cenários e enredos, desde a vinda nos navios negreiros e o trabalho nas fazendas, passando pelos “negros de estimação”, até os alforriados que trabalhavam nas cidades e os mestiços protegidos pelos pais que não os podiam assumir e moravam nos fundos da Casa Grande com certos privilégios.

Na apresentação da editora está escrito “A valorização do livro e da leitura é nosso compromisso”.  Conte-nos mais sobre este compromisso.

Léa: Quando fizemos o texto da apresentação tínhamos uma visão mais romântica sobre o mercado literário. Sabíamos que no Brasil se lia pouco, mas não tínhamos a exata dimensão, a não ser por relatórios de pesquisas. Constatamos isso empiricamente, quando o Zé Renato passou a vender nossos livros porta a porta, em consultórios médicos, bancas de advocacia e escritórios de outros profissionais liberais. Por muitas vezes ouviu de diversos desses profissionais, todos com formação superior, que não gostavam de ler. E admitiam isso sem nem sequer ficarem com os rostos vermelhos. Triste isso. Advogados que não gostam de ler? Médicos, dentistas, engenheiros que não costumam abrir um livro? Essa realidade, para a qual ainda não tínhamos atentado, nos fez acreditar que qualquer debate sobre a formação de novos leitores também terá de discutir como atrair esse público. Se as pessoas não valorizam a leitura, a literatura, não valorizam o livro, não compram, não se importam com o que ele representa. E também não se preocuparão em incentivar seus filhos a ler. A leitura é uma grande viagem e nosso anseio é torna-la possível a um maior número de pessoas. É preciso massificar a cultura e esse é um tema que vêm sendo debatido amplamente pelo mercado. Como formar novos leitores se os professores do ensino fundamental e médio hoje pouco ou nada leem? Valorizamos o livro como um objeto que propicia conhecimento, informações e entretenimento. Nosso compromisso é pensar em formas de reduzir os custos para a produção do livro, de maneira a oferta-lo a preços mais convidativos; é fazer parcerias em atividades culturais e auxiliar na divulgação de autores, de oficinas literárias. Recentemente a Prefeitura de Jaú promoveu o 5º Hilda, festival literário que homenageou Hilda Hilst. O secretário de Cultura local, André Galvão, nos convidou a participar da elaboração e divulgação do festival e foi o que fizemos. Sugerimos nomes de alguns autores e produtores culturais, participamos de debate com autores de São Carlos. Quer dizer, é preciso estar aberto a parcerias e ações que contribuam para valorizar a leitura e o livro.

Léa e Renato, como o próprio nome do site (Livre Opinião – Ideias em Debate) pode sugerir, deixamos este final da entrevista como um espaço livre para o artista desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Vocês têm algo a dizer?

Zé Renato: Vamos aproveitar esse espaço oferecido pelo Jorge Filholini para, como se diz no interior, prosear um pouco mais. Às vezes nos perguntam por que batizamos nossa empresa com o nome de 11 Editora. Porque somos eu e a Léa, dois inteiros, um e um, onze.  Estamos na trilha há pouco tempo, mas com muitos projetos na cabeça. Aos poucos, com os pés no chão – e conforme a saúde financeira permite – vamos tornando-os realidade. Em tudo, pretendemos estreitar contato com produtores culturais, autores e universidades de nossa região, para que possamos debater formas sobre como fortalecer o mercado editorial também no interior. Naturalmente, esperamos ampliar o interesse das pessoas pelas obras que publicamos, mostrar nosso trabalho aos leitores de São Carlos, Bauru, Piracicaba, Ribeirão Preto e por aí afora. Desejamos, ainda, contar com maior apoio dentro de nossa própria cidade, Jaú, torcendo para que ao menos tenham curiosidade em conhecer o que estamos produzindo. Além de investir em autores estreantes, também pretendemos apostar nos livros-reportagem e na reedição de obras que entraram em domínio público. Criamos, também, um selo editorial, o 11 Letras, exclusivamente para autores que optam por autofinanciarem suas obras. São, portanto, dois segmentos distintos, tanto que a editora e o selo têm cada qual o seu site. No mais, agradecemos a oportunidade de nos apresentar. Valeu!

Com linguagem agradável e maturidade estilística, a autora transita livremente por temas que vão da verossimilhança ao fantástico, como em Acaso, em que os rostos dos habitantes de uma cidade se transmudam. Todas as faces se quadriculam e assumem um traçado xadrez, que muda de hora em hora, dependendo dos estados de ânimo das pessoas.

Com linguagem agradável e maturidade estilística, a autora transita livremente por temas que vão da verossimilhança ao fantástico, como em Acaso, em que os rostos dos habitantes de uma cidade se transmudam. Todas as faces se quadriculam e assumem um traçado xadrez, que muda de hora em hora, dependendo dos estados de ânimo das pessoas.

★★★

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