Marcelo Flecha: Sonhando com a realidade sem sonho

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Sonhei que o ser humano sofria uma grave mutação na garganta. Sutil e gradualmente, perdia a capacidade de gritar e desenvolvia a capacidade de engolir. Como o grito caíra em desuso antes do fenômeno que o sonho anunciava, pouco se percebia a gravidade da mutação, e a sociedade caminhava aliviada, em silêncio e engolindo tudo.

Bizarro. Engolia-se tudo, sem gritar. A garganta se tornara um bueiro, uma fossa, alargada pela quantidade de matéria e miséria que por ela passava, e a deglutição aumentava, impossibilitando a saída do grito que tentava trafegar em sentido contrário, sem sucesso. Tudo era engolir, tragar, ingerir. A falta de grito gerava uma falsa ideia de tranquilidade, de controle do caos, de encaixotamento sistêmico, de domação da anarquia, de ressignificação da utopia.

Engolia-se professor de teatro, filosofia, educação física e sociologia em uma mesma tragada. Mesmo que esses quisessem gritar não adiantava, porque o sistema já os tinha engolido, e agora faziam parte do grande bolo alimentar que levava o nome de reforma. A privatização era engolida com o tempero da concessão, e por essa garganta passavam parques, autódromos, petroleiras. Engolia-se PEC, CLT, USA, em uma grande sopa de letrinhas.

A garganta tornava-se tão profunda que chegava a ser obscena. No sonho, engolia-se homofobia, racismo, tortura, pedofilia, machismo. Onde antes sopravam gritos anticorrupção agora engolia-se pactuação. Também, por essa mesma garganta, passavam os goles de whisky, enquanto as varandas gourmet cozinhavam direitos sociais, trabalhistas e culturais para degustação; o grito da delação dava lugar ao gole de negociação; o grito de fúria virava fuagrá; engolia-se voto, vitória, maioria; engoliam-se as minorias.

O novo sistema digestivo era tão perfeito que ministérios engoliam ministérios, secretarias engoliam secretarias, turismo engolia cultura, restituição de posse engolia ocupação. Em alguns casos, a secretariofagia acontecia sem se ouvir um grito, porque os cargos, contracheques e contratos engoliam a ética, a decência, a transparência, a moral.

Nem mesmo o teatro, que figurava como instrumento de confronto, sustentava o grito. Era tragado pelo mercado, pelo sucesso, pelo público a qualquer preço, pela necessidade de dialogar com o capital, com o vil metal, com o material. O teatro deixava de ser o contraponto, o contrassenso, o contrabando; o teatro virava a cereja do bolo pronta para se degustar.

A autofagia foi tamanha que a garganta engoliu o próprio grito, e ninguém mais protestou. Ao acordar, sobressaltado, me perguntei: qual é o mundo que quero para os meu não-filhos? Intrigado com a falta de nexo entre a pergunta que me afligia e o sonho antropofágico que me acordava, respirei fundo, dei um grito mudo, e voltei a dormir, em silêncio.

Marcelo Flecha

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