Alessandro Buzo: “A periferia cansou de esperar, agora produz sem pedir permissão a ninguém além do seu próprio público”

Eu sou assim.
Favelado com livro na mão, a contra indicação.
Pensavam que não sabiamos nem ler….
E aqui temos a prova que estava errado quem duvidou.
Mas um livro.

Eu sou do tamanho do meu sonho.

(Alessandro Buzo)

 

Alessandro Buzo

Alessandro Buzo

Por Edmar Neves

O escritor e agitador cultural Alessandro Buzo está lançando sua mais nova coletânea Pelas Periferias do Brasil vol. 6. Nesta coletânea, manos e minas de diversas periferias do país trazem, através de poesias e contos, as alegrias e dores de uma grande parcela da população.

Escritor, um dos pioneiros da Literatura Marginal, cineasta e militante, Alessandro Buzo cresceu no Itaim Paulista, extremo leste de São Paulo, passou por inúmeras dificuldades. O Hip Hop e a literatura fizeram mudar radicalmente de vida. Lançou o primeiro livro em 2000 e desde então foram mais de dez livros publicados, dirigiu o filme Profissão MC, em 2006, e participou durante seis anos na televisão mostrando a cultura da periferia, primeiro no Programa Manos e Minas da TV Cultura e depois no SPTV 1a edição, da Globo. Destaque para os livros O Trem – Baseado em Fatos Reais, Guerreira e Favela Toma Conta. Buzo realiza todas às terças-feiras o Sarau Suburbano.

Conversamos com Alessandro sobre produção literária, as diversas culturas de periferia e política. Confira:

Você está lançando neste ano a coletânea Pelas Periferias do Brasil vol. 6, pelas editoras Aquarela Brasileira Livros e Suburbano Convicto Edições. Fala um pouco sobre a coletânea, que foi bancada coletivamente, e como é lançar livros no Brasil sem o apoio de grandes editoras.

Quando as editoras não tem interesse no que tem de mais vivo na literatura brasileira, a culpa não é nossa e o azar é deles.

Sem editora e sem patrocinadores, um caminho é bancar do bolso, outro é colocar num edital, algo assim e a terceira e última opção, no caso de uma coletânea, como é o Pelas Periferias do Brasil – Vol 6, é cada autor bancar o custo dos seus livros e juntos fazer de forma colaborativa.

Não é fácil, mas nunca foi.

No caso do Pelas Periferias … vol 6, são 33 autores de 6 estados, várias cidades e 4 privados de liberdade, o resultado final agradou a mim e aos autores, agora, os leitores, tanto pelo conteúdo, como pela apresentação, o livro ficou lindo, mérito pro Wagner Merije da Aquarela Brasileira Livros, segunda obra feita em parceria comigo e meu selo, Suburbano Convicto Edições. Vale a pena conferir… vendas no site: http://www.livrariasuburbano.com.br.

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O pessoal da Casa Hip Hop Sanca, da cidade de São Carlos, interior de São Paulo, te homenageou no Slam das Quebradas, evento que eles organizam. Vemos uma proliferação de saraus, slam’s, rinhas de MC’s, teatro, música, entre outras manifestações culturais nas periferias. A periferia agora consegue mostrar o talento que tem? O Estado e a Sociedade como um todo costumam apoiar essas mobilizações?

A homenagem que o pessoal da Casa Hip Hop Sanca fez no Slam das Quebradas, muito me honrou, é uma satisfação pra um autor de São Paulo, ver sua obra e seu nome em destaque noutra cidade (no caso São Carlos).

A periferia cansou de esperar, agora produz sem pedir permissão a ninguém além do seu próprio público, isso nada tem a ver com o estado e a sociedade, esses tão pouco ligando, mas a cada livro surge novos leitores, novos horizontes. Aqui em São Paulo até tem o VAI, que incentiva projetos, o Veia e Ventania leva saraus da periferia pras Bibliotecas e outras coisas surgem, mas é pouco perto da quantidade de produção, livros, discos, clipes, saraus e por ai vai….

As universidades estão pesquisando cada vez mais as culturas de periferia. Os frutos dessas pesquisas chegam até vocês?

Algum resultado final chega sim, mas nem todos, alguns pedem entrevista pra TCC e depois não voltam mais, enfim…

Alguns querem fazer no calor da emoção, sem base nenhuma, quer falar da minha carreira de escritor e nunca leu um livro meu, etc… Às vezes também não rola a entrevista, não por marra, mas precisa saber chegar.

Acho muito importante ter meu trabalho literário pesquisado, muito me honra.

Falando um pouco de política, estamos vendo diversas mobilizações culturais e políticas nas periferias do Brasil, inclusive você e muitos outros representantes do Movimento Hip Hop se candidataram a cargos políticos nessas últimas eleições. Ao mesmo tempo, há uma onda de conservadorismo assustadora no país, sendo que, em São Paulo, o candidato tucano João Doria foi eleito no 1º turno, além de termos vivido, recentemente, um golpe na democracia do Brasil. Como você enxerga essa contradição?

As pessoas estão mais politizadas, mas ainda tem muita gente só preocupada em não perder seu emprego, votando mal, ou nulo.

Como pode o povo abraçar as ideias do João Dollar, eleito no primeiro turno, mais preocupante ver que os votos nulos ganham do Dória, ou seja, poderia ter levado o Haddad, que foi um ótimo prefeito, pro segundo turno. Mas o Haddad pagou por ser PT, o povo massacrado pela mídia pegou raiva do PT, ódio mesmo.

Fui candidato a vereador em São Paulo pelo PC do B, senti o peso de estar num partido de luta, de esquerda. Tive 1.023 votos, bem abaixo do esperado por mim e do nescessário pra se eleger, mas faltou apoio do Hip Hop, dos saraus, enfim. Não nos unimos, enquanto nossa cena ficou dispersa, ou em cima do muro, o Fernando Holiday se elegeu com sobra, os coxinhas parecem estar mais unidos do que nós. Não tenho vontade de tentar de novo, se a cena cultural tivesse vindo junto e não tivesse entrado, talvez tentaria uma segunda vez, mas como foi, não tenho pretenção, o futuro a Deus pertence, mas no momento é não, não quero mais.

Mas sigo minha militância na cultura, na literatura.

★★★

Alessandro Buzo

Alessandro Buzo

Entrevista realizada por Edmar Neves

 

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