Santiago Santos: A Senhora Nora Está Indisposta

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Cuidamos da senhora Nora há tanto tempo que me pego pensando se já fizemos outra coisa antes. Tenho lembranças de uma casa na esquina da Joaquim Murtinho com o Hospital Geral, de um Chevette marrom, de um garoto remelento com cabelo de balde que mamou no meu peito até os seis meses, e ficava sempre gripado, e dormiu na minha cama por muito tempo porque tinha medo do escuro à noite, que eu levava pra escola todas as manhãs, que gostava de brincar no jardim de casa e tinha uma verruga na palma da mão. Mas essas memórias devem ser de um filme, ou de um livro, ou de uma das histórias da senhora Nora, já que ela conta tantas que muitas vezes achamos que compramos molho de tomate em promoção no mercado e guardamos no armário da despensa e quando vamos ver não há nada, era apenas uma das histórias da senhora Nora em que compravam molho de tomate em promoção no mercado e guardavam na despensa.

Nos confundimos demais nessa casa. Deve ser de respirar tanto ar úmido e mofado. Chove muito, as janelas estão sempre fechadas e cheias de gotículas. Às vezes consigo abrir a janela da cozinha quando estou sozinha cozinhando, pois a senhora Nora pede expressamente, energicamente, que não abramos nenhuma das janelas nem as portas. Ela teme que o vento repentino leve embora a pouca força que ela reuniu; ela crê que rezou tanto que há uma espécie de casulo de fé ao seu redor, e que qualquer vento forte ou estranho pode carregá-lo pra longe, desfazendo esse escudo e permitindo que os dentes da doença se enterrem nela.

As outras não sabem que eu abro a janela, ou contariam. Elas contam tudo. Lembro quando uma delas disse que precisava fumar um cigarro e ligou o chuveiro e fumou dentro do banheiro e disse que a fumaça e o cheiro eram do chuveiro queimado. A senhora Nora pediu pras demais a prenderem no quintal com a corrente que era do cachorro, se trancando no quarto enquanto elas saíam e entravam. A senhora Nora ficou olhando a menina um longo tempo lá fora, depois pediu pra fecharem as cortinas e quando voltou a abrir a menina não estava mais lá.

A senhora Nora gosta sobretudo do chá da tarde. Ela dispensa o almoço, dispensa a janta e até o café da manhã. Mas o chá da tarde é essencial. É o único momento em que ela sai da cama, auxiliada por três de nós, e se senta na mesa e pede que a gente sente e conte uma história ou as novidades, que são bem poucas, e no final ela limpa o farelo da saia, aperta a bochecha de quem está na cadeira mais próxima e volta pro quarto.

Há enormes vantagens de se trabalhar pra senhora Nora. O pagamento é ótimo e fica em nossa poupança, pra desfrutarmos quando o trabalho aqui acabar (não sabemos quando, não temos a mínima ideia). Fazemos planos de viagem pra países distantes como Vietnã, República Tcheca e Rússia, imaginamos as pessoas, as aventuras românticas, as comidas exóticas, as conversas desencontradas. Não gastamos nada aqui, recebemos roupa, comida e cama. Fico muito satisfeita de ter conseguido esse emprego. A senhora Nora disse que eu tinha todas as qualificações necessárias quando me recebeu, e não me lembro bem por que ela disse isso; sei apenas que desempenho as funções da casa de forma exemplar. Não tenho receio de dizer que sou sua melhor cuidadora. Sinto que isso não me favorece; as outras sentem inveja, dizem que não, mas sentem, é o tipo de coisa que se percebe. A senhora Nora diz que não devo dar bola e que se não fosse por mim ela não sabe o que faria.

O único problema é lidar com as visitas. São pessoas de todo tipo que aparecem a qualquer hora. Nossas ordens são de abrir a porta (depois que a senhora Nora se trancou no quarto), dizer que a senhora Nora está indisposta e fechar, sem ouvir o que essas pessoas têm a dizer, que não deve ser nada importante. Tenho uma raiva especial de um homem que é mais atrevido que todos os outros. Ele já tentou derrubar a porta mas nos juntamos e conseguimos fechá-la. Às vezes ele fica parado na janela da sala, tentando enxergar através dos buraquinhos de costura da cortina, tentando ver quem está aqui dentro. Ele coloca a mão no vidro e as gotículas correm ao redor dos dedos, e as partes da sua palma encostadas ali me lembram filés de peito de frango congelados, com exceção de uma verruga, e então lembro de uma das histórias da senhora Nora e automaticamente lembro que tenho que fazer o almoço, ou limpar o banheiro, ou trocar o tapete, ou tirar o lixo, ou passar a roupa, ou varrer o corredor, ou descascar as batatas.

santiago santos

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Arte da vitrine por Jean Fhilippe
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