Marcio Renato dos Santos: Ele não mora mais aqui

A convite do Livre Opinião — Ideias em Debate (LOID), o escritor Marcio Renato dos Santos* narra o seu breve, mas marcante convívio com Antonio Carlos Viana, morto na última sexta-feira, 14 de outubro

Marcio Renato dos Santos e Antonio Carlos Viana

Marcio Renato dos Santos e Antonio Carlos Viana

E, então, ele entra na sala onde trabalho, na Biblioteca Pública do Paraná. 2013 ou 2014? Não tenho certeza em que ano foi, mas lembro que, inicialmente, agradeceu por uma resenha que escrevi de seu Cinê Privê (2009). Ainda fez alguns comentários, contou que leu Minda-au (2010), o meu primeiro livro de contos, e disse que estava passando uma temporada em Curitiba.

Depois, numa tarde, soube que ele estava em uma oficina de criação literária na Biblioteca, talvez ministrada pelo Fabrício Corsaletti, não tenho certeza — mas ele, o mestre do conto, Antonio Carlos Viana, estava lá na condição de ouvinte. Naquele mesmo dia, depois que terminou a oficina, conversamos no hall da Biblioteca e ele fez algumas observações sobre o meu segundo livro de contos, Golegolegolegolegah! (2013), que leu na capital paranaense.

Numa outra tarde, saí da Biblioteca, passei nas Livrarias Curitiba, na loja da Boca Maldita, olhei uns livros e, ao sair, encontrei o Viana. Conversamos ali na rua, eu disse que estava seguindo pra casa, ele quis saber onde eu morava — no Centro Cívico, coincidência, o mesmo bairro onde estava hospedado.

Seguimos pelo calçadão da Rua XV e, durante o trajeto, apesar de ele, mais que tudo, fazer perguntas sobre a cidade e os hábitos dos moradores — apesar disso, o Viana me contou que estava em Curitiba fazendo um tratamento. Lutava contra um câncer. Falou que aqui tem mais recursos do que em sua cidade, Aracaju, elogiou a equipe médica — devo ter me distraído com a notícia da doença, e só voltei ao presente quando passamos por uma loja que vende produtos a partir de R$ 1,99.

Um homem, com uma mochila, foi detido por dois seguranças. Um deles abriu a mochila, onde havia produtos furtados e, a partir daquele momento, o sujeito levou tapas, foi imobilizado, enquanto dezenas de pessoas acompanhavam a cena.

Olhei para o Viana. O Viana olhou pra mim. Ficamos em silêncio e seguimos sem falar nada por algumas quadras.

Ainda naquela caminhada, de não sei quantos quilômetros, mas de uns quarenta minutos, o convidei para dois lançamentos. Eu iria autografar o Dicionário amoroso de Curitiba no dia 6 de maio — estávamos em 2014. Ele avisou que não poderia ir, tinha um compromisso: sessão de autógrafos de uma coletânea de jovens autores naquela mesma data. Mas disse que estaria, como de fato esteve [confira as fotos], no lançamento de 2,99, o meu terceiro livro de contos, dia 3 de junho, no Museu Guido Viaro.

Chegamos ao prédio onde moro, e ele falou que estava revisando, reescrevendo, contos para um livro — possivelmente o conteúdo de Jeito de matar lagartas. Convidei o Viana para um café, um vinho ou uma cerveja, até mesmo uma água, mas ele disse que não, em outro dia, quem sabe? Insisti, ele agradeceu, pela companhia, pela conversa e seguiu — estava hospedado em um flat ali, a poucos passos, na mesma rua.

unnamed-1

No dia 26 de junho de 2014, recebo um e-mail do Viana, o seguinte:

“Prezado Marcio:

Fiz uma longa viagem agora e levei seu livro. Acontece que o devorei logo na ida e fiquei sem nada para ler na volta. Claro que comprei um outro, que ainda nem comecei: ‘O rei de amarelo’. Já ouviu falar? É de um autor que influenciou, entre outros, Lovecraft. Dizem que é muito bom, gênero gótico.

Bem, vamos ao seu livro. Achei que você deixou de lado o experimentalismo do anterior [Golegolegogolegah!], que já era bom, mas para poucos. Este [2,99] é para mais leitores. Acho que foi Mário de Andrade quem disse que um conto bom fica martelando para sempre nosso juízo. De todos, o que ficou me martelando foi ‘Rastros’. Você tem uma capacidade enorme de saber fechar os contos sem atropelo, sem nada mirabolante. Tudo corre para um final que a gente sente como natural. Deve ser muita leitura de Machado. Mas há outros também que não esqueci como o da ‘Pequena Eva’, com aquela ideia tão original de um rodízio de bolachas recheadas. A forma como também termina é muito boa. Acho que o conto deve terminar sempre de um jeito que o leitor nem desconfia. Se ele descobre isso antes, acabou o conto. Não posso deixar também de falar do dos anões. É muito bem desenvolvido, passa verossimilhança, além de muito humor, ingrediente imprescindível na literatura.

Vou parar por aqui senão vou falar de conto por conto. Achei interessante a obsessão de algumas personagens em ganhar na Mega-Sena.

Parabéns por mais um livro. Sei como é difícil escrever conto. Cada um tem de ser redondo, sem brechas, e isso você faz com toda segurança, como quem não faz esforço, mas eu conheço bem esse disfarce de fazer a coisa fluir para o leitor como se a gente não tivesse desprendido muito esforço, mas tudo é fruto de muito trabalho, de muito artesanato. Mas se não for assim, adeus, literatura.

Grande abraço e que venha o próximo.”

Publiquei o meu quarto livro de contos, Mais laiquis, em 2015, mesmo ano em foi publicado Jeito de matar lagartas. Trocamos e-mails, ele já estava novamente em Aracaju e, em uma ou duas mensagens, não deixei de ressaltar a qualidade dos contos de seu novo livro. Em 2016, lancei o meu quinto livro de contos, Finalmente hoje, mas neste último ano quase não conversamos mais.

Daí, acordo no último sábado, dia 15 de outubro, com a notícia de sua morte na noite da sexta-feira 14 — o Luiz Rebinski, também amigo do Viana, telefonou me avisando. Havia o conhecimento da doença, da ameaça da doença, mas, enfim, é difícil aceitar algumas partidas, ainda mais de um sujeito como o Viana. Antes de o conhecer, já sabia de sua habilidade no conto, ele é (e é preciso afirmar isso cada vez mais) um dos grandes do gênero — autor de contos tão sublimes como os de Machado de Assis, Dalton Trevisan, Sergio Faraco, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela. Mas o convívio, mesmo breve, foi incomum.

Viana, mestre da escrita literária, também foi um sujeito generoso — e o e-mail acima revela a capacidade, e a disposição, dele para ler com profundidade e atenção a obra alheia. As observações que fez sobre o meu livro 2,99 se apresentam — vale reler — como uma aula a respeito do conto, o que aponta para outra característica dele: a inigualável gentileza que conheci desde sempre, desde o começo, desde a primeira vez.

★★★

*Marcio Renato dos Santos é autor dos livros de contos Minda-au (Record, 2010), Golegolegolegolegah! (Travessa dos Editores, 2013), 2,99 (Tulipas Negras, 2014), Mais laiquis (Tulipas Negras, 2015) e Finalmente hoje (Tulipas Negras, 2016). A convite da Casarão do Verbo, escreveu o Dicionário amoroso de Curitiba (2014), com verbetes sobre a capital paranaense, cidade onde nasceu e vive

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s