Jotabê Medeiros: Por que Belchior?

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Por Jotabê Medeiros

Sou paraibano, mas cheguei ao Norte do Paraná com apenas 3 anos. No Norte do Paraná, onde cresci, a nordestinidade não era vista da mesma maneira que em São Paulo (onde todos se tornavam pejorativamente “baianos”) ou no Rio de Janeiro (onde todos se tornavam “paraíbas”), e na qual toda a associação com o nordestino descambava para a construção civil ou o excesso sentimental.

Eu só refleti sobre isso tudo muito recentemente. Acho que, como éramos poucos nordestinos no Norte do Paraná, não fomos acossados pelo autopreconceito, ou seja: não nos vimos obrigados a nos envergonhar de nossos traços culturais. Em vez de hostilizados, éramos festejados entre os vizinhos pelo jeito sanguíneo como vivíamos as festas populares, a mitologia do sertão em nosso cotidiano bagunçado, pela surpreendente culinária de nossas mães, pela alegria comunal de nossas grandes, imensas famílias. Nosso conhecimento era admirado pelos amigos nas peladas de bola de capotão, nos hibridismos artísticos e gastronômicos.

Quando me vi adolescente, eu descobri que as palavras mais invulgares que eu conhecia eram todas provenientes da minha raiz familiar: derradeiro, encarnado, acocorado, misericórdia. Eu tinha fascínio por palavras refinadas, invulgares, pouco usadas. Como ainda tinha pouco acesso aos livros, eu tinha como balizas naquele início de vida artistas na música brasileira que tratavam bem as palavras. Pontificavam, nessa aventura, as vozes de Belchior e Zé Ramalho, dois menestréis modernos, duas paixões diferentes.

Ao mudar para Curitiba, em 1980, ouvia com frequência os dois discos mais importantes da minha formação: A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, de Zé Ramalho, e Alucinação, de Belchior. Tinha esses discos, ao lado de Desire, de Bob Dylan, como espécies de bússolas culturais, éticas, comportamentais.

Ao chegar à universidade, fui dividir um quarto na casa do estudante com o hoje doutor em arquitetura, Ademir Pereira dos Santos, trotskista anárquico. Descobri que nutríamos uma paixão em comum: Belchior. Ele ia mais longe que eu: adorava até tudo de mais modernoso que Belchior fazia, e um dia apareceu com um vinil de Cenas do Próximo Capítulo, defendendo um toque de genialidade em canções como Rock Romance de um Robô Goliardo ou Beijo Molhado. Não concordei a princípio, mas, uns 10 anos depois, descobriria que ele tinha toda razão. O disco é brilhante, e havia muitos outros que eu pulara que eram igualmente fantásticos.

Conforme começou minha caminhada rumo ao jornalismo cultural, eu me tornei consequentemente blasé e pedante e a única vez que tive a chance de falar com Belchior eu a desperdicei como um otário. Eu me patrulhava, muitos aspirantes a yuppie com os quais eu dividia mesas de bares achavam Belchior brega. Fui superficial e tolo. Mantive o telefone da casa dele como uma espécie de alerta sobre o distanciamento que a gente percorre das nossas motivações originais. Mas há alguns anos me ocorreu diagnosticar definitivamente a razão pela qual eu gostava tanto de Belchior: o artesanato das palavras.

Mais do que qualquer outro de sua geração, Belchior privilegia o texto, mas não sem respeito ao seu suporte. “Desgraçadamente, para observação do poeta, a língua portuguesa ocupa um lugar resumido, pequeno, apesar do imenso sentimento que ela carrega por causa da canção brasileira, do sentimento português, por causa do que há de africano em nossa música. Sempre fui muito ocupado no meu ofício em pensar a canção como um espaço de ressonância da música portuguesa”, ele disse, certa vez. “Não que eu valorize mais a letra do que a melodia. Mas o que o artista pretende com sua música é chamar a atenção para aquilo. A música popular também tem essa função, pode ser uma extensão da palavra, uma supervalorização da sonoridade da palavra. Por isso os textos longos”.

Não que o alcance do debate ético, do esforço estético e o campo de abrangência dos temas de Belchior sejam menores do que sua tarefa de escultor de palavras. Belchior já fazia canções concretistas em 1967, 1968, as mesmas que entrariam depois em seu primeiro disco, Mote & Glosa, de 1974. Ele fala de psicanálise, futebol, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, ditadura, migração, Dante Alighieri, Drummond. Mas o mais fascinante é que nada soa como penduricalho, nada soa forçado, é tudo orgânico, macio, encaixado. Belchior nunca é papudo – são famosos os versos de Velha Roupa Colorida nos quais ele cita Poe, Beatles e Luiz Gonzaga de uma tacada só, agarrando-se às asas do pássaro preto das três músicas.

“Como Poe, poeta louco americano Eu pergunto ao passarinho: Blackbird o que se faz? E raven never raven never raven Blackbird me responde: Tudo já ficou trás? E raven never raven never raven Assum preto me responde: O passado nunca mais?”.

Amei com alegria as menções transviadas de Coração Selvagem, que citava sorrateiramente James Dean e Sal Mineo, herois de uma geração do cinema, e a narrativa das suas tragédias românticas com tempero suburbano brasileiro.

Suas canções mais conhecidas são manifestos, foram incorporadas à História como tipos de “protest songs”, como Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais. Isso o colocou, em certa época, numa posição semelhante à do bardo Dylan, com o qual não raro é comparado, uma posição de porta-voz geracional. Mas se se procura com mais cuidado, o ouvinte encontra a defesa da comunicabilidade, da liberdade absoluta (e da ruptura com o messianismo), como o bem mais precioso o qual ele se empenha em defender, como em Caso Comum de Trânsito: “Faz tempo que ninguém canta uma canção falando fácil… claro-fácil, claramente… das coisas que acontecem todo dia, em nosso tempo e lugar. Você fica perdendo o sono, pretendendo ser o dono das palavras, ser a voz do que é novo; e a vida, sempre nova, acontecendo de surpresa, caindo como pedra sobre o povo”.

Ao mesmo tempo em que enfatiza a necessidade da rebelião permanente, da desobediência, do “eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém”, Belchior decanta a experiência de quem conhece a fundo o “aspecto medicinal que têm as coisas amargas”.

Escrever sobre Belchior é, portanto, examinar minhas próprias motivações originais, porque as palavras que ele usou fizeram parte do caminho que tenho trilhado, e parece que outras se incorporaram à minha vida no processo de escrever sua história. Não passa um dia sem que eu me pegue em algum vagão de metrô ou num ônibus repetindo a doce ênfase de um visionário para afirmar seu desejo de ser reconhecido como um homem comum. “Eu sou como você que me ouve agora, eu sou como você, sou como você, sou como você”.

★★★

Jotabê Medeiros é jornalista e escreve sobre cultura no seu blog

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6 comentários sobre “Jotabê Medeiros: Por que Belchior?

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