Santiago Santos: Das formas de desaprender uma receita

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Molho de tomate não é a mesma coisa quando você compra pronto no mercado. Nunca é. Nada como comprar os tomates vermelhinhos na feira do Universitário sexta à noite, salsa, pimenta, cebola. Nada como tirar as cascas, as sementes, picar, jogar na panela, cozinhar no fogo baixo até os pedacinhos derreterem, cortar a cebola, misturar os temperos, mexer, mexer, jogar na palma da mão, lamber, acertar o sal, checar o celular, bater no cabo da panela com a cintura, tentar segurar, a panela cair e o molho despelar seu pé inteiro e você entrar de ambulância na emergência do São Mateus pro plantonista perguntar a mesma coisa que o paramédico perguntou e você se ver explicando enquanto um sedativo é aplicado na veia e a dor não para.

O engraçado é que o teto do ambulatório do São Mateus tem uma rachadura minúscula que lembra a rachadura que tinha na sala do colégio Notre Dame, embaixo da janela, uma rachadura que te chamava a atenção enquanto o professor explicava alguma equação ou as propriedades do carbono ou o meridiano de Greenwich. Foi perto dessa rachadura que você fez uma colinha com as fórmulas pra prova de física e o professor sacou ao distribuir a prova e te mandou pra coordenação, onde sua mãe chegou uma hora mais tarde, brava porque teve que deixar a outra recepcionista do consultório atendendo sozinha enquanto ia ver o que a filha, que era sempre obediente, tinha aprontado.

Mais engraçado ainda é lembrar que, na verdade, o telefone verde que ficava na sala da coordenadora era igualzinho o que ficava na casa da sua avó, pra onde você ia todo domingo almoçar e passar a tarde com a família, quando seu pai dizia que tinha que terminar de corrigir as provas da escola, mas de vez em quando ia obrigado, o que era engraçado, porque a sua avó adorava ele mas o seu avô odiava, e ele se via naquela situação estranha quando a sogra elogiava e o sogro fazia pouco caso.

O que não é nada engraçado é que o seu avô usava uma camisa branca de botão quando ficava sentado na cadeira da varanda depois que acordava do cochilo, vendo o movimento na rua, comendo algum doce, e você adorava ficar ali com ele. Você deitava numa cadeira e encostava a cabeça no colo e ganhava cafuné, e o enfermeiro que vem te checar de hora em hora tem uma camisa igual a do seu avô, e você comenta isso, e ele passa uma pomada de queimadura e você não consegue se segurar e geme, e ele segura sua mão e pede pra ter calma. Todas as vezes que vocês comem em casa (mandar filho pra escola é caro e não sobra pro restaurante) e cozinham algo com molho de tomate, usam aquele pronto do mercado, porque molho de tomate não é a mesma coisa quando você inventa de fazer caseiro. Nunca é. Você gosta de pensar que ele não liga pras marcas que ficaram no seu pé, porque ele não liga mesmo, diz que se não fosse isso não teria te conhecido. Você abre o maior sorriso quando ele chega da feira. Ele traz os tomates pra salada, verdinhos.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe
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