Aline Bei: Fumaça

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encostei na cerca pra ver
aquelas crianças
jogando futebol depois da chuva.
me subiu um cheiro de terra molhada junto com uma plena consciência de estar viva
e o tamanho da liberdade que isso representa.
sentei na cerca,

-atrapalha se eu ficar aqui?
olhando vocês.
-não tia. – eles disseram,
concentrados no jogo.

quando a bola voava em busca da rede
com ela ia um pouco de lama também
e todos os olhos do campo inclusive os meus, aquele formato redondo era um imã até pra mim que,
porque decidi assistir a partida, comecei a me envolver emocionalmente com a partida
mesmo sem gostar de futebol.
ver as pessoas fazendo alguma coisa juntas
me dava um alívio,
então é possível nos desligar de nós mesmos por uma causa, ainda que seja um jogo e suas questões táticas.
a alegria no campinho começava nas camisas coloridas,
arco íris quando eles se juntavam pela bola
e cor de pele do único menino sem blusa. ele jogava bem,
era ágil,
deve ser por isso que ele sentia mais calor.
não tinha ninguém apitando a partida.
só um louco doaria seu tempo pra apitar um jogo de criança.
(eu apitaria
se soubesse as regras e tivesse um apito, minha infância eu passei bastante em casa
assistindo tv).

no campo
não tinha relógio além do céu.
o barulho dos pés chutando a bola
dava até uma
batucada pra quem escutasse com atenção
juntando com os gritos de vai, vai
joga pra mim e
gol
virava quase um samba
mas a Vista
dos meninos jogando
era mais bonita do que qualquer som que eles faziam.
parecia um quadro
gigante
me abrindo por dentro. 1 deles
chutou a bola no ângulo fazendo tremer a rede, o goleiro caiu de joelho pra tentar defender, não conseguiu.

-machucou?
-peraí gente,
o Marcelo machucou.

pararam o jogo.
o goleiro não chorou
mas abriu um rombo e tanto naquele joelho pontudo.
lembrei de um machucado que fiz
também no joelho
quando eu tinha mais ou menos a idade desses meninos. eu sentia orgulho do meu machucado, usava shorts pra mostrar o curativo.

Dói? – me perguntavam.

eu dizia que muito
e fazia cara de choro depois segurava pra mostrar coragem,
era mentira,
doeu na hora
depois passou.
quando virava casquinha eu cutucava
pra sangrar de novo
o machucado rendia semanas
a atenção especialmente de mamãe.
como eu era exigente com ela
na minha vontade insaciável de receber carinho.
a molecada voltou pro jogo.
o goleiro fez sinal com o dedão de tô bem,
tô bem,
que moleque forte meu deus
que paixão pela bola.
eles continuaram animados por um tempo
a tarde caindo demorada até que
a mãe do moleque sem camisa o chamou pra jantar.
pela janela da casa marrom saiu o berro da mulher
velha demais pra ser mãe de alguém tão novo. podia ser avó talvez.
podia ser seu filho caçula.
o moleque sem camisa largou tudo e se mandou pra casa, disse um tchau tão rápido pros amigos
o berro da velha não era brincadeira.
os meninos continuaram jogando, mas
engraçado
faltando o moleque sem camisa não estava mais tão legal.
pensei em me oferecer pra ficar no lugar dele
sou adulta
mas jogo tão mal que meu tamanho não tira vantagem de ninguém quando a chuva
começou de novo
deixando o mato pesado e as mães
chamando
os meninos de volta
com medo de gripe e raio.
nenhuma voz de mãe foi tão dura quanto a da velha que berrou, então os meninos
se apressaram bem menos do que o sem camisa. enrolaram com a bola mais um pouco até o limite de fecharem a porta de casa cabisbaixos pensando depois da janta o que mais?
banho?
televisão?
e cama,
amanhã é outro dia,

-amanhã o campo seca.

disse um menino de amarelo
tentando animar a turma.
ele colocou a bola debaixo do braço não sem certo orgulho e entrou pra casa ganhando um cafuné da mãe de unhas feitas.
fiquei sentada na cerca por mais uns minutos
olhando pro campo que esfriava devagar.

★★★

alinebei

Confira os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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